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A Europa é um corpo decadente

“A Europa é um corpo decadente”, dizem os herdeiros dos Nazis. Queremos é um Putin para por ordem nisto tudo, acha a Front National francesa. O Berlusconi concorda – diz-se por aí que é um grande apoiante do novo ditador russo.

Entretanto, os tristes dos ucranianos, que só queriam uma vida honesta e livre, vão acabar esmigalhados como os sírios! Que porra de primaveras!! Afinal, os egípcios até tiveram sorte.

E, já agora, o melhor é nem sequer perguntar aos ingleses do UKIP que é que eles acham sobre a Europa, que é para não termos que nos sentir humilhados pela xenofobia deles! Na sua opinião, a culpa deste descalabro é toda de gente como nós: os portugueses, os húngaros, os gregos. Os franceses já se esqueceram do Pétain e os ingleses julgam que ainda há por aí restos do império britânico a flutuar no meio dos mares.

Essencialmente, a nova direita europeia grita bem alto que fomos enganados pelos Americanos com promessas falsas e depois tivemos que pagar a crise mundial por conta deles. E, já agora, quem é que nos países periféricos da Europa tem alguma dúvida sobre o facto de que as nações centrais da União Europeia não souberam nem quiseram demonstrar o mínimo sentimento de fraternidade europeia face à “crise”? “Austeridade,” chamam eles ao perverso agiotismo realizado à escala mundial. Estão-se nas tintas; é que, para eles, nunca esteve tão bom. Até se queixam, vejam lá, de que os salários na Alemanha são baixos!!

Desde 2008 que a elite financeira mundial continua a acumular riqueza a taxas superiores a 15% ao ano. E não pensem que, em Portugal, não é assim, porque é igual por toda a parte. Mas, entretanto, há toda uma geração de portugueses, gregos e espanhóis que entrou na vida adulta com taxas de desemprego inamovíveis da ordem de 50%. Quer dizer, metade de uma geração de gente que, daqui a umas décadas, vai morrer de fome nas ruas ou de tédio nas filas do subsídio de desemprego.

Ainda outro dia a Europa era uma promessa, agora que é? Vamos ter que fazer este exercício democrático mais uma vez e será que nos sentimos bem ao fazê-lo? Isto é, será que o eleitor médio europeu vai sair de frente daquela caixa de voto com a sensação de que soube contribuir para o seu futuro? A resposta só pode ser positiva para quem, como os votantes do UKIP ou do Front National, querem acabar com esta Europa que o ódio à guerra construiu.

Sim, porque o ecumenismo europeu que deu corpo à União Europeia resultou das lições aprendidas durante três miseráveis guerras europeias e os seus ainda mais miseráveis intervalos (a Guerra Franco-Prússia, a I Guerra e a II Guerra – bom, e não conto com a guerra que está presentemente em curso que, como é económica, se chama “austeridade”).

Que fazer? Bom, votar ou não serve para pouco. O que é importante é todos termos muito a certeza do que não queremos: não acreditamos que os milionários devam continuar a ficar mais e mais ricos; que os agiotas controlem o mundo; que os xenófobos e os fascistas tenham direito à ideias deles. As ideias deles são más, ignorantes, e estúpidas. Há ideias e ideais aos quais ninguém tem direito, caramba!

Temos que gritar mais e mais alto pelos ideais do ecumenismo europeu, pelos ideais do humanismo social democrata, pelos ideais de prosperidade com paz, pelo respeito por todos os seres humanos (não só os da nossa cor, nação ou disposição). Temos que chamar ditadores aos ditadores, agiotas aos agiotas, ditadores aos ditadores, hipócritas aos hipócritas. E, já agora, temos que acabar com essa ideia de que não há outra maneira de fazer as coisas. O mundo físico está a esvair-se debaixo dos nossos pés mas nós continuamos com um modelo de crescimento que foi concebido há três séculos atrás quando havia no mundo uma porção ínfima dos humanos que hoje ocupam a terra.

Foto de Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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