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Anatomical Theatre

Andrei Sen-Senkov, Anatomical Theatre, 2014

Chega-me à mão um nome, Andrei Sen-Senkov. E a indicação de que é um jovem médico, da idade dos meus filhos (para mim qualquer idade entre os 40 e os 50 é jovem…) e escreve poesia, tendo um dos seus livros já sido publicado em inglês.

Encomendei pela Amazon. O título é TEATRO ANATÓMICO , se fosse traduzido para português, Anatomical Theatre, retirado do último ciclo de textos com que fecha a sua obra, dando ao leitor, com alguma ironia, “amostras ” da anatomia dos corpos que observou, ou que tratou, ou que simplesmente se limitou a incluir num conjunto que vai de poemas a pequenos aforismos, pequenas reflexões, prosa poética por vezes de conclusão amarga sobre o real do mundo que se lhe impõe, sem falsos lirismos.

Andrei Sen- Senkov nasceu em 1968, em Duschanbe, actualmente capital do Tajikistão, e mudou-se, depois da queda da União Soviética, para Moscovo, onde actualmente reside e exerce a sua profissão.

A vida literária que é a sua, na cidade que se proclama renovada de energias, abarca todos os domínios, e neste mesmo livro de que falo essa qualidade se nota.

É uma obra que se torna mais intrigante porque, como no meu caso, que não sei russo, ao ser lida em tradução inglesa (fiel? muito carregada por via do Bing ?) adquire por vezes uma ironia ou um tom quase descabido e que talvez não seja intuito do autor.

Por muito que na sua liberdade de criador post-moderno a brincadeira com as palavras (a sua estrutura linguística e o seu significado, ou mesmo quase tudo, construindo, desconstruindo… lhe seja permitido) – todo o jogo tem um limite próprio, tem regra, anda que propositadamente desregrada, e que se torna explícita para que possa ser apreciada.

As origens do poeta deixam marca na escrita.

Uma escolha de temas, um olhar sobre o mundo, uma relação que nos parece diferente com a linguagem poética ou o entendimento que se tem dela.

É aqui que entra a minha dúvida, e a pena de não poder ler o original.

Porque sei por experiência o que o Bing, tão disponível, altera e assassina, em matéria poética.

A edição é bilingue, e ainda bem, porque outros leitores que não eu poderão aceder ao original e julgar da qualidade da tradução ao lado.

Falemos então da variedade dos temas: o olhar do poeta não se desvia, nem dos filmes que vê e comenta, nem dos novos criadores musicais, nem do seu quotidiano de médico (de ginecologista, quando refere com que côr se deve escolher o fio da sutura…) Nada, para ele, é digno de menor atenção. Tudo o que vive, seja o pássaro, seja o gato, seja o ciclo dedicado aos ratos de Hamelin – tudo o atrai e lhe provoca uma reacção: poema, aforismo, ironia encapotada, como, só para dar um exemplo o poema sobre o Botão do aparelho da explosão demográfica (p.123):

Mais uma criança nasceu numa couve

e mais uma vez os camponeses não estranham

que ela não se pareça com um ser humano

e tenha aquele triturador habitual nos dentes

mas no entanto mas no entanto as jovens camponesas sem filhos continuam a esconder de deus aquele que sabe crescer no útero verde do jardim

Ora bem, é mesmo por aqui que quero ficar, para levantar as minhas dúvidas quanto à tradução: o que é no original este “familiar crunch”?

Este crunch inglês pode ser mastigar com ruído, ser algo de estaladiço, como numa bolacha, sendo verbo pode ser triturar, ou sendo sujeito ser “triturador”. Escolhi esta palavra, mas existiria outra mais adequada? Embora no título a alusão seja feita a um botão que serviria para conter a explosão demográfica, para um leitor como eu – que gosto de entender- a hesitação incomoda e mantém-se.

Seja como fôr, a reflexão que o poeta oferece aí está: haverá sempre maneira de contornar proibições sentidas como contra-natura.

A obra é iniciada com quase uma centena de poemas de marca oriental, alguns de influência budista, outros de grande evocação moderna, onde encontramos a passear entre as palavras um Wittgenstein, uma barbies da moda, uma cultura e um país, o Egipto, um livro policial banal como o de Perry Mason (que também li, como li os textos budistas quando era jovem) as emoções de um Campeonato do mundo – enquanto, acrescento eu, o próprio mundo se consome em chamas…etc.

Há referências aos campos de concentração: mas sabendo eu que na sua entrada pela Polónia os russo foram tão violentos quanto os alemães, prefiro passar por cima destes textos, insegura, como estou das suas traduções.

O ciclo de 24 (haiku?) com o título de Perfect Day (p.85) dizem-me muito, no seu tom de filosofante hermetismo, que tanto parte de um quadro num museu (um Kandinsky) com de um quarto de lua a minguar para o silêncio, como ainda do selo dos cavaleiros templários, dois montando um cavalo, etc. etc.

Falta-me o ritmo, e a tranquilidade de saber que são fiéis ao íntimo segredo da própria emoção-evocação poética.

Numa entrevista, Andrei, já várias vezes premiado pelos seus poemas, afirma que ” os poemas vivem dentro dele, como pequenos seres, nús e ainda sem forma. Têm de “ser vestidos” antes de serem trazidos cá para fora, como aquela boneca de papel, -sempre a mesma- com os vários vestidos que lhes vamos colocando por cima.

Eu brinquei com bonecas dessas, de papel recortado – e vejo que ainda existem e servem de metáfora a este poeta de agora.

Termino com ele:

You always write about one and the same thing, just the words are different” (na contracapa).

Com votos de que um bom tradutor que se tenha interessado por esta modesta referência se ocupe mais longamente da sua obra!

Em tempo:

Uma palavra sobre a capa.

Vistosa, pelo grafismo, imagem e colorido, terá sido ideia apenas da ilustradora?

Penso que o poeta lhe terá sugerido a evocação de uma deusa de quatro braços, treze seios, um diabo serp cornudaentino de cabeça ocultando o ventre.

Os braços que se erguem das costas seguram a tarjeta do título do livro; os braços que saem dos ombros seguram em cada mão as máscaras: a do riso, da comédia, a do choro, da tragédia.

Situados quanto à dimensão do teatro do mundo, o palco da vida de um Shakespeare, vemos então os leões emblemáticos, um de cada lado da figura hierática, de falso rosto inocente, focinhos de perfil, patas pousando sobre a cauda retorcida.

Enfim, o todo da figuração simbólica envolto por ramos e folhagens de onde pendem algumas flores por abrir e frutos que mais parecem as caudas de escorpiões que ainda se escondem e disfarçam.

Colares? Pulseiras? Ornamentos antigos de algum antigo templo, ou de um harém?

Sedutora, mas perigosa, esta figura feminina. Metáfora dos jogos da Poesia?

O Mago Aleister Crowley havia de gostar. Mãe -Terra, Lilith ou Eva luminosa que também surge no Livro, numa das suas últimas secções , A Aparição de Lilith aos Santos do Mosteiro de Kiev-Peschersk (p.187-189).

Na voz de cada Santo é descrito o corpo da mulher esplendorosa, primordial, luminosa:

os olhos, o silêncio dos lábios, a figuração em elefante das Índias no meio dos elefantes africanos, o seu perfume, o inesperado retrato que é feito das partes mais amorosas do seu corpo, a ausência de asas, para não incomodar Azazel, que as arrancaria, a sua leveza de nuvem, a fusão que permite a quem a consegue ganhar todas as possibilidades do seu Ser, e por fim a sua morte, a viagem para a aniquilação perpétua desse nada a que nos conduz a vida.

Reparei que a ilustração da capa é de Sveta Dorosheva, artista free-lance, que trabalha as áreas da narrativa ilustrada e do livro de arte. Nascida na Ucrânia, vive actualmente em Israel.

Certamente não foi por acaso que a sua ilustração me remeteu para um oriente que podia ser árabe – das Mil e uma Noites- ou hindú, ou de alguma forma mágico como são as cartas do Tarot que Crowley apreciou no seu estudo The Book of Thoth .

Na carta II, por exemplo, a Sacerdotiza, vemos a representação de uma figura feminina lunar, de múltiplos seios como a figura de Sveta na capa de Andrei, uma figura de Isis, virgem eterna, como a define Crowley, revestida de luz, e manifestação do Eterno Espíritio. Outra carta, igualmente interessante é a XIV, representando a Arte.

Bicéfala, seios múltiplos e descobertos, a negro e branco – numa androginia que diz tudo: a completude de forma e conteúdo, ou, para usar uma linguagem mais metafórica, a completudo da matéria e espírito em Conjunção sublime. Figura também ela uma deusa lunar, a Grande – Mãe da fertilidade, ou, como recorda Crowley, a Diana de Éfeso, de múltiplos seios., – todas elas variantes da mesma Isis fundadora do imaginário mais antigo que o Tarot tradicional recupera e explora.

Crowley relembra que a simbólica de que se ocupa tem igualmente raízes na Kabala judaica e na alquimia e que destas doutrinas os estudiosos facilmente encontram as marcas, as memórias arquetípicas.

Terá isso acontecido com a arte de Sveta Dorosheva? É bem possível, bebemos na nossa língua, no meio em que crescemos, na casa, na família, o que depois transparece no que a mão vai buscar.

Espreitei os seus desenhos na web, Sveta tem facebook, vale a pena conviver, ainda que só por momentos, com o que nos oferece. Um imaginário rico, ornamentado, subtil e enfeitiçante.

Bem ao encontro do que pode ser, lido com mais cuidado, o livro de Sen-Senko

Lisboa, Julho 2014

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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