De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Após 12 anos de instabilidade e conflito regional, sem qualquer regime democrático resultante e depois de uma despesa de 4 triliões de dólares, é evidente o falhanço dos EUA na invasão do Iraque

Esta é a tradução da frase com que começa um artigo publicado numa revista de grande circulação nos EUA. Exposição brilhante das consequências da guerra, dos imbróglios envolvendo as forças em presença, dos dramas humanos resultantes. No final da leitura aceitamos implicitamente as premissas contidas na frase inaugural…. E passamos adiante.
Numa auto satisfação prosaica, disfrutamos plácidamente o que acabamos de aprender e reflectimos nas vantagens de viver numa democracia que permite o discordar com as políticas do poder, sem censuras ou limitações à expressão dessa opinião. E quando a paz finalmente reinar, não teremos dúvidas em atribuir à contínua discussão do conflito nos meios de comunicação social, através dos anos em que guerra durou, a responsabilidade maior na resolução da mesma.

premissas

Só há um problema. A frase inicial deveria dizer:

Após 12 anos de negócio contínuo alimentando o sistema militar-industrial, as empresas satélites de suporte e os salários da tropa, e com o caos daí resultante a garantir o perpetuar do conflito, depois duma receita de 4 triliões de dólares é evidente o sucesso dos EUA na invasão do Iraque.

Sem fantasias.

O artigo acima citado é apenas um exemplo da cortina de fumo que são os meios de comunicação social, que tomamos como prova da democracia em que vivemos. Uma hermenêutica simples desmascara a manipulação (como se a guerra tivesse sido feita para instalar uma democracia no iraque, como se os triliões da despesa não fossem os triliões das receitas dos agentes envolvidos..).
A fabricação/manipulação da opinião pública, que como sabemos não passa dum eco, consiste num espectáculo contínuo de opiniões diversas e discordantes, um ruído branco a esconder as causas prováveis de tudo o que acontece. É feita de milhares de artigos publicados e filmes de entretenimento sobre o tema, entrevistas na TV e manifestações de rua a favor e contra o conflito Foi graças a esse bruaá contínuo nos meios de comunicação social que a guerra no Iraque pôde durar 12 anos. Qualquer regime ditatorial envolvido em conflito semelhante teria colapsado há muito tempo. Em democracia não há responsáveis, só há debate, espectáculo. E a total impunidade de quem puxa os cordelinhos.
Não acredito que o articulista tenha sido pago pelo Pentágono. Ele apenas segue os trâmites do discurso vigente nos meios de comunicação social. E dirige-se a um público que não quer ser informado mas sim entretido.

Não sei de quem hoje em dia tenha o prestígio cultural de Bertrand Russell, o prestígio científico de Einstein, ou o prestígio social e empresarial de Henry Ford. No entanto, e no começo do século vinte, foram três personagens extremamente activos no que toca a assuntos sociais e políticos.
Bertrand Russell passou meses na prisão por se opôr activamente à primeira guerra mundial, voz solitária e heróica no silêncio global.
Quando o Irgun, associação terrorista judaica, massacrou dezenas de palestinianos desarmados em Deir Yassin em 1948, Einstein publicou uma carta nos principais jornais da época condenando o acto, demarcando-se como judeu, dos assassinos. Da bomba atómica até à crise do Suez, nunca deixou de manifestar as suas posições políticas.
E as opiniões de Henry Ford contra o universo financeiro-bancário da época, salpicadas de anti-judeismo e hostilidade contra o poder vigente, eram publicitadas constantemente nos jornais.

E hoje em dia ? Temos o Bill Gates, Warren Buffett, Nathan Myhrvold, o falecido Steve Jobs, Stephen Hawking, Roger Penrose, Francis Ford Coppola, etc, etc, etc. E todos calados.
A única voz é a de Noam Chomsky e agora ocasionalmente, timidamente, o Papa Francisco.

Silêncio…Estamos todos e cada um de nós, SOZINHOS…

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Agosto 2017

premissas
premissas
premissas

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Partilhar
Escrito por

Médico Hospitalista (EUA).

Sem comentários

COMENTAR