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A Serra da Capivara: Vermelho sobre ocre produz felicidade lilás

O céu aberto com farrapos de nuvens prateadas é de um azul candente; o sol que jorra sobre nós a sua luz intensa parece não ter cor; a terra é de um ocre laranja que por vezes chega a vermelho vivo. No entanto, curiosamente, quem feche os olhos tem a sensação de estar imerso num universo de luz roxa ou lilás, como quem acaba de sair de um quadro do Bonnard, onde as cores fortes se anulam umas às outras, causando a impressão de um branco universal.

É essa a luz do Brasil, tão diferente das outras luzes; uma luz que tem algo de escuro em si; uma atmosfera onde a possibilidade da noite se anuncia no meio do clarão diurno.
Quem, de cima da escarpa, olha para a savana a perder de vista, vê o horizonte bordado de um azul arroxeado que faz lembrar o mar. Mas não, o mar fica muito longe de aqui.
Estamos no meio do Brasil, para o interior e a norte do grande Rio de São Francisco, no fim-fundo do Estado do Piauí, perto de uma vilinha meia morta mas colorida, rebaptizada há uns anos atrás de São Raimundo Nonato. Lá de cima ouve-se o vento, o restolhar das ervas, o piar intenso dos pássaros no ninhos escondidos nos paredões. A perder de vista só há mais arbustos, só mais terra, só mais rios, só mais montes e, lá dentro—mas isso cá de cima não se consegue ver—, muita gente pobre a labutar na terra, muitos burros tristes a transportar carga, muitas camionetas velhas assinaladas de “Jesus é fiel” fazendo o seu caminho fumarento por estradas tortuosas, muitas cabras, capivaras, cobras, escaravelhos e, no céu, de um lado para o outro, como se fossem cometas negros sobre um fundo brilhante de anil, andorinhões velozes. Sentimo-nos longe, tão longe!

A falésia, que desce abrupta por baixo dos nossos pés, tem mais de cinquenta metros de altura nos pontos altos e desdobra-se em camadas de pedra branca, rosa e amarela embrulhada em espinheiros e trepadeiras. Abre grutas em forma de prateleira, espécie de estantes sobre o mundo, onde o muro de dentro da falésia é feito de grandes painéis de pedra ocre ou rosa; um arenito claro que se esboroa facilmente debaixo das nossas unhas. Quem olha para um mapa ou uma fotografia de satélite apercebe-se logo da quebra geológica, cujo recorte se assemelha ao debruado de uma falésia marinha.

Aí nesses recantos, as gentes de outros tempos desenhavam divertidos, com pedaços de pedra vermelha, tudo o que lhes vinha à cabeça. A princípio, os desenhos eram efémeros, mas com o tempo e a humidade a parte desenhada acabava por oxidar, ficando gravada para sempre a vermelho sangue nas paredes das grutas e reentrâncias do paredão, como se fossem memórias de pedra. Foi o tempo e a química do ocre que nos legaram este fascinante espectáculo multicolor: centenas e milhares de desenhos soltos, descontraídos, alegres, perenes na juventude que exalam! Toda a intricada falésia, desembrulhando-se em montículos cónicos e recobros profundos, funcionava como um habitat protector para os homens de outros tempos, há muitos milhares de anos atrás. Ao que parece fechavam as varandas com paredes de arbustos e folhas. Para subir até lá punham-lhes escadas que à noite retiravam como forma de protecção. Quem sabe, como o fogo com que cozinhavam escurecia as paredes, era provável que eles próprios não conseguissem ver a riqueza dos desenhos que nós hoje vemos. Só viam o que cada um deles, mais recentemente, tinha sarrabiscado.

A Serra da Capivara
A Serra da Capivara

Seriam índios? Talvez, mas só num certo sentido. Ao que parece tinham pouco a ver com as populações que por aqui estavam quando os portugueses chegaram no século XV. Os arqueólogos não nos sabem dizer que género de gente pintou estas paredes, porque já havia por aqui homens e mulheres a fazer gatafunhos há cerca de uns 30.000 anos atrás! A distância temporal é tão grande que parece não fazer sentido. Não sabemos, de facto, se esses desenhadores pertenciam ao mesmo movimento populacional dos que vieram da Ásia aí uns 16.000 anos depois, atravessando o Estreito de Bering durante o “último máximo glaciar” (como lhe chamam os arqueólogos), quando o nível do mar era mais baixo por as águas estarem retidas em grandes massas polares. Os arqueólogos não conseguem concordar e, precisamente, as falésias que lentamente trepamos, e as pedras de quartzo rachadas que por aqui encontramos, constituem um dos grandes pontos da contenda viva que há entre eles sobre quem mesmo terão sido os primeiros ocupantes das Américas.
Até porque já nem esses índios que por aqui andavam ainda há um século estão presentes. Um dia, lá nos meados do século XIX, apareceu por aquelas redondezas um branco de barba rala e olhar esquivo munido de uma arma de fogo de carregar pela boca a quem o estado brasileiro tinha prometido que, se ele matasse todos os índios que ocupavam aquelas terras, elas passariam a ser legalmente suas. Então ele não teve mais, caçou e caçou índios como quem não vê um fim à coisa. Por fim, os poucos que sobreviveram ao bacamarte e à catana do facínora fugiram em direcção à selva profunda, lá muito a norte, onde já não havia brancos que quisessem ir atrás deles. Depois, o tal tipo do bacamarte obteve os papéis para a terra e lá acabou os seus dias aterrorizado por si mesmo, vivendo como índio, acompanhado de uma mulher índia, que por sinal ele tinha desistido de matar. Mais tarde passaram por aqui uns missionários que foram re-convertendo os descendentes à sua maneira. E assim foi o recomeço: a terra foi dividida pelos filhos dele e pelos netos e pelos bisnetos e, por altura que uma pequena mas aguerrida arqueóloga descobriu que as pinturas rupestres nas reentrâncias da falésia poderiam ter um interesse público mais geral, já os seus esfomeados descendentes eram mais pobres que os índios que ele tinha morto.

E nas paredes da falésia, nos tetos dos patamares escavados no paredão, nas dobras debaixo de pedras maiores e mais duras, por entre esses recortes da falésia—de onde se vêm vistas profundas do sertão encaixilhadas por ramos de espinheiro—, ficaram esquecidas as marcas da vida dessas outras gentes tão anteriores, escritas a vermelho sangue sobre um fundo rosa ou amarelo. Aí, encontramos um grupo de macacos aos saltos; depois uma série de emas; mais adiante umas capivaras—esses roedores de tamanho de porcos que eram tão fáceis de apanhar e tão deliciosos de comer… mas o que espanta mais ainda é o sentimento de felicidade que emana de todas aquelas pinturas. Mesmo nas cenas guerreiras, há uma energia juvenil que se desprende daquelas memórias de vida.

A Serra da Capivara
A Serra da Capivara

Nem é fácil para nós hoje julgar da natureza do espaço onde os desenhos se encontram e da relação física de quem as pintava com as próprias paredes. Às vezes, pode-se ver bem que havia um pedregulho grande no chão que funcionava como andaime para uns tantos sarrabiscadores que, assim, conseguiam chegar ao teto da gruta. Mas é difícil saber se, quando eles pintavam, a gruta era mais ou menos funda do que é hoje, se o nível do chão era mais abaixo ou mais acima, se havia um tapume transformando uma reentrância na falésia no quarto escuro onde habitava o pintor … ou, quem sabe já agora, pintora—é que não há qualquer razão para assumir que fossem só homens, ou mesmo até sobretudo homens, a pintar estas maravilhas.
Hoje passava um e desenhava dois homens caçando um veado; depois passava outro que, divertido, desenhava uma mulher no parto—seria a mulher dele, que lhe tinha dado um filho, ou só o desejo de ter um? Mais tarde, um outro deixava uns rabiscos que rememoravam um percurso de caça. Às vezes vê-se que houve investimento cuidado; uma preocupação decorativa que preenche com padrões geométricos as figuras de pessoas ou de animais. Outras vezes parece até que o pintor estava simplesmente a acompanhar o que dizia à sua audiência de amigos com um caco na mão, como um professor que usa o giz menos para escrever do que para assinalar movimentos conceptuais.

Passados uns séculos, houve ainda um outro que desenhou uma série inteira de guerreiros decorados de plumas com lanças nas mãos a dançar em roda; um veado a saltar junto com a cria; um xamã decorado da cabeça aos pés falando pela noite dentro a sua fala ritmada e cantando as histórias que os velhos sabiam. Não seriam as mesmas histórias que o Lévi-Strauss analisou na sua obra magna—as Mythologiques—porque foi tudo muitos milhares de anos antes dos brancos terem gravadores. Mas não seriam também assim tão, tão diferentes; porque em matéria de sentimento místico os humanos seguem caminhos bastante comuns—como, aliás, também o mestre assinalava.

Num paredão passa uma onça. Ora, nós tínhamos acabado de ver uma outra a passar, assustada, fugindo do ruído do carro. Ficámos atónitos, pois achávamos que, no Brasil, já só havia onças nas notas de cinquenta reais. Só que a onça que vimos na janela à nossa frente não tinha o ar solto, o aspecto feliz, o divertimento desta que aqui estava pintada. A questão é que a onça no paredão, tal como as emas apetitosas e os veados rodeados por grupos de homens, não são só animais de outros tempos—tempos mais felizes para os animais e os humanos; são também obras da mão de gente que via neles muito mais do que hoje nós sabemos ver. Eles viam nos animais uma possibilidade de transformação de gente; sentiam que o que é virá a ser outra coisa e que, por trás do que se vê, existem muitas possibilidades: outras vontades, outras intenções, quem sabe outras mentes. A mão que pintava o xamã a dançar ou um grupo de guerreiros dando voltas ao terreiro e cantando, era uma mão transcendente; mão de alguém que tinha acesso à sua própria estranheza, que sabia espantar-se com os desenhos que ela própria traçava.

Estas paredes não são painéis nem retábulos, são palimpsestos. Quem sabe quantos dias, anos ou séculos terão passado entre uma e outra linha? Entre um desenho e o que lhe passa por cima; entre umas mulheres ajoelhadas e a parte de trás de um urubu que seca as suas asas. Estas paredes são armários de tempo e emoções, onde muitas coisas dispersas se encontram apinhadas em comum, como jóias de origens distintas amontoadas num baú de pirata. No baú do malfeitor, porém, o que reúne aquelas jóias é a infelicidade dos que foram roubados. Pelo contrário, aqui, é a felicidade de estar vivo que reúne estas coisas dispersas. E, enquanto no caso do pirata a má sina se acumula; aqui a felicidade é contagiante e por isso passámos por lá dois dias totalmente deslumbrados.

Tivemos sorte, porque apanhámos o parque em pleno funcionamento quando, por mero acaso de um jantar em Petrolina, decidimos lá ir. Nem sequer a perigosíssima estrada que ladeia o Rio de São Francisco a norte nos fez desistir, quando cedo percebemos ao que íamos. Tudo aquilo é o trabalho da tal arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que dedicou uma vida a conceber e proteger este espaço abençoado. Mas o estado brasileiro hesita sobre o seu apoio e o parque está moribundo. Fechado em 2016, foi reaberto em 2017. Um filósofo inglês dizia que fazemos crescer a natureza humana de cada vez que passamos a conhecer mais uma nova maneira de ser humano. Não quero crer que quem prefere a ganância cega ao alargamento da natureza humana venha a ganhar no fim. Tenho fé que muitos mais visitantes ocasionais como nós saibam falar alto sobre a riqueza extraordinária do que lá está naquelas grutas, para que os tíbios e os ladrões se envergonhem.

A Serra da Capivara
A Serra da Capivara

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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