De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Tudo o que o grande público sabe sobre bancos, pode ser resumido em frases simples. São no geral meias verdades, imprecisões ou fantasias. Comecemos pela mais básica:

Nos bancos guardamos o nosso dinheiro

Mistificadora meia verdade. Dá a ideia de que o dinheiro circula principalmente cá fora, sendo os bancos armazéns temporários do mesmo. Quando o contrário é que é a verdade. O dinheiro circula entre os bancos, só ocasionalmente emergindo cá fora, quando é levantado num multibanco. Em economia, Dinheiro é o que pode ter um uso imediato nas transacções económicas correntes. É o M1, constituído pelo valor agregado de todas as Contas à Ordem no sistema bancário, adicionado ao valor agregado de todo o Dinheiro Palpável, notas e moedas em circulação. De aqui para diante chamaremos Dinheiro ao M1, Dinheiro Bancário às contas à ordem e Moeda ao dinheiro palpável. Em Inglaterra por exemplo, a Moeda é apenas 3% do M1. Recentemente nos meios de comunicação, fala-se cada vez mais na abolição pura e simples da Moeda. Todo o dinheiro existente será Dinheiro Bancário electrónico. As consequências serão revolucionárias. Mas isso será para outro artigo.

Os bancos aceitam depósitos que depois emprestam ao público e às empresas

Mistificação total. Sugere a ideia duma relação de Identidade (o dinheiro depositado passa a ser emprestado) e duma relação Temporal (os depósitos precedem os empréstimos). Na realidade é tudo ao contrário. Não há relação entre depósitos do público e empréstimos ao mesmo, e o empréstimo ocorre antes do depósito. São os empréstimos que criam depósitos, e não o contrário. Quando o banco decide conceder um empréstimo, abre uma conta à ordem que regista na coluna de Passivos. Ao mesmo tempo na coluna de Activos regista a dívida da pessoa a quem o empréstimo foi concedido. E dinheiro é criado a partir do nada. Como consequência o M1 cresce.

A capacidade de um banco conceder um empréstimo é apenas limitada pela quantidade do capital existente. As regras de Basel têm que ser respeitadas e dizem respeito à relação capital-risco do empréstimo. A quantidade de Reservas no banco central é irrelevante. Se necessário pede-se emprestado ao banco central ou a outros bancos. Não há requerimento fraccional de reservas nos bancos centrais do Canada, Reino Unido, Nova Zelândia. As reservas são apenas um dinheiro interbancário, e nunca são emprestadas directamente ao público.

E a quantidade de depósitos prévios no banco (contas à ordem e a prazo) é ainda mais irrelevante. A decisão de emprestar depende apenas da existência dum acordo entre partes, o banco e o cliente. Quando alguém decide pôr dinheiro a prazo, levanta-o duma conta à ordem. O valor agregado do Dinheiro Bancário diminui. Dinheiro é destruído e o M1 diminui. Porque apenas sob a forma duma conta à ordem, são os números electrónicos utilizáveis para as transacções correntes.

E quando o banco concede um empréstimo, uma conta à ordem aparece vinda do nada. O M1 aumenta.

É claro que nada impede o cliente A de emprestar ao cliente B, ou de o banco ser usado como intermediário nessa operação. Neste caso o depósito vem antes do empréstimo. E o facto de a quantia debitada ser a mesma que é creditada, dá a ideia de ser o mesmo dinheiro. Mas em dinheiro electrónico não faz sentido falar no “mesmo”. O dinheiro é fungível.

É claro que neste exemplo não há criação de dinheiro e o M1 permanece na mesma.

Um tipo de empréstimos fundamentais hoje em dia, envolvendo triliões de dólares, são empréstimos a curto prazo às empresas, em inglês Money-Market Deposit Accounts (MMDAs). Foram criados os Sweep Programs em 1984, que consistem em emprestar às empresas os biliões parqueados nas contas à ordem no sistema bancário, sem precisar da autorização dos titulares das mesmas, usando as MMDAs. Como se se tratasse de dinheiro palpável a mudar de poiso. Confesso-me perplexo com estas bizantinices explicativas, parece-me um discurso similar às questiúnculas sobre a consubstanciação de Jesus Cristo ou sobre o sexo dos anjos na idade média.

Os bancos pedem emprestado a curto prazo e emprestam a longo prazo

Esta é uma clássica. Estão a ver, a possibilidade de os clientes credores “levantarem”o dinheiro põe problemas ao banco, que se verá impossibilitado de pedir a redenção das dividas para com ele mesmo(na coluna de Activos) por essas serem a longo prazo, sofrendo uma crise de liquidez apesar de ser solvente. Mas isso acontecia no passado quando o que se levantava do banco eram notas e moedas.

A corrida ao banco por parte do público depositante, no sistema moderno, é um contrasenso. Não havendo nada para “levantar”, toda a gente transfere o dinheiro bancário duma conta num banco para outra noutro banco. E num sistema de empréstimo interbancário bem lubrificado, os bancos creditados ficam instantaneamente com um excesso de reservas, que também instantaneamente serão emprestadas de volta ao banco debitado, à taxa de juro de zero, que tem sido a taxa de empréstimo interbancário ultimamente corrente (o Feds Funding Rate, sendo neste caso o termo Feds equívoco, visto o banco central não estar de todo envolvido na transacção). O sistema bancário comporta-se na prática como um banco gigantesco(o banco central) com sete mil sucursais (os bancos comerciais).

Contudo, a corrida a um banco pode acontecer, quando outros bancos credores do banco corrido exigem a redenção das dívidas, num curto prazo de tempo. Neste caso o banco central terá que injectar liquidez no banco corrido, evitando uma reacção em cadeia através do sistema financeiro.

Um banco oferece taxas de juro mais altas para atrair depósitos em competição com outros bancos

Os bancos não precisam de atrair depósitos. Não há dinheiro fora do sistema e cada um é um elo num sistema unitário em que a competição entre bancos nada tem a ver com os depósitos vindos do público. A existência da lei que proíbe os bancos de oferecer taxas de juro nas contas à ordem (Regulation Q) mantém o mito contido na frase. Sugere um conluio entre legisladores e banqueiros, para esconder o facto de que dentro em breve teremos todos que pagar para termos contas à ordem no banco.

E o Multiplicador de Crédito, os Eurodólares, e os Petrodólares ficarão para outra ocasião… Deixo aqui um à parte enunciado há 40 anos

Recycling Petrodollars at CityBank

If Exxon pays Saudi Arabia $50 million, all that happens is that we debit Exxon and credit Saudi Arabia. The balance-sheet of CityBank remains the same. And if they say they don’t like American banks, they’ll put it in Credit Suisse, all we do is charge Saudi Arabia and credit Credit Suisse: our balance-sheet remains the same. So when people run around waiting for the sky to fall there isn’t any way that money can leave the system. It’s a closed circuit.

Walter Wriston of Citybank (1975?) Modern Times, Paul Johnson page 671

José Luís Vaz Carneiro
Outubro, 2014
Solipso52@hotmail.com

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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalista (EUA).

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