De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

O Sr. Manuel nasceu nesta casa. Como em tantas outras, o fogo pegou pelo telhado e ardeu. Ardeu a casa, arderam as raízes e com elas o orgulho e a tranquilidade. Os escombros não permitem que se entre sem cautela. Pode cair a parede, podem cair as vigas. Devagar, com segurança, começamos a mexer. Para nós é entulho. Para o Sr. Manuel é a vida. É o que resta da cama, do fogão, das panelas garfos e facas, do leite que, por baixo do monte de telhas, azedou. E a tristeza impõe-se. O Sr. Manuel está a assistir. Parado, olha cada balde, cada carrinho que sai. O que será que lá vai? Nós não sabemos, ele certamente que algo reconhecerá. Os olhos vão-se enchendo de lágrimas. É o fim. Adeus vida. Adeus ao que já não resta de mim.
Até um dia Sr. Manuel. Espero que a casa seja reconstruída tão depressa quanto possível. À medida dos móveis doados e que esperam pelo destino final.
Adeus Sr. Manuel. Que privilégio tê-lo conhecido. Obrigado pelo que hoje me ensinou.

Não é uma área ardida e outra que não ardeu. Não é assim não. É mais aqui ardeu, aqui não. Esta casa ardeu, esta casa não. Impossível não repetir a palavra ardeu. Está presente por todos os lados. 360º à volta e dentro de Oliveira de Frades. ARDEU!

São as projecções diz a D. Conceição. Parece um fogo de artifício à volta disto tudo. Vem de lá uma bola de fogo e cai onde calha. Os meus vizinhos fugiram todos. Eu mais o meu marido não. Ficámos. E lutámos. Pegou fogo nas laranjeiras, no pinhal, nos canteiros, nas videiras que por lá tínhamos. Mas salvámos a casa. O vizinhos não. Agora é andar para a frente, diz com um sorriso brilhante. Mexe a sopa gigante para o jantar solidário. Estamos cá não estamos?

Dezembro, 2017
Benedita Vasconcellos

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

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