De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

O que arde sem se ver

A Humanidade exprime-se no seu habitat. Usa-o, modifica-o, imprime-lhe a pegada.
A Ciência e a Tecnologia captaram-lhe essa interacção em determinado espaço e tempo.
O resultado é este pequeno livro. Uma Geografia que conta histórias.
Melhor: através deste estudo geográfico reconstitui-se uma História de 15 anos.
Com a distância que a História exige, neste caso a distância que a tecnologia documenta.
Via satélite, pela primeira vez em Portugal, duas cartografias com as mesmas características para dois momentos expõem lado a lado o perfil geográfico do País, em 1985 e em 2000.
Nesse período, em Portugal Continental, floresta e territórios artificializados foram o que mais aumentou, a vegetação natural foi o que mais diminuiu, o Algarve foi a região que mais alterações sofreu…
Mas quantas florestas arderam? Quantas se transformaram em territórios artificializados? Qual foi o crescimento do tecido urbano? Quanta agricultura imolada a esse crescimento?
Os números põem perguntas. Os gráficos formulam interpretações. A análise deduz o que o Homem fez. A imaginação inventaria o que devia ter sido feito.
Este estudo é para ser lido por quem olha com interesse a paisagem do seu País. Aqui, vai descobrir um chamativo romance a cores, em que a cartografia são retratos, as legendas são histórias, o entrecho essa dinâmica ocupação de solos que durante 15 anos atesta o impacte de políticas – ou a sua ausência.
Admire a paisagem pelo retrovisor: 1985/2000. Olhe. Observe. Compare. Um determinado crescimento pode esconder outro.
Mas que não se fique por aí.
Porque o que importa na verdade é o que se aprende com as pegadas da História.
E a seguir, seguir em frente.

Conceição Gomes da Silva
Setembro, 2005

o que arde sem se ver
o que arde sem se ver

Este texto foi escrito há 12 anos, imagine-se. Era a introdução a uma publicação sobre o território português e suas alterações desde 1985. Tinha como título CLC (Corine Land Cover) 2000 Portugal e era da responsabilidade do Instituto Geográfico Português (poderia ter já outra designação, não me lembro). Para que o Grupo-Alvo não entrasse sem aviso naquelas infografias, naqueles gráficos, naquela vasta informação sobre as imensas alterações no nosso território, já nesse tempo, escrevi-o enquanto responsável pela Agência de Comunicação a quem tinha sido adjudicado este trabalho. Não o escrevi em tonalidade acusadora, claro, nem era essa a minha função no caso, usei sim um tom interrogativo sobre o que, como cidadã, eu via estar a acontecer. Hoje pergunto: quantos técnicos contribuíram para o levantamento, recolha e selecção destes dados, quanto tempo de satélite facturado, quanta gente trabalhando para a síntese da publicação, quantos a contribuírem para o grafismo de modo a torná-lo apetecível, quantos directores para a revisão, quantos para a aprovação de um tão pequeno livro? E, no entanto, para que serviu? Isto já para não questionar as subsequentes publicações que foram actualizando o mesmo tema. E tudo isto são peanuts e peanuts e peanuts. Trocos. Remessas sem valor e com despesa. A lavrar, como nos Media sempre “lavram os incêndios”. 
Mas nunca até agora com boas sementeiras. Só com as contínuas colheitas de Morte. Em fauna, em flora, em vidas.

Para que servem Estudos como este?
O que poderia, entretanto, ter sido feito no terreno, De Outra Maneira?

Outubro, 2017

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Escrito por

Comecei o meu ofício com aparo de tinteiro. Gostei logo do arrepanhar do papel e dos borrões em azul Klein. Cresci com bolinhas de esfera a deslizar em papel macio. A seguir expus-me em papéis que se chamavam linguados. A curiosidade resolvia-se com substantivos e verbos nos Jornais. Passei depois a tintas em tank com Marcas na couraça. Era já a Publicidade num bombardeamento de adjectivos e louvores a lixívias e a cambotas. Circulou-me sempre no mecanismo a intransigência com o Bom. Medíocres só as notas que soavam em tempos nas Ciências. Este foi sempre o meu propósito, nunca saberei se atingido. Hoje tenho saudades do cheiro da tinta e do papel em carne viva e da alma das pessoas a escorrer nas letras manuscritas. Estou farta de ser caneta.

Últimos comentários
  • “….. bolinhas de esfera ….” é um bocadinho rolamento a mais, não ? Talvez só “… bolinhas…” bastassem, sei lá. 🙂

  • as “bolinhas de esfera” nunca são a mais… com elas tudo desliza melhor…
    grande texto, Ção e quanto ao tema…BINGO!

    • Crista, tu e a tua “Pragmática optimista” claro que têm sempre razão. Beijo.

  • Isabel Almasqué

    São (Ção) bolinhas de esfer…ográfica! Uma verdadeira revolução quando substituíram os aparos.
    Excelente texto, Ção, a apontar para a importância do estudo e da investigação como base imprescindível para apontar soluções. Infelizmente estudos sérios que acabam no lixo, é o que há mais.
    Desperdiça-se o conhecimento, a experiência e o esforço de quem os faz e volta tudo ao mesmo. O problema dos incêndios é um bom exemplo. Toda a gente dá opiniões, todos têm soluções mágicas mas o país continua a arder. Dantes punham o S.Marçal por cima das portas, agora nem os santos nos valem.

    • Pois é, Isabel, tu o sabes. Obrigada por me ” devolveres a sabedoria”. O São Marçal já não nos liga pevide ohhhhh.

  • Maravilhoso texto. Infelizmente agora é bem visível- 17 Outubro 2017.1

    • Obrigada Isabel MÁrquez RS, já ontem lhe respondi só que não consigo ultrapassar a barreira do Captcha, obriga-me a fazer contas e, como só sei fazê-las à vida, fecha-me a porta para si, diabos levem a tecnologia 🙂

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