De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Então, nem Amen, caramba!

Há 25 anos coordenei uma equipe de 6 pessoas que fizeram um levantamento relacionado com o património arquitectónico, para a Câmara Municipal de Lisboa. Como o trabalho era remunerado, foi necessário fazer um contrato de prestação de serviços com a Câmara. Nesse sentido, em data e hora determinadas, a totalidade do grupo apresentou-se no gabinete da advogada da CML que, ao ver entrar 6 pessoas, levantou o olhar por cima dos óculos e com ar enfastiado, exclamou: “Então isto agora é tudo à manada?”
Há 10 anos, por ocasião do falecimento de um tio meu, assisti, como é costume, à missa de corpo presente. Grande parte da assistência era composta pela minha família paterna que tem gente de várias origens, religiões e nacionalidades. O padre, já na casa dos sessenta ou setenta, lá ia dizendo a missa com voz monocórdica, com maior ou menor participação dos presentes e tudo parecia decorrer com a monotonia habitual destas ocasiões. De repente levanta a cabeça, fita-me nos olhos e dispara: “Então, nem Amen, caramba!”
Há 2 dias fui notificada para me apresentar no tribunal como testemunha de um caso de falsificação de um cheque. Apenas tinha entrado na sala de audiências, ouvi logo uma voz feminina, cuja origem não detectei, mas pensei ser duma funcionária (o tribunal era composto exclusivamente por mulheres), dizer-me num tom autoritário: “É para ficar em pé, aí, em frente a essa cadeira.” Pousei no chão a mala e os papeis que levava e cruzei os braços, de frente para a Juíza, aguardando as eventuais perguntas sobre o caso. Mas ouvi a mesma voz seca e ríspida: “Descruze os braços!” A expressão da face não deixava dúvidas, estava ali para demonstrar e exercer toda a sua autoridade. Afinal a voz era mesmo dela, da própria Juíza.
Portugal é assim hoje como era há 25 anos. Não vejo razão para que seja diferente daqui a 40. A única diferença é que eu já cá não estarei para aturar gente desta.
Quando as elites não prestam quem se lixa é o povão.

 

Isabel Almasqué
Abril, 2015

Foto de Isabel Almasqué

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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