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A Serra de Capivara

Fomos ao Piauí por acaso. O plano inicial era subir a costa do Brasil a partir de Salvador da Baía…

Já com um dia de viagem, estávamos com a Mónica e o João em Petrolina. Na parede do simpático restaurante junto ao nosso hotel, lindas fotografias da Serra da Capivara agarraram os nossos olhares. Pareciam convidar-nos a um “venham daí” com promessas de beleza.

Por que não ir ao Piauí?

Acabámos o jantar com a resposta colada aos planos dos próximos dias. Desviámos rumo a São Raimundo Nonato, por aqueles terríveis 1600km de estrada esburacada.

Ficámos instalados no Hotel Serra da Capivara, onde uma guia local nos veio buscar pela manhã.

Entre os maravilhosos canyons esculpidos por rochas sensuais viveram, muito lá atrás, Humanos que deixaram mensagens do que lhes ia na alma. Naqueles traços reconhecemo-nos ainda agora.

Tendo prolongado a nossa estadia muito para lá do que os outros turistas fazem, ao fim de alguns dias já tínhamos visitado todos os locais mais acessíveis para olhar as pinturas rupestres.

Foi então que a nossa guia nos quis mostrar algo especial.

Rosa dizia saber o caminho.

Seguimo-la sentindo a vegetação fechar-se em nós enrolando-se em formas que encantavam os olhos. A terra era seca. Cedo os arbustos cobriam as nossas cabeças. Sentia-me a penetrar uma pintura abstracta. Quando de repente levantamos os olhos já nada se via, estávamos cercados de riscos, curvas, texturas e cores da terra.

Rosa estava perdida.

Serra da Capivara
Serra da Capivara

Por entre a vegetação espinhosa quase que farejámos o caminho de volta onde encontrámos uma esguia mãe que levava pela mão um burro e nele a sua linda filha.

Ela sim sabia o caminho para a parede proibida.

O seu Pai nunca a deixara ir ver aqueles desenhos “nus e obscenos”. Como uma gazela, mandou a filha e o burro para casa, e em passo curto e certeiro, foi directa ao local interdito da sua infância.

Soubemos agora que aquele maravilhoso parque criado em 1979, protegido e acarinhado pela arqueóloga Brasileira, Niède Guidon, e apesar de ser património mundial da Humanidade pela Unesco, fechou este ano as suas portas.

Niède Guidon, já com 83 anos e incapacitada de lutar no terreno pelo parque, viu o seu esforço esconder-se de novo pelo tempo, pelos arbustos, pela ignorância e corrupção.

Não foi só perante aquelas gravuras que senti o espaço e o tempo colapsar na sensação do que me liga à Humanidade. Naquele parque, numa passagem ventosa entre dois montes ou num esgueirar do corpo entre rochedos, vivi em mim a experiência de tantos outros Humanos que por ali passaram. Devem ter parado exactamente no mesmo sítio, virado a cara, como eu, para sentir o vento e olhar a planície. Já conscientes da sua experiência subjectiva traçaram imagens, fizeram Arte ao explorar para lá dos limites do corpo e do conhecido.

Porque é que a onça passou?

Meio dia, ia alto o sol, sem sinais do calor abater.

Quando sem medo, uma onça atravessou o nosso caminho.

Era longa, linda, felina. Esguia como uma visão que logo se eclipsa.

Ficou para sempre gravada no contraste das suas manchas contra a cor da terra quente, no cruzar do seu olhar desprendido e no movimento que nos deixou no corpo.

Vejam a onça! Rosa, exclamou.

Em 10 anos nunca tinha visto uma onça no parque. Ao olhar para mim, Rosa apontou para o pequeno lenço estampado de pele de onça que eu levava ao pescoço e disse:

Foi por causa do seu lenço que a onça passou!

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Serra da Capivara
Serra da Capivara
Serra da Capivara
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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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