De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

António José de Barros Veloso

Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1956 e Director do Serviço de Medicina Interna do Hospital de Santo António dos Capuchos de 1986 a 2000.
Membro do Conselho Disciplinar da Ordem dos Médicos (1987-1989)
Membro da Direcção do Colégio de Medicina Interna da Ordem dos Médicos (1994-1998)
Membro do Conselho de Reflexão sobre a Saúde (CRES), criado por Resolução do Conselho de Ministros (1996)
Membro da Comissão de Avaliação Externa dos Cursos de Medicina (1998)
Presidente da Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC), (2005-2011)
Membro do Conselho Geral da “NOVA – Medical School”

Sociedades Médicas
Presidente da Sociedade Médica dos HCL (1987-1989)
Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (1992-94) Membro Fundador e Presidente da Sociedade Portuguesa para a Qualidade em Medicina (1993)
Membro Fundador da “European Federation of Internal Medicine ” (1996)

Actividade Editorial
Para além de numerosos artigos científicos e de intervenção é autor dos seguintes livros: “Medicina. A Arte e o Ofício”, “Medicina e Outras Coisas”, “Caramulo, Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos”. Foi ainda coordenador e co-autor dos livros “ Medicina do Corpo, Medicina do Espírito: 50 anos de Medicina Interna”, “Médicos e Sociedade. Para uma História da Medicina em Portugal no Século XX” e director da revista “Medicina Interna” (1994-1998).

Louvores e condecorações

Além de vários louvores atribuídos pela administração dos Hospitais Civis de Lisboa e pela Ministra da Saúde (2001) foi agraciado com a Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos e a Medalha de Ouro de Serviços Distintos do Ministério da Saúde. Em 2017 recebeu o Prémio Nacional de Medicina Interna e em Maio de 2018 foi-lhe atribuído o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa.

Actividades fora do âmbito da Medicina

História, arte e azulejos

Livros publicados em co-autoria: “Azulejaria de Fachada em Lisboa” (1989), “Azulejaria de Exterior em Portugal” (1991), Hospitais Civis de Lisboa. História e Azulejos” (1996), “ O Azulejo Português e a Arte Nova” (2000).

Curadoria da Exposição “A Arte Nova nos Azulejos em Portugal: Colecção Feliciano David/Graciete Rodrigues” – Aveiro, 2011
Prémios e menções honrosas da Câmara Municipal de Lisboa (1989 e 1996)
Prémio SOS Azulejo de Investigação (2011)

Música de jazz

Autor de textos sobre jazz, publicados em jornais e em programas de concertos.
Autor de um vídeo sobre a “Vida e obra de Charlie Parker” produzido para a RTP (1982).
Autor do livro “Notas de Jazz. 22 Semínimas” (2013).
Presidente da Assembleia-Geral do Hot-Club de Portugal (1996-2007).

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História e Filosofia das Ciências

Frequentou os dois primeiros anos do Curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia de Lisboa e o Mestrado de História e Medicina das Ciências da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Publicou o livro “Tycho Brahe. Um Astrónomo Fabuloso no Reino da Dinamarca”
Faz parte do Núcleo de Filosofia das Ciências da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Barros Veloso e o Livro da Vida: Vocação, Cultura e Ética

Yvette K. Centeno

Eis os três grandes temas que nos devem reger, na profissão e na vida, e que o Doutor Barros Veloso nos recordou, ao finalizar a sua prova, brilhante, na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa.
Vocação, Cultura, Ética – são eles os temas que nos inscrevem no grande Livro da Vida. Um livro que se não fôr aberto, lido, reflectido, por outras palavras vivido, nos deixará sós e perplexos com tudo o que da vida nunca chegaremos a saber, nem sequer a merecer. O agora Doutor Honoris Causa António José de Barros Veloso terminou com estas referências a sua intervenção: ouro sobre o azul de um momento que ele dignificou com a sua presença e a sua forma de estar e de ser, na profissão de médico, e acima de tudo na vida, que abriu a tantos outros, em vários outros domínios, do conhecimento, da cultura e das artes, e sempre de forma exemplar e generosa.
Direi que pela vocação se é impelido. Chegamos à profissão escolhida.
Pela cultura, atraído. E o que na cultura nos atrai é o que na cultura (como na arte) nos induz ao pensamento.
Poderíamos ficar com Heidegger, e com ele pensar o pensamento. Que impulso nos leva a pensar, que rasgão se abre, pensando, no íntimo da nossa consciência? Uma consciência de ser? E da consciência de ser chegar ao que se chama Ética, comportamento regido por princípios que já nos filósofos pré-socráticos e sobretudo em Platão se definiam pelo amor do Belo, do Bom, do Verdadeiro?
Heidegger vai buscar a um pré-socrático, Parménides, uma das suas ideias-condutoras, Pensar e ser são a mesma coisa (nº4-5). Para o filósofo alemão pensar é uma reacção da nossa parte a um chamamento que nasce da natureza das coisas, do Ser em si mesmo. Ser capaz de pensar não depende apenas da nossa vontade ou desejo, embora muito resulte da nossa disponibilidade para ouvir esse chamamento quando ele surge, e de lhe corresponder de um modo adequado.
O tradutor inglês de Heidegger, J.Glenn Gray (What Is Called Thinking?, 1968) afirma na Introdução que “Pensar não é tanto um acto como um modo de viver, um modo de vida. É recordar quem somos como seres humanos e qual o nosso lugar, onde pertencemos” (p.xi).
Na verdade, o primeiro impulso que define uma vocação, é o de querer saber. Assim aconteceu com o jovem estudante hoje ilustre Doutor Honoris Causa da Universidade Nova de Lisboa, que na verdade não o honrou a ele, mas antes permitiu que fosse ele a honrar, com o seu notável percurso de vida, uma Universidade que se desejou, desde a sua fundação, Nova e pioneira nos vários domínios do conhecimento a que se entregou.

Ocorrem-me os versos de Sophia de Mello Breyner, no seu livro Coral:
Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha

E o querer saber, onde nos conduz?
A uma vida, pessoal, profissional, artística, que se vai cumprindo num tempo que por vezes interpelamos, por não querer perder nada do que esse tempo guarde para nos revelar. E aqui entra o conhecimento, o livro da experiência vivida, o das múltiplas páginas, algumas por abrir. A estas se dirige a interrogação de Heidegger, que recupero: O que é pensar?
O pensamento, como seria de esperar numa afirmação do autor de O SER E O TEMPO (SEIN UND ZEIT) resulta do Ser, o Todo abrangente, tal como se manifesta no tempo, que é o tempo da consciência de ser.
Ficamos um pouco perdidos, como Alice no País das Maravilhas, ao querer responder à célebre pergunta da Lagarta:
– Quem és tu?
E Alice não tem resposta para dar. Quem é ela, afinal? Também ela está, com Sophia de Mello Breyner, no ir e vir da inquietação da descoberta do Nome, e o Nome é o Ser, no Tempo. É o Dizer finalmente materializado.
Vamos então a um segundo momento, o da experiência de vida, que completa a dos livros:
Diz Heidegger, na abertura do conjunto de lições que dará no seu último período de vida, regressado (com o perdão de um passado nazi) à sua Universidade de Heidelberg:
“ Ficamos a saber o que pensar significa quando nós próprios tentamos pensar”.
Ou:
“ Definir para os outros o que é pensar é tão inútil como descrever cores a um cego”.
Ou ainda:
“Cada um tem de aprender a fazê-lo por si próprio”.

Nestas lições em que se dirige aos jovens em início de vida, por assim dizer, recorda e afirma que “ pensar é pôr-se a caminho, (e como fica bem aqui a nossa Sophia…).
Pensar e questionar são para Heidegger praticamente sinónimos, (longe do penso logo existo cartesiano) pois é em Parménides que prefere encontrar os seus fundamentos, ou em Heraclito, que antes de Platão já questionavam o Ser, e o Conhecer, “quem somos e qual é o nosso lugar no mundo”…, ”pensar define a natureza do ser humano, e quanto menos pensamos, menos humanos somos”.

Heidegger começa a primeira aula com uma citação de Hoelderlin, a segunda versão do belo poema Mnemozyne, Memória. Eis os versos que escolheu para o início do seu filosofar sobre o pensamento:

Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.

Somos um sinal, que perdeu o sentido,
Não sentimos dôr, e quase perdemos
A nossa língua em países distantes.

Esta primeira estrofe termina com uma conclusão que merece ser ponderada:
Lang ist
die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.

É longo
o tempo, mas consegue-se alcançar
a Verdade.

Sublinha-se o que somos: um Sinal, sem sentido e sem sensibilidade (sem dôr) e que perdeu a Língua (o dom da Fala, o dom do Dizer e de Comunicar) na distância (em relação à busca do que somos).
Esta será a primeira necessidade, para começar a aprender o que é pensar: reconhecer o que somos, o que perdemos, o que temos de recuperar. A Verdade aguarda-nos, no fim do nosso caminho, ainda que seja longo.
É o poeta que ajuda aqui o filósofo, ligando nos seus versos os três fundamentos: o ser (Sein, Ser); o tempo (die Zeit, o Tempo); e a verdade (Das Wahre, a Verdade, o Verdadeiro).
Três fundamentos, como em Barros Veloso, mas que definirei como Conhecimento, (do Ser), Experiência (do Tempo) e Amor (do Verdadeiro, do Belo, do Bom).
Por aqui entraria a Ética, como terceiro tema de reflexão, um último capítulo do grande Livro da Vida. O que define a Ética é saber o que somos, para o que somos, não traindo os princípios que devem reger o nosso comportamento, a nossa acção, “no lugar onde pertencemos”.
Ao evocar o que conheci da vida e da obra de Barros Veloso, amigo de longa data, distingo uma qualidade que Heidegger não sublinha muito, a da Curiosidade. O filósofo define o impulso de pensar como resposta a uma espécie de chamamento a que se deve prestar atenção. Mas o que se descobre na História das Ideias Científicas, na História da Criação Artística – nos grandes momentos de ruptura e inovação como o Renascimento, ou o Modernismo e todos os post que se lhe seguem ainda, é precisamente a curiosidade de saber, de tentar ver mais longe, o que já se verifica de forma cada vez mais notável na astrofísica, para dar só este exemplo.
Barros Veloso não se fechou no saber do seu tempo, do seu século, mas deu-nos a todos um exemplo magnífico de permanente curiosidade, de estudar, de querer saber mais onde antes da sua investigação se sabia menos. Basta recordar a recente edição da História da Medicina em Portugal no século XX, que coordenou e para a qual escreveu também vários ensaios notáveis, alargados a muitas informações não conhecidas.
Homem aberto, sem preconceitos que limitam e oprimem, como diria Ricardo Reis num dos seus poemas, Barros Veloso, o “doutor” de há muito nos meios jazzísticos que frequenta e anima ao piano, improvisando pela noite fora, pela música dentro, tem o condão de despertar em nós o que de melhor poderíamos ter: a alegria do convívio numa partilha de tempo que é um tempo feliz.

Lisboa, Maio 2018

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Tó Zé Veloso

Pedro Moreira

O Tó Zé Veloso é um especialista da vida. Como médico sempre se dedicou a ouvir, diagnosticar e tratar os seus doentes, resultando muitas vezes no salvar das suas vidas, muitas vezes graças a diagnósticos precoces e não necessariamente evidentes.
Por outro lado, como bom especialista que é, ele adora a vida. Vive intensamente a sua actividade profissional, mas também tudo o que de melhor o espírito humano tem para oferecer: pensamento, história, ciência, artes. Ele lê, estuda, escreve, e toca.
Claro que, sendo um especialista da vida, tem sobre esta as mais profundas reflexões. É sempre um prazer ouvi-lo falar, discutir, debruçar-se sobre um assunto artístico, social ou político. O conhecimento, inteligência e profundidade com que o faz tornam-no num conversador e um orador fascinante.
Felizmente para todos nós, sempre se preocupou em deixar um legado: não só na prática da medicina, mas também deixando o seu trabalho publicado (incluindo na área da música, com publicações escritas…e CDs editados). No caso do jazz, sendo este uma música de transmissão oral, também algumas das suas reflexões feitas a altas horas da noite depois de uma jam session ficarão no domínio da oralidade (nem todas podem ser publicadas!), mas que ficarão na memória dos privilegiados que presenciaram esses momentos. Lembro-me em particular de uma acalorada discussão em que o Tó Zé se propôs tirar a temperatura ao jazz em Portugal…
Recentemente ouvi o Tó Zé afirmar que os três princípios essenciais pelos quais sempre se orientou ao longo da vida são a vocação, a cultura e a ética. Conhecendo-o, acrescentaria a generosidade, a inteligência e o sentido de humor.
Woody Allen disse um dia que a vida era como um mau restaurante, onde não só a comida é péssima como as doses são pequenas. O Tó Zé faz-nos pensar, com o seu exemplo, nos melhores restaurantes, onde a comida é óptima e as doses são muito bem servidas.

Maio, 2018

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* Fotos de Carlos Reis


Livros


CDs


Videos

Mas o que é que é isto do “conhecimento científico”? 

A música dá uma felicidade muito especial…

É sobre música e neurociências que eu vou falar.

É com estas pessoas que eu quero gravar. Paula Oliveira

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Escrito por

Cristina Gonçalves, Licenciada em Filologia Germânica. Professora de Inglês e Alemão. Autora e coordenadora de vários projectos nas áreas de dança e emigração. Membro da Companhia Maior, em residência no Centro Cultural de Belém (CCB).

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