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Artesãos do Irão

O nascer do sol na praça Imam de Isfahan no Irão, é duma beleza tranquila. Vazia de pessoas, o seu enorme espaço revela a beleza da sua concepção. O seu vasto rectângulo (com uma área de 89,600 m2 ) é um dos extraordinários símbolos da arquitectura Safavid do século XVI. Esta praça assenta, a norte, na actividade comercial no Grande Bazar de Isfahan, a Oeste, no imponente Palácio de Ali Kapu à frente do qual está a Mesquita do Sheik Loft Allah e a sul, na Mesquita do Imam onde se reza às sextas feiras.
Mas a razão de ali estar, àquela hora, não é apenas para gozar o espaço e a luz rósea do amanhecer na praça da cidade, que se diz a mais bela do mundo, é também a de explorar um dos bairros adjacentes onde descobrimos, numa prévia visita, diferentes tipos de artesãos.
Ao sair por uma das ruelas, do lado sul da praça, é-se transportado para uma época, já desaparecida na Europa, onde cada objecto era feito manualmente e cada etapa desse objecto era a arte dum artesão diferente, como numa orquestra onde todos os sons são interligados, aqui também os gestos são orquestrados pela perícia.
Primeiro, encontramos um artesão que, na rua à porta da sua loja, despejava alcatrão quente sobre pratos de cobre para mais tarde serem gravados. Na loja, descobriam-se inimagináveis ferramentas, restos de metais, pó dourado, raspas de cobre como uma gruta de Ali Baba .
Mais adiante, é um plok…plok…plok que nos guia até um dos muitos pátios de artesãos, onde o prato de cobre vai encontrar a sua forma final. Há mesmo um artesão cujo papel é uma e uma apenas, certeira martelada. Sentado num pequeno banco, o seu braço direito martela ao ritmo do seu próprio eco que ressoa entre as casas do pátio. Outros fundem o metal para o moldar na sua forma imaginada. Por fim, são os gravadores que, minuciosamente, desenham elaborados padrões com a ajuda de lupas.
Mas também, no labiríntico e surpreendente bazar de Isfahan, no outro canto da linda praça, existem enormes portas que dão para outros pátios, cada um especializado em diferentes artesanatos. Molhos de lãs no chão anunciam os reparadores de tapetes debruçados na minúcia da cor, do entrançado e do padrão a recuperar. Num destes pátios conhecemos uma família de três gerações, onde os homens se dedicavam à arte do embutido, um trabalho de minúcia extraordinária. Esta família orgulhava-se de ter feito a secretaria de Reza Pahlevi, o último Sha da Pérsia.
Depois duma época em que, hipnotizados pela velocidade e aparente abundância, demos importância à produção em série, talvez agora estejamos prontos para recuperar e apreciar o prazer do objecto único e nele agarrar de novo o Tempo que se nos escapou como o génio da lâmpada de Aladino.
Naquele bazar, naquelas ruelas, será que os artesãos entendem o nosso encantamento? Ou desejam, como nós desejámos, o objecto, ou mesmo a Vida, em série?

Minnie Freudenthal
Maio, 2011

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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