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Bom ano aos que estão para nascer

Bom ano aos que estão para nascer

É caso disso! De lhes desejar bom ano! Mesmo antes que cheguem, o melhor presente que lhes podíamos oferecer era os futuros “mãe e pai” passarem por uma “gravidez de reflexão”.
Para quê?
Criar outros seres humanos é um enorme desafio e responsabilidade. Hoje sabemos que o melhor indicador de sucesso na educação de uma criança para esta se tornar um adulto equilibrado é o autoconhecimento da mãe e do pai.
À nascença, a roleta genética atribui-nos algumas características. Os que nos rodeiam reagem a estas características e nessa interacção  vai-se formatando a nossa personalidade. Nós somos também os outros!
Seria talvez o óbvio pensar que todos nos deveríamos autoconhecer. Na verdade, isto exige tempo de observação e reflexão que as famílias de hoje já pouco têm. Além disso, nas escolas, o autoconhecimento não é tratado com uma matéria essencial para a boa execução de todo o processo de educação.
O nosso sistema nervoso, serve de órgão de comunicação com os outros e connosco próprio. Hoje conhecemos um certo número de “instruções” que, uma vez aprendidas, facilitam a gestão das nossa acções, emoções, pensamentos, saúde pessoal e flexibilidade social.
Ter um bebé é uma aventura extraordinária. No entanto, traz desafios que ressoam em experiências da nossa infância. Levantando por vezes conflitos em nós próprios que podem impedir a formação de núcleos familiares saudáveis para o crescimento de qualquer ser humano.
A mente, ao contrário dum computador, é psicológica e não lógica; maleável e não fixa. Períodos de receptividade e alegria são uma enorme oportunidade para a aprendizagem de ferramentas psicológicas.
Porque não juntar à sua consulta pré natal uma consulta de reflexão psicológica? Aproveite esse período para investir no melhor indicador de sucesso para o seu bebé!

Nascemos vulneráveis e incompletos

Imagine que vai buscar a sua criança ao fim de um dia de trabalho. Sente nos ombros tensos o cansaço e uma lâmina de impaciência no pára- arranca do trânsito. No entanto, a antecipação do abraço e da conexão, consegue-a manter integrada no mundo envolvente.
Entretanto, na escola, a professora, que não gosta ou tem medo de cães, amedronta as crianças, dizendo “Cuidado com o cão do vizinho! É muito mau!”
As palavras soltas da criança dissolvem-se no medo do ladrar do cão. Os braços abertos da mãe sentem o peso de rejeição ao pegar na criança e diz: “Se continuas a chorar, ponho-te no chão”!
E a criança chora ainda mais e o cão continua a ladrar…
Agora, já desconcertada, põe a criança no chão. Ao fim de algum tempo, a ameaça de ser deixada à mercê do medo e o desejo de colo, acabam por secar o choro. Esta criança talvez tenha aprendido, neste momento, a correlacionar os sentimentos de rejeição e de vulnerabilidade.

Nascemos vulneráveis e incompletos e dependemos da nossa sociabilidade para sobreviver. Usamos o nosso sistema nervoso para sentir o abandono como um perigo de vida. Mas, como o circuito da dor física se sobrepõe ao da separação social, gritamos e choramos até que a nossa mãe, ou outras mães, nos encontrem e nos venham salvar.
Como adultos, transportamos pela vida fora esta dor da separação.
Crescer é aprender a viver com esta dor e a construir dentro de nós as ferramentas de sobrevivência, sempre com a necessidade física e emocional, de nos sentirmos protegidos ou integrados na nossa sociabilidade.
Na infância, a experiência relacional com os que cuidam de nós, lança os pilares da arquitectura da nossa mente. Para salvaguardar aquele lugar seguro, longe do cão a ladrar, cada criança encontra estratégias que um dia marcarão o modo como se relaciona consigo própria, com as suas sensações, emoções e pensamentos e também com os outros e com os imponderáveis da vida.
Para que a criança se transforme num adulto saudável é necessário que encontre flexibilidade, capacidade de adaptação, coerência, energia e estabilidade para se recompor das dificuldades.

Ora esse tempo crítico da nossa formação é uma dança entre a criança e quem dela cuida. E se a criança é vulnerável também o adulto mantém, nesse fundo inacessível da memória, a marca das suas próprias experiências da infância.
É neste período extraordinário da vida que mother and others podem viver momentos desafiantes. Porquê?
Nesta relação com a criança, o adulto faz um download das suas próprias vivências de infância, fazendo emergir dessa memória implícita (inacessível) os seus próprios conflitos e vulnerabilidades que se vão reflectir no modo como interage com a criança, quer através de atitudes que lhe assentam como uma luva, quer através de conflitos que a impedem de se tornar um ser humano saudável.

Que ferramentas nos podem socorrer?
Através do treino da mente podemos desenvolver :
Self Awareness – Regulation and Transcendence.
Ou seja:
Self awareness, ou a consciência receptiva do que se passa connosco a nível físico, emocional e conceptual. Este tipo de consciência dá-nos a capacidade de monitorizar os nossos passos, nessa dança a dois, dum modo afável e flexível.
Self regulation tira-nos dos automatismos e abre flexibilidade de resposta e possibilidades relacionais.
Transcendence ajuda-nos a descentrarmo-nos do nosso ponto de vista egocêntrico e de sobrevivência, para poder contactar e ouvir os outros.

Existe uma extraordinária janela de oportunidade, na vida da futura família, para trabalhar a vida interior do jovem casal. O tempo de gravidez é habitualmente um tempo de esperança e abertura. Hoje sabemos que com uma entrevista (AAI – Adult Attachment Interview) podemos prever, com bastante eficácia, o tipo de estratégias que a criança terá que encontrar para lidar com os seus pais, mesmo antes de nascer.
Porque não usar esta ferramenta na primeira consulta de obstetrícia? Teríamos 9 meses para trabalhar com os jovens pais e para os ajudar a oferecer, à futura criança, um ambiente relacional mais propício para lidar com as vulnerabilidades da nossa natureza.

Minnie Freudenthal
Dezembro, 2017

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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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