De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Ayah mulaa, ayah mulaa!
Não estava certa de serem eficazes as palavras que a Laura entoava para encorajar as nossas mulas naquelas encostas vertiginosas e lamacentas. Mas nem arre mula, nem algumas chibatadas, ao meu entender convincentes, faziam os animais acelerar o pachorrento passo. Mas antes assim, pois nas margens acidentadas do Guayabamba, qualquer cavalo mais criativo seria uma fonte de inquietação. Nalgumas descidas mais a pique, evitávamos ser projectados por entre as orelhas das mulas, encostando totalmente a cabeça à garupa do animal. Ao mesmo tempo praguejava contra a minha Nikon, na ponta da mão, esticada a salvo dos salpicos de lama na melhor tradição lusitana. Atrás de mim, o Manuel levava na cara o silêncio de quem antevia desastre. A rematar o grupo, a Laura guiava pela arreata o cavalo da Marla que não se atrevia a tomar o comando.
Ayah mulaa ayah mulaa!

casa do jim

Estamos, finalmente, a fotografar os nossos antigos slides esquecidos em caixas de cartão desde 2005, para os conectar à tecnologia digital. Foi uma emoção redescobrir as imagens esquecidas da nossa viagem, com a Marla, às florestas do Equador…
Foi em 1987 que, no comboio nocturno de Mombasa – Naroibi, conheci a Marla. Rimo-nos ao descobrir que afinal éramos vizinhas em Nova Iorque. Revelou-se boa companheira de viagem, não lhe faltando humor nas ocasiões mais adversas. Temos a mesma idade, mas em Maio de 68, enquanto eu crescia calmamente em Portugal, a Marla aderia, na prática, aos movimentos sociais mais radicais da época. Deixou a escola, leu e viajou imenso, vivendo sempre de trabalhos provisórios. Em 1987, eu tinha acabado a minha especialidade de Medicina Interna e ela tinha recomeçado a estudar Enfermagem. Durante todos estes anos tem sido uma ótima fonte de conselhos sobre lugares exóticos a visitar.
Em Outubro de 1992, quando o Manuel e eu planeávamos as nossas férias, encontrámos a Marla numa festa. Já antes nos tinha falado da beleza natural do Equador. Perguntámos-lhe o que nos aconselhava a visitar naquele país. “Exactamente o que preciso agora, férias com amigos! Sei duma quinta maravilhosa, perdida na floresta tropical do Equador.” Respondeu-nos com o sorriso de quem vê as férias antecipadas. Recebi mais tarde instruções para telefonar para Quito, num certo dia, entre as sete e sete e meia da manhã, pois só assim poderia encontrar o Jim, o proprietário da tal quinta. Agora, que sei aonde ele vive, percebo-lhe a voz de espanto quando me ouviu telefonar de Nova lorque. E tudo ficou combinado para nos encontrarmos daí a dois meses.

casa do jim
casa do jim

Chegámos às onze da noite a Quito. A Marla tinha apanhado o avião anterior e sobressaía sorridente quase um palmo acima dos Equatorianos. Uma cara conhecida no aeroporto dava a ilusão de nos sentirmos em casa. Já nos tinha arranjado um hotel na parte antiga da cidade, onde nos preparávamos para o sono dos justos depois de um dia de aviões e aeroportos. Mas era sexta feira, América do Sul, hotel de pátio interior coberto, e o porteiro e os amigos tinham outras intenções. Música e cerveja correram pela noite fora apesar das indignadas ameaças de quem tinha pago para dormir. Nas ruas, a algazarra já era grande quando saímos de manhã à procura de botas de borracha, peça essencial para quem pensa penetrar na floresta. Começavam, nesse fim de semana, as festas da cidade de Quito. As ruas encheram-se de mercados ambulantes pela encosta acima da cidade estendida nas alturas. No nosso fôlego desadaptado víamos passar, com espanto, velhos com bilhas de gás suspensas na nuca ou volumosas trouxas de produtos para vender. Crianças, muitas crianças carregadas de outras crianças, às costas e pela mão. Surpreendeu-nos a enorme variedade de fruta, desde mangas, anonas e outras perfumadas frutas tropicais às encorpadas e saborosas framboesas. Nos trajes tradicionais das equatorianas predominava o contraste entre o azul forte dos vários tecidos e o branco das camisas bordadas.

casa do jim
casa do jim

No dia seguinte, com as mochilas reduzidas ao mínimo, partimos de camioneta para Sanjuangal, pequena aldeia perto do Rio Guayabamba. Assim, ao fim de seis horas trepidantes de autocarro, descemos das alturas da cidade de Quito para as terras baixas e húmidas que separam a cidade da costa. A pequena aldeia de Sanjuangal, rodeada por montanhas de floresta tropical, com a sua igreja branca à entrada, não tinha mais do que duas dúzias de casas em volta dum terreno baldio. Este poderia ter sido um campo de futebol ou a praça de uma vila que planeara vir a crescer. Mas na sua irregularidade só um dos cantos tinha sido aproveitado para um campo de voleyball, desporto nacional, jogado em todas as aldeias do Equador, apenas com três jogadores por equipe. Num dos lados desta praça estava a casa do José, onde iríamos pernoitar. No piso térreo, a única divisão com chão de cimento e uma janela, era a sala de jantar. A porta das traseiras dava acesso a um pátio de terra batida onde as galinhas e roupa a secar se confundiam nas suas cores. Num canto havia uma pequena casa de banho onde um bidon com mangueira servia de lavatório. Por umas escadas exteriores subia-se ao primeiro andar, todo em madeira, com pequenas divisões separadas por tabiques. Em cada quarto só o essencial: uma cama, onde instalámos o nosso mosquiteiro, que sempre dá uma sensação de território protegido. À noite jantámos o prato nacional, canja de galinha com yucca. O serão prolongou-se barulhento para lá da vontade de alguns, que, cansados da viagem, só queriam dormir.

Os nevoeiros matinais já se tinham levantado quando Laura, a nossa guia, apareceu com três mulas para nos levar até casa do Jim. Carregaram as mulas com pesados sacos de milho e feijão e lá nos despedimos de Sanjuangal. Depressa nos apercebemos que o caminho que corria ao longo das elevadas margens do Rio Guayabamba não só tinha declives vertiginosos, como o piso de lama tornava o percurso uma verdadeira aventura. Valeu-nos a calma das mulas que se sentiam em casa, apesar de por vezes se enterrarem na lama até acima dos joelhos. A paisagem era maravilhosa, entrávamos, aos poucos, na floresta tropical virgem, deixando para trás as aldeias e vestígios de civilização. A meio caminho, almoçámos em casa da Laura. Uma pequena casa de madeira sobre estacas, onde a pobreza era óbvia, mas as crianças não tinham sinais de desnutrição. Na cozinha, à volta do lume de lenha, corriam vários porquinhos da índia, muito apreciados na alimentação local. A escola mais próxima era a mais de uma hora a pé, num local tão ermo que nenhum professor ali se aguentava muito tempo. Há mais de um ano que as crianças não tinham escola. Depois da casa da Laura, afastámo-nos progressivamente do Guayabamba e entrámos em zonas de floresta mais densa.

Finalmente, ao fim de seis horas de caminho, emergimos da floresta numa clareira onde o Jim e os dois filhos nos esperavam à frente da casa. O Jim e a Meredith, sua mulher, conheceram-se na Colômbia, quando, nos anos sessenta, saíram dos E.U.A. integrados no Peace Corps. Tornaram-se agricultores e depois de muitos anos nas florestas da Colômbia resolveram mudar-se para o Equador. Tinham comprado, há cinco anos, aquela quinta de 300 hectares por onde passa o Guaycuyacu, um rio não poluído, que desagua no Guayabamba. Construíram eles próprios a casa sobre estacas, toda em madeira, onde no andar de baixo, sem paredes exteriores, havia de um lado uma cozinha e do outro uma sala com uma biblioteca muito bem fornecida. Por umas escadas centrais subia-se ao andar superior onde os quartos de dormir eram protegidos, apenas, por meias paredes exteriores. Por baixo do chão da casa, enormes gavetas podiam, em dias de sol, ser corridas sobre carris de madeira, para que sementes e frutos guardados secassem ao sol. A cerca de quinze metros da casa principal situava-se outra mais pequena, apenas com quartos e uma varanda, onde ficámos instalados.

A casa era abastecida por água do rio Guaycuyacu através de uma mangueira de 500 metros, colocada perto da nascente. Tinha derivações para dois duches, uma torneira exterior, água corrente na cozinha e uma curiosa máquina de lavar roupa feita de um tronco de árvore escavado onde uma alavanca com um piston de madeira agitava a água e a roupa. Um sistema de fossa era utilizado para as retretes, feitas de troncos de madeira ocos com uma tampa, sempre religiosamente fechada. A nossa retrete encontrava-se numa pequena casota, a uns metros da casa. Não tinha porta, permitia olhar e ouvir a floresta em redor. Depois dos primeiros dias de ambientação, durante os quais se esperava constantemente o aparecimento súbito de todo e qualquer animal, constatei que, afinal, preferia aquela paisagem à dos azulejos das nossas casas de banho citadinas.

A alegria dos filhos do casal ao ver-nos chegar foi óbvia. Alguém com quem brincar! Cansados que estávamos da viagem, aceitámos de bom grado um sumo de frutas e a ideia de nos irmos refrescar ao rio. Quase a correr seguimos a Chani e o Hoku pela floresta adentro. Passámos por um terreno cercado, com relva da nossa altura, que servia de pastagem a dois cavalos e uma mula. Descemos o monte e ali estava a jóia do local: um rio de águas cristalinas que desenhava uma bacia funda, com cerca de 25 metros de comprimento, rodeada por floresta tropical. Sem dúvida um local privilegiado. Algumas grandes pedras das margens permitiam tomar banhos de sol ou serviam de encosto para bons momentos de leitura ou apenas para se contemplar a natureza.
O Hoku de 11 anos e a irmã de 13, eram simpáticos, conversadores e muito instruídos. Fisicamente, além da força muscular, tinham um traço engraçado: em ambos, os pés tinham alargado e crescido demasiado por andarem quase sempre descalços. Assim habituados, corriam sobre as pedras, enquanto nós, com pés pequenos e mal treinados, recorríamos frequentemente ao uso das mãos para nos equilibrarmos naquele acidentado piso.
Foi com algum apetite que nos sentámos para jantar. Tivemos uma ótima surpresa! O Jim era um excelente cozinheiro! Sem carne nem peixe serviu-nos diariamente verdadeiros pitéus. Pão integral amassado por ele e cozido em lenha, bolos de especiarias exóticas,” bifes de tempeh” (grão de soja fermentado por fungos) acompanhados de banana frita ou feijão, eram algumas das suas especialidades. Uma lâmpada na cozinha, outra na sala e um pequeno rádio, eram os únicos objectos eléctricos da casa, alimentados por uma pilha de 12V ligada a uma pequena placa solar. Ao serão, contámos historias, e ouvimos o Hoku descrever motores, quaisquer motores, como se estivesse dentro deles! Os dois irmãos estudavam por correspondência e além disso passavam muitas horas a ler. A Chani tinha resolvido que tinha chegado a altura de ir estudar para perto dos avós, no Nebraska. Sem dúvida, uma decisão importante. O Hoku parecia calmo perante a perspectiva de ficar por ali sem a companhia da irmã.

Os dias seguiram-se deliciosamente semelhantes uns aos outros com muitos banhos no rio e muita leitura na biblioteca do Jim onde descobrimos o Granta (que se tornou indispensável desde então). Deliciámo-nos com James Fenton, Bruce Chatwin, Redmond O’Hanlon e Paul Theroux. Fizemos diversos passeios com o Jim pela floresta e ao longo do Guaycuyacu, cheio de maravilhosas piscinas naturais. Durante os passeios, o Jim, de catana na mão, ensinou-nos coisas sobre as árvores, para que serviam, o que se comia ou o que era venenoso. Não vimos animais perigosos, embora soubéssemos da sua existência próxima. Deparámo-nos apenas com uma enorme tarântula morta, bem perto da casa e com uma impressionante barata de 15cm!
A floresta envolvia-nos até à clareira da casa. À vista desarmada não se percebia onde é que o Jim cultivava os seus produtos (cardamos, gengibre, papaias, bananas etc.). Explicou-nos que cultivar na floresta tropical é difícil. Se as árvores forem cortadas e a floresta desbastada, a fina camada de terra fértil é levada pelas fortes chuvas tropicais. Por isso é preciso plantar no meio das árvores e de alguma vegetação rasteira já existente. Não se deve cometer o erro da agricultura tradicional em zonas da floresta que são queimadas e utilizadas para cultivo até à sua quase exaustão, na realidade a cultura do milho, utilizado para fazer as tortilhas, tão populares na alimentação local, esgota a terra em cerca de três anos. Durante a viagem de autocarro até Sanjuangal vimos que estes métodos tinham provocado, em muitos pontos, a destruição completa da floresta… Apesar disto, os novos métodos alternativos de agricultura ainda eram olhados pelos locais com alguma desconfiança.

Há 25 anos, o Jim sonhava em aproveitar o desnível de 30m entre a nascente e o curso do rio que passava perto de casa. Com uma pequena turbina queria produzir um pouco mais de electricidade. Para quê? Confessou-nos que gostava de ter uma máquina de fazer sumos e um computador! O sonho parece ter-se tornado realidade…. Fomos ver e descobrimo-lo num website. O negócio das sementes parece estar a correr muito bem e o Jim já nem aceita clientes novos! Continuam a oferecer estadias com preços mais do que razoáveis para gente interessada em fazer estágios em permacultura e para os cientistas com projectos na região.
Se está pronto para viver uma experiência memorável, aconselhamo-lo a consultar o site RESERVA RIO GUAYCUYACU

Minnie Freudenthal
Fevereiro, 2018

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

Últimos comentários
  • Deliciei-me com esta reportagem e o que ela representa para um grupo de amigosque recuperaram anos de história comum.
    E começo a compreender as grandes e emotivas viagens que a minha amiga Isabel Almasqué sempre faz…

  • Gostei muito de ler esta reportagem acompanhada de muito belas fotos da selva amazónica do Ecuador.
    Li com muito interesse ja que vivi e estudei no Ecuador, viviamos em Guayaquil e tinhámos casa de praia em Salinas.
    Como o meu pai trabalhava para a Nestle visitávamos muitas ciudades deste pequeno mas muito variado pais, especialmente a cidade de Quito, com os seus edificios tão maravilhosos ao estilo colonial espanhol..
    Parabens Minnie e Manuel por descreveram tão bem a beleza dessa naturaleza quase intacta da mão do homem.

  • Minnie e Manuel que Beleza de viagem, literalmente. E que prazer ver as fotografias! Não consegui deixar de pensar no que faria o Topezinho com tanta natureza!
    Um abraço grande. Com saudades.
    Margarida.

  • Obrigada, Minnie e Manuel por este relato tão vivo. Uma viagem feita por fora e por dentro, como todas as verdadeiras viagens. Tantas emoções, aventura, amizades, desafios, descobertas, acreditem, viajei convosco!
    E essa ideia de fotografar os velhos slides…muito boa, nunca me ocorreu.

  • Gostei muito.
    E quanto à estadia de Permacultura, verdadeiramente aliciado…

  • Delicioso. A paisagem, as atribulações físicas e as reserva do medo. Inspirador, quase radical. E recordar recreando é fantástico.

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