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Deficit orçamental (das firmas e empresas)

O Deficit Orçamental não é só para países.
O acesso ao crédito é necessidade vital de qualquer Companhia. Enquanto vai pagando os juros e a amortização do que deve, trata da administração corrente e, se necessário, pede emprestado mais dinheiro para o crescimento da firma. E entretanto, quando finalmente pagar o que deve (se o chegar a fazer), todas as outras Empresas recém criadas ou já existentes, terão estado a contrair as inevitáveis dívidas, de modo que o valor agregado da dívida de todas as Empresas não governamentais vai aumentando inexoravelmente. Tal como o governo, o sector não governamental tem um deficit orçamental.
E no agregado, a dívida nunca será paga. A última coisa que os investidores em obrigações de Empresas querem, são contas à ordem nos bancos comerciais. E quando o investidor individual precisa de dinheiro vende a obrigação no mercado, ou deixa-a chegar ao seu termo. Mas no agregado, a dívida nunca será paga.

Com as receitas provenientes das vendas, a Empresa paga os salários, os fornecedores de produtos intermediários e as despesas operacionais correntes. O que sobra será para pagar encargos financeiros ao Governo (impostos) e aos credores (juros, e amortização). É a EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization). É uma medida grosseira do Cash Flow da firma. As empresas estão endividadas e dependem absolutamente da reciclagem e reformulação automática da dívida quando esta chega ao seu termo. E com as quantias astronómicas de capitais disponíveis à caça de oportunidades de empréstimo, as taxas de juro são baixas. O conceito duma empresa sem dívidas só se aplica a uma minoria de super firmas (Apple, Microsoft, Google) que poderiam pagar o valor nominal da dívida se quisessem. Mas não querem, e pelo contrário endividam como as outras. O ratio Divida/EBITDA dá uma ideia das magnitudes envolvidas: GE 13, Verizon 2.5, AT&T 3.4, McDonald 2.6, Chevron 2.8, Oracle 1.9, Caterpillar 5.7, etc. Para levar uma destas firmas à bancarrota instantânea bastará recusar-lhe crédito. É claro que não é possivel isto acontecer, só um conluio de todas as empresas financeiras faria isso possível.
Um exemplo: Dentro dos EUA a Apple está atulhada em dívida. Os lucros domésticos não chegam para pagar os dividendos aos accionistas, mais as despesas com a compra de Acções de si mesma (buy back). Mas lá fora, onde a Apple guarda os lucros, a situação financeira vai de vento em popa. Como firma financeira vale metade do Goldman Sachs, e em volume de negócios o ramo financeiro da Apple é colossal. O deficit orçamental é apenas doméstico.

O DEFICIT ORÇAMENTAL (do Consumidor)

Geralmente o cidadão comum é um devedor líquido. Terá 10 mil euros em bens financeiros, 30 mil euros empatados na casa, e 150 mil de dívida ao crédito à habitação. Ao quando fim de 30 anos tiver pago a casa, milhares de cidadãos terão entretanto contraído ab initio o mesmo empréstimo, de maneira que no agregado a dívida do cidadão consumidor aumentará inexoràvelmente. E no agregado a dìvida do cidadão consumidor nunca será paga.
Se um dia o crescimento da economia for zero por um largo período de tempo, as dívidas contraídas forem sendo pagas, o deficit diminuirá, mas isso é actualmente ficção económica. Envolveria o crescimento parar e fazer marcha atrás.

O DEFICIT ORÇAMENTAL (na Europa)

Estando cada país a lidar com uma moeda estrangeira, cada país na Europa é como uma entidade privada dentro dos EUA. Mas enquanto as grandes companhias nos EUA se endividam até ao pescoço, na Europa os governos têm restrições ao crédito, como mandam os regulamentos da CEE. Nos EUA as grandes firmas reciclam livremente a dívida, quando chega o dia de pagar o capital devido (Refunding the Debt). Sem essa reciclagem elas nunca poderiam pagar a Obrigação quando esta chegasse ao seu termo. A firma privada só tem que pagar juros a credores sucessivamente diferentes.
As Apple e Microsofts são excepções, com a gigantesca liquidez que têm armazenada. Mas no entanto, ainda recentemente, a Apple emitiu 2,5 billiões de dólares de obrigações, apesar de ter um pé de meia múltiplo dessa quantia (ver acima). Há triliões de dólares pairando no ar, buscando investimento. A reciclagem das Obrigações resolve automaticamente o pagamento do dinheiro em dívida. Mas na Europa, como a um governo endividado seria impossível pagar o montante devido sem uma reciclagem da dívida, recicla-se a dívida com taxas de juros usurárias, como consequência. E com o empobrecimento consequente do país endividado, mais difícil se torna pagar o quantitativo e os juros sem uma nova reciclagem da dívida. E as taxas de juro sobem de novo. A decisão de cobrar juros de extorsão é política. As dívidas deveriam ser automaticamente reformuladas, dada a capacidade dos governos dos países pagarem juros não estar normalmente em causa. Tal como todas as grandes empresas nos EUA.

E assim por diante. Em 2007 o GDP Alemanha era 10.4 vezes o da Grécia. Em 1015 era 15 vezes.

 

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Dezembro 2017

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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalista (EUA).

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