De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A minha prima Conchita

Sempre que em qualquer congresso médico, mesmo nos confins do mundo, os meus colegas se atarefam para encontrar um restaurante adequado para festejar a nossa chegada, a minha resposta é invariavelmente a mesma: “não posso ir com vocês porque vou jantar com uns primos”. Assim se passou em Barcelona, em Paris, no Rio de Janeiro, em Santiago do Chile, em Singapura e por aí adiante. Por isso, quando este grupo de amigos me propôs ir a Cuba, a minha resposta só podia ser uma: “calha mesmo bem porque tenho lá uma prima”. Pois é, é a minha prima Conchita.

a minha prima conchita
a minha prima conchita

Nascida no Chile, foi para Cuba em criança com a família, ainda no tempo da ditadura de Baptista. O pai, meu tio avô Alberto, era director de uma multinacional em Havana. Em 59, a seguir à revolução, voltaram todos para Espanha, mas alguns anos mais tarde, por razões insondáveis, Conchita decidiu voltar para Cuba. Entretanto arranjou maridos, filhos, afectos e uma história de vida que se confunde com a própria revolução. Vive com poucos meios numa casa modesta perto de Havana. Tem um ar requintado e doce que sobressai da simplicidade um pouco rude do resto da família. É reservada não sei se por feitio se por necessidade. Não sei se é feliz. Não sei se alguma vez se arrependeu da escolha que fez. Não sei se alguma vez desejou mudar de vida. Não sei sequer se pensa nisso. Mas sei, que quando nos viu chegar, a alegria explodiu nos seus olhos e os seus braços se abriram de par em par para nos receber. Foi como se o tempo parasse durante aqueles instantes entre risos, palavras, gestos, “mojitos” e muita alegria. Foi como se não houvesse nem Cuba, nem Fidel, nem Portugal, nem Espanha. Apenas a natureza humana e a força dos sentimentos.
Era a segunda vez que via a minha prima Conchita. A primeira tinha sido já há 5 ou 6 anos numa curta passagem por Lisboa. Já nem me lembrava bem da cara dela. Mas foi como se os nossos genes comuns (até dizem que somos parecidas) se reconhecessem e se identificassem naquele instante. Foi como se nos tivéssemos visto no dia anterior. Que pena não haver congressos médicos em Cuba, para eu poder jantar mais vezes com a minha prima Conchita.

Isabel Almasqué

Abril 2016

a minha prima conchita

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Partilhar
Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

Sem comentários

COMENTAR