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Como vim parar ao Caramulo

Honras de primeira página…

 

Infelizmente por ter sido devastada por um dos piores e mais violentos incêndios deste verão, a serra do Caramulo tem enchido e preenchido os noticiários das últimas semanas. Nunca o Caramulo foi tão falado na comunicação social. A beleza da paisagem, os museus ou a história do que foi um dos maiores centros de tratamento da tuberculose em Portugal nunca interessaram os jornais ou as televisões. Foi preciso a serra ser consumida por um gigantesco incêndio, para ter honras de primeira página. É assim o pais que temos.

Agosto, 2013


 

Sempre tive pouca propensão para grandes comezainas e pouca paciência para estar muito tempo à mesa. Em criança, o meu físico franzino e a relação difícil que mantinha com as horas das refeições, levavam a minha mãe ao desespero e a minha avó a repetir diariamente: “Se não comes, ficas na estica e ainda vais parar ao Caramulo.”

Na altura, eu nem fazia ideia onde era tal sítio e muito menos que esta ameaça estava relacionada com a fama da serra do Caramulo no tratamento da tuberculose, doença que apavorava o imaginário de todas as famílias e obviamente, da minha avó.

Mal eu sabia também que estas palavras iam ser premonitórias, não pelas sórdidas razões que a minha avó imaginava mas porque viria a partilhar a vida com alguém cujas raízes estavam precisamente no Caramulo e que mantinha fortes ligações afectivas à terra. Foi assim que, pela primeira vez em 1983, sem saber muito bem como nem porquê, fui mesmo parar ao Caramulo.

Ao princípio, devo dizer que não achei grande graça à ideia e custava-me a compreender o entusiasmo que o meu marido punha em passar as férias numa terra que além de estar longe do mar, não tinha praticamente nada que a recomendasse a não ser a paisagem em que estava inserida e os dois museus ali existentes, sem dúvida com interesse, mas que já tínhamos visitado várias vezes. O resto eram ruínas de antigos sanatórios, uma mercearia, um café, o posto dos correios e pouco mais.

Mas, tal como acontece com muitas outras coisas na vida, e como dizia o poeta, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Foi precisamente o que aconteceu comigo e com o Caramulo.

A paisagem é difícil de descrever, porque além de ser muito variada, apresenta constantes mutações ao longo do dia. A serra tem duas encostas completamente diferentes, uma, virada a Oeste, onde predominam as rochas de xisto com as suas lâminas de tons negros e ferrugem; outra virada a Leste onde os grandes penedos de granito formam figuras fabulosas que parecem ter sido ali depositadas por gigantes vindos de outro planeta.

Toda a serra, rica em cascatas de água e densamente arborizada com árvores de grande porte, nomeadamente, pinheiros do norte, carvalhos, castanheiros e, mais recentemente, eucaliptos, é propícia a grandes caminhadas pelos muitos trilhos ali existentes ou à prática de alpinismo, para os mais aventureiros. Para além disso, no Cambarinho, existe uma reserva natural de loendros, arbusto indígena milenário, com flores brancas e lilazes, raro testemunho da flora da era terciária. No Outono, a folhagem das numerosas tílias que povoam o parque da vila do Caramulo e que ladeiam a sua rua principal, é de um amarelo tão intenso e tão magnífico que, só por si, vale bem uma visita

Do Caramulinho e do Cabeço da Neve, dois pontos altos da serra, a paisagem é de cortar a respiração. À nossa frente estende-se, a perder de vista, todo o planalto da Beira Alta até à cordilheira da Serra da Estrela cujo recorte limita o horizonte.

De manhã cedo, o chamado “mar de nuvens” é simplesmente deslumbrante. Todo o vale se encontra coberto por nuvens brancas e densas que, vistas de uma altitude superior, parecem as ondas de um mar de algodão. À medida que o dia avança e que a temperatura aumenta, as nuvens vão-se dissipando, deixando entrever as várias povoações que, envoltas em neblina, transformam o vale numa paisagem irreal e misteriosa. O “mar de nuvens” é sempre diferente e está em constante mutação. Há dias em que é de um branco acinzentado muito denso e outros em que aparenta ser mais transparente e mais rosado; umas vezes as nuvens são mais planas s e homogéneas, outras vezes, mais irregulares e altivas, tal como as ondas do mar.

Não menos deslumbrantes que o “mar de nuvens” são as noites do Caramulo, quando a brisa da tarde cai, as folhas das árvores se aquietam, o canto dos pássaros se cala e a escuridão da noite nos envolve e nos enche os olhos com um céu magnífico e com a infinidade das suas luzes cintilantes cuja existência a nossa vida citadina já nos tinha feito esquecer. É como se, subitamente tomássemos de novo consciência dos mistérios insondáveis do universo e da nossa infinita pequenez.

É claro que estamos a falar do verão, porque os invernos do Caramulo são sempre prolongados, gélidos, muito chuvosos, quando não com alguma queda de neve, e por isso mais propícios para conversas e leituras à lareira. E como o nevoeiro intenso impede geralmente o desfrutar da paisagem e os passeios na serra, há dois excelentes museus que merecem ser visitados.

O mais conhecido é o Museu do Automóvel, penso que único no País, que reúne uma colecção de carros e motociclos antigos muito curiosos. É um museu que agrada a gente de todas as idades, mesmo aos que não são fans de automóveis, pelas peças raras e valiosas que tem. Todos os carros se encontram muito bem conservados e prontos a funcionar, inclusivamente o mais antigo, um Peugeot de 1899. Para além disso tem algumas curiosidades, entre as quais um Bugatti de 1930, um Ferrari de 1950, um Pégaso de 1953 que o General Franco ofereceu ao Presidente Craveiro Lopes e os automóveis utilizados por Salazar: um Cadillac de 1947, no qual se deslocava regularmente, um Chrysler de 1937 que usava em ocasiões esporádicas e um Mercedes blindado, oferecido por Hitler, que raramente utilizou.

O outro é o Museu de Arte. Trata-se de um edifício relativamente pequeno, de planta quadrangular, construído nos anos 30 do século passado e cuja “peça” mais curiosa é um claustro que pertencia a uma Igreja do séc. XVII e que foi inteiramente reconstruído e integrado no pátio interior do museu. Além disso, apresenta um conjunto de outras obras valiosas, a maior parte das quais oferecidas, que inclui pintura medieval, arte sacra, vidro, cerâmica, ourivesaria, mobiliário, pintura contemporânea, entre as quais um quadro de Picasso e um desenho de Salvador Dali, oferecidos ao Museu pelos próprios autores. Vale a pena mencionar o magnífico conjunto das tapeçarias flamengas de Tournai, sobre o tema dos Descobrimentos, encomendadas por D. Manuel I.

Falta falar daquilo que foi a razão de ser do Caramulo: a Estância Sanatorial destinada ao tratamento da tuberculose. No seu auge, nas décadas de 1930 e 1940 chegou a ter 20 sanatórios, de dimensões muito variadas, e mais de 2000 doentes internados. A partir de meados de 1950 entrou em declínio e alguns dos sanatórios foram demolidos e outros transformados em lares para idosos. Um deles, o antigo Sanatório Salazar é o actual Hotel do Caramulo. A maioria encontra-se actualmente em ruínas e à venda. Espreitam-nos a cada esquina da vila, impondo-nos teimosamente a memória do passado. Infelizmente, para além dos edifícios, pouco resta que permita fazer a história da “Montanha Mágica” portuguesa. Grande parte da documentação extraviou-se e o mobiliário foi-se perdendo, corroído pelo tempo.

Se a minha avó fosse viva, teria hoje 123 anos. A esta hora, lá na estrela onde ela mora, deve-se estar a rir e a pensar. “Eu bem dizia que ela ainda havia de ir parar ao Caramulo”. São sempre sábias as palavras das nossas avós.

Fotos de Isabel Almasqué

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

Últimos comentários
  • Isabel, adorei e ainda nem li tudo com atenção.
    o Caramulo é isso mesmo – primeiro estranha-se, depois entranha-se.
    parabéns e muito, muito obrigado pelas suas palavras e a sua sensibilidade!
    Á boa maneira beirã: BEM HAJA!

    • Meu caro António Ferreira,
      muito obrigada pelo seu comentário. Este texto foi escrito em 2013, quando o a Serra do Caramulo foi devastada por um enorme incêndio de má memória. Infelizmente continua actual. Espero ter contribuído para a divulgação das belezas do Caramulo que me souberam cativar e bem merecem a atenção de todos nós.
      Cumprimentos.
      Isabel Almasqué

  • Dra. Isabel, gostei muito do que li. Porque eu sou caramulano e residente e mem sempre conseguimos disfrutar da beleza que esta terra tem. Mas por outro lado tive a sorte de cunhecer um casal magnifico, dr. Veloso e dra. Isabel que vão ficar no meu coração até ao final dos meus dias e me passarão muito do cunhecimento que têm sobre o passado desta fantástica vila do caramulo. Um grande abraço deste amigo. Joaquim cabaças.

    • Obrigada, Joaquim, pelas suas palavras. Eu não sou caramulana mas fui aprendendo a gostar dessa terra, sobretudo através do convívio com alguns caramulanos, dos quais você e a sua família fazem parte. Grande abraço.
      Isabel Almasqué

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