De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

E eis-me na Índia outra vez…

World Sacred Spirit Festival

Não foi uma viagem turística. Voei para o deserto do Rajastão, onde passei três dias na pequena cidade de Nagaur a 200 Km de Jodhpur. Aqui, fiquei os restantes três.
Fui assistir a dois festivais de música. “World Sacred Spirit Festival”

O primeiro, num ambiente privado, com acesso restrito a cerca de 200 pessoas, apadrinhado pelo próprio Maharaja sempre presente e organizado, entre outros, pelas Princesa sua filha e Alexandra de Cadaval.
Alain Weber, o curador, tenta uma fusão de música oriunda de vários países, como o Irão, a Arménia, a Etiópia, a Lituânia ou a Itália entre outros, com os sons da música espiritual Sufi. É uma maravilha. Um sonho mesmo.
Uma cantora lírica, corpo de sereia, iraniana de raiz, a cantar poemas da sua terra natal, acompanhada por um contrabaixo e vários instrumentos de cordas indianos. Uma tarde a acabar, mil velas a acender, as arcadas do palácio a brilhar. Um misto de paz e misticismo embalados pela música com laivos de filosofia Sufi, que apregoa o “não sou” em vez da definição terrestre de cada ser. Tudo isto leva a que se viva um ambiente de serenidade e paz. Parece que tudo paira no ar. Todos se falam, todos sorriem, uns abertamente, outros escondidos atrás do olhar. Ali somos paz. Gente interessada com a ousadia que o dinheiro pode dar. Conversas à mesa, trocas de sorrisos, vestes elegantes, sedas a brilhar.

Estamos no forte da cidade, recentemente restaurado, onde passamos o dia, a noite também.
O sucesso foi enorme desde o primeiro ano e a organização decidiu fazer um segundo festival no forte de Jodhpur com um programa semelhante ao de Nagaur. Aberto ao público e num cenário tanto ou mais maravilhoso que o anterior, estávamos no topo da montanha reinando no mundo. Pela Arte. Pela Beleza. Aqui, por ter acesso às instalações do elenco artístico, além de voltar a ouvir alguns dos concertos que mais gostei, tive o privilégio de me mover no palácio por lugares a que os turistas não têm acesso. Senti-me a Princesa Eu, o que quer que seja que isto quer dizer… Vieram-me à memória os livros infantis que tanto gostava, viver um desses contos. O palácio é maravilhoso, as escadas escondidas surpreendentes, as cozinhas nem as descrevo. Os meus pés voavam, o sorriso não descolava.
E depois acabou. O Conto De Fadas. As Mil e Uma Noites. A Princesa Rapunzel. A Julieta à Varanda. Foi difícil regressar. Foi difícil aterrar. Acho que ainda não estou cá. Uma coisa é certa. Um dia vou voltar.

Vou não vou, vamos não vamos, visto não visto…

Viajar com a Madalena é assim. Adoro! Mas é tudo o que eu não sou.
Seis meses de programação. Viagens, hotéis, taxis, carros, gluten free, ingressos para o festival pagos em rupias, corridas ao banco, vistos…
Pois é: vistos… ontem à noite ainda não tinha chegado. O dela! O meu já o tenho há um mês. Vou? Vamos? Não vamos?Organização de recurso. Se… então… Se… então…
Zangar? Não vale a pena. Rezingar? Não vale a pena… Há-de aparecer solução.
Resultado. A caminho do aeroporto com três vistos. O meu, o que se arranjou de urgência e o que entretanto chegou…
Ainda não estamos na Índia mas já parece.

E eis-me na Índia outra vez…

O boarding pass foi apagado do telemóvel pelo segurança. E a reserva não aparecia no sistema. Tens de comprar outro bilhete, dizem-me no balcão da companhia, depois de andar kms e horas, que não tínhamos, à procura do mesmo para reclamar. Wifi não há. Finalmente lá consigo ligar o Roaming da net, procuro no lixo, recupero a confirmação apagada e eis que milagrosamente esta volta a aparecer no sistema. I’m your savior! Quase de mão estendida para o tip, sorriso rasgado na cara.
Índia! É assim. Ou se gosta ou então não vale a pena vir.

Os empregados do hotel

Sacodem as migalhas de cima da mesa com um guardanapo, varrem as folhas do chāo com as mãos, escondem-se atrás dos cantinhos, espreitam para os quartos, fazem gracinhas e troçam de nós. Mam, está tudo bem? Esperam que em troca lhes caia uma nota na mão. São os empregados do hotel. Parecem crianças. Uma escola de tantos que são. Um sorriso rasgado, escondido pelos bigodes. Encaracolados, cuidados, enrolados. Morenos, brancos, descolorados ou às cores. Podemos vê-los nos mais velhos, adivinhar nos mais novos, orgulhosa e atrevidamente despontando nos que já ou ainda não são. O orgulho do Rajastão! Ponha-se-lhe o turbante multicolor e ei-lo. O nosso bom dia, a nossa boa noite.

O frio da noite

Nos hotéis desligo o frigorífico do mini bar. O barulho é tortura chinesa para mim.
Estamos no deserto, de dia vinte e cinco graus, à noite estão seis. As tendas são de pano, o aquecedor nem pensar do barulho que faz. Ouve-se tanto! Adoro o acordar no silêncio das aves, o muezzin a chamar.
Passo então a descrever como me vou deitar: Camisa de noite. Casaco de malha. Casaco polar fechado até ao pescoço. Colete Uniqlo fechado também. Leg-ins e meias. Os pés enfiados nas mangas do blusão que fecho à volta das pernas. Por fim embrulho as ancas numa manta de cashmere que sempre trago comigo, a minha salvação. Saudades da minha botija lá longe em Cascais. E na cama os cobertores são dois.
So sexy!
Mas durmo tão bem!

Magia

Bom.. acho que desta vez não consigo lá chegar. Por mais que tente escrever uma história, no fim vai para o lixo. Já tentei. Mas não dá.
Não consigo descrever as Mil e Uma Noites.
Não consigo descrever o local, o forte seco e árido durante o dia, belo e iluminado durante a noite. Cá dentro um palácio com todas as paredes e tectos pintados, lagos, jardins, casas, e recantos. E improvisadas nos espaços abertos as nossas tendas. Lindas!
Não consigo descrever as pessoas. Parece cenário Agatha Christie com acção no Oriente. Vestidas a rigor, sedas e ouro, turbantes e saris, cabelos arranjados, adereços valiosos. Exibição orgulhosa do seu eu. Homens e mulheres de todo o mundo com quem vamos trocando sorrisos, saying hello. Gente bonita. Gente interessante. Gente interessada. Grandes conversas. Ao almoço, ao jantar.
Mas mais que tudo, impossível mesmo, é pôr em palavras a magia da luz, das cores, dos brilhos, das vestes, dos movimentos, dos instrumentos, do canto e das vozes. Embalada deixo-me levar. Para sempre em mim.

Indisciplina Total

Não havia internet. No hotel, na rua, em lado nenhum. Porquê? School exams. Para impedirem as cábulas da era digital. Cortam o mal pela raiz. Nada nem ninguém tem acesso durante essas horas.
Estes pais resolveram as coisas de outra forma.
Cábula oral.

Uber

Episódio 1
Viajar acompanhada é ótimo! Sentimos o conforto da segurança partilhada. Mas a companhia partiu.
Sozinha numa cidade na Índia é um desafio. Nem que seja por uma manhã só. Mas a alternativa era ficar no Hotel e eu não viajo 24 horas de avião para isso pois não?
Então Uber em Jodhpur para que te quero?
Pedem pagamento cash em vez de cartão. Concordo.
Pelo menos não serei enganada, penso.
Wrong… A meio da viagem recebo uma mensagem avisando que o preço afinal não era o pré-estabelecido mas sim mais, claro…20% a mais!

Episódio 2
À saída do forte, tentámos negociar o preço do tuc-tuc.
Duzentos, cento e oitenta, cento e cinquenta, cento e vinte negócio fechado Mam. Não não.
Só quero pagar cem e nenhum motorista cede. Turistas…
Pego no telefone e basta dizer acenando: Uber
Ok ok mam. Hundred…

Episódio 3
Não havia Uber!
Onze da noite. Procuro, espero, negoceio taxi. Quatro vez mais caro! Claro.. não há Uber e eles sabem disso.
Tirei fotografia à matrícula, ao registo. Entro no caos do trânsito noturno e espero que o motorista saiba onde é o Hotel e me leve lá direitinha.
Chegar cheguei. O motorista foi ao telefone aos gritos e a chorar a meia hora de viagem. Medo…

Episódio  4
Os critérios de exigência são bem diferentes de país para país não é? 

Fotos de Benedita Vasconcellos

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

Últimos comentários
  • Magnífico, Benedita. Muito bem escrito, como sempre. Consegues transmitir os ambientes, as cores, os sentimentos, numa escrita sentida e contida, sem rendas de bilros. Despertas a curiosidade e a vontade de conhecer os locais. Parabéns mais uma vez.

  • Obrigado pelas palavras Isabel. Um bj

  • Fantástico como sempre. Muito bem escrito . Parabéns e continua

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