De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Em 1872 Charles Darwin escreveu um fabuloso livro com o título “The Expression of the Emotions in Man and Animals”. Darwin observou nos animais e nos humanos as mesmas emoções primárias. Alegria, aversão, cólera, desprezo, medo, surpresa e tristeza são emoções que deixaram rasto evolutivo na cadeia animal e a sua expressão está codificada essencialmente na musculatura do rosto. Darwin elaborou um meticuloso álbum ilustrado com fotografias e gravuras mapeando as emoções no rosto humano e animal.
Esta semelhança entre as expressões humanas e as expressões animais não resulta de um mimetismo nem de uma antropomorfização, mas de um legado emocional, comum e ancestral.
Este interessantíssimo trabalho de Darwin precisou de esperar quase um século para que o Paul Ekman pudesse celebrizar aquela tese no meio científico comprovando metodologicamente que as expressões são universais, quantificáveis, qualificáveis e involuntárias. Na década de 60 Paul Ekman procurou tribos que nunca tiveram contacto com o mundo ocidental e comprovou que as expressões das emoções primárias são exactamente as mesmas que no homem ocidental, contrariando assim a tese da expressão da emoção como construção social. Ekman estendeu o estudo a uma vasta gama do reino animal e verificou que os músculos faciais das expressões das emoções têm correspondência no humano e no animal.
O estudo que Darwin elaborou possuía um fascínio artístico e moralmente desconcertante para uma sociedade de costumes e etiqueta onde tudo o que é animal no homem devia ser proscrito e sanado. A época vitoriana foi de certo modo o triunfo da vaidade da disciplina sobre o pulsar animal.
A investigação de Paul Ekman comprovou que as emoções primárias se manifestam em expressões que duram micro-segundos, são involuntárias e estão codificadas de forma tão exacta que actualmente é possível um computador identificar emoções no rosto simplesmente descodificando o movimento involuntário no rosto.
Esse trabalho pioneiro de engenharia facial e mapeamento de emoções foi desenvolvido pelo português Armindo Freitas-Magalhães que é considerado o melhor especialista do mundo nesta matéria e discípulo de Paul Ekman.
A investigação criminal nos Estados Unidos da América recorre ao Facial Action Coding System, desenvolvido por Freitas-Magallhães para aceder à verdade no rosto.
O humano sempre apareceu retratado nos manuais de literatura erudita como aquele que se supera a si mesmo, protagonista ilustre da elevação moral e transcendência metafísica.
É fascinante, diria até redentor, encontrar esse humano agora aqui na sua condição animal, como bicho que sente e expressa emoções, criatura dócil e feroz, hospedeiro de pensamentos. Talvez aqui, neste lugar ancestral onde lobos e homens se reconhecem possamos explorar a nossa ideia de humanidade.

Ivo Carmo
Fevereiro, 2018

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Escrito por

Nasceu em Lisboa em 1979, estudou Filosofia e vive em Berlim, onde trabalhou como jardineiro, vendedor de revistas e empregado de mesa. Em Portugal foi distinguido em 2008 no Concurso Jovens Criadores e em 2012 venceu o Prémio de Ensaio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores com a obra Do Paraíso. Autor do livro O Longe Oeste, Na Senda do Sete-Estrelo pela editora Epubli.

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