De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Florisvaldo Ribeiro Santos, também conhecido por Fulô, é um ceramista de tradição familiar que combina nas suas peças a religião Afro-brasileira com o fascínio juvenil pelos heróis da banda desenhada norteamericana. Os seus bonecos são comentários poderosos sobre a forma como o desejo mistura gratificação com sofrimento; como o poder pode ser usado tanto para o bem como para o mal. Ele próprio um escultural mestre de capoeira, Fulô produz figuras musculosas e ágeis, permeadas tanto por modernidade como por tradição. A sua cidade, Cachoeira (Bahia), que em tempos foi o centro da economia escravocrata da região, é hoje o nervo central dessa cultural afro-euro-americana que dá vida ao Brasil como nação. Este ensaio visual resulta das numerosas visitas feitas entre 2006 e 2012 por João de Pina-Cabral, Mónica Chan, Manuel Rosário e Minnie Freudenthal.

 

29 de Abril 2003: tenho três dias na Bahia a caminho de São Paulo, onde vou lançar o livro que escrevi com Vanda Silva sobre estas gentes e sua forma de vida (Gente Livre: Consideração e Pessoa no Baixo Sul da Bahia). Há um ano que não vejo Fulô e quero entregar-lhe uma cópia do filme que fizemos sobre ele. O número de celular que me deu há um ano não responde. São 06:00 da manhã e o sol está a levantar-se sobre o Dique do Tororó em Salvador. A vista aqui de cima do bairro da Fazenda do Garcia é encantadora, porque mistura a pobreza das paredes de tijolo borradas de fungo verde com a folhagem exuberante das árvores, as águas do dique, e a luz tropical. No meio do lago, giram os orixás gigantes, também eles coloridos; do outro lado, levanta-se já o novo estádio da Fonte Nova: para esse Mundial que, afinal, não mudou o Brasil …
Meto-me à estrada: a famigerada BR 324, onde um jovem arquiteto amigo meu morreu há coisa de cinco anos. Um camionista impaciente queria passar a todo o custo, então não teve mais do que empurrar o carro do meu amigo para fora da facha de rodagem. Foi o que bastou para terminar uma vida feliz, criativa—a vida de alguém que, confrontado com a diferença, tinha sabido superá-la e construir sobre ela um edifício. Num dia lindo assim, de céu aberto, sem muitos carros na estrada, custa a acreditar que seja possível alguém fazer um crime desses por mera impaciência!
Chego a Cachoeira pelas tortuosas calçadas de granito vermelho de São Félix. Encanta-me essa vista majestosa das águas que se movem entre as duas cidades em direção ao vasto e interior Mar do Iguape. Cada uma das duas cidades sobe a sua encosta como um presépio; cada uma do seu lado da velha ponte férrea. Já em Cachoeira, passo o centro histórico e subo a Calçada da Cadeia – aí onde se declarou pela primeira vez a Independência do Brasil, uns meses antes da declaração final. Mas logo me perco no emaranhado das casas afaveladas.
“Oi, moça! Sabe onde vive Fulô?” Mexe a cabeça lentamente, desinteressada. Não sabe.
“Esse que faz boneco de barro!”
“Ah, quer dizer filho de Couvinha, é?”
Mas agora sou eu que não sei. Vem outro:
“Essa que tem filho atrasado mental?” Agora sim.
Sugerem que me meta por uma espécie de rampa à direita, que chamam “essa rua aí”. Mas hesito, fico incerto se ambas as rodas dianteiras do carro cabem. “Tem problema, não. Vai!” Vou! Consigo passar à justa sem cair no pátio traseiro da casa de baixo, o que já não é mau mas, ao chegar acima, volta a haver uma escolha. Pergunto a um homem:
“Olhe, sabe casa de Couvinha?”
“Aí, mais adiante.” E gesticula com o braço para eu andar. Ao pôr o carro em movimento, no entanto, ouço um estalar como de quem passa por cima de uma garrafa de plástico. Olho para o homem, que ainda está ao meu lado, mas ele ri muito e faz gesto para eu andar.
Logo ali estou em frente à casa de Fulô e vejo-o sentado à mesa da sua sala pintada de vermelho, entretido a pintar um boneco de Lady Gaga com um cotonete imbuído em tinta branca. Quando saio do carro ouço ao fundo uma mulher aos gritos. Não era garrafa de plástico, afinal! Era a panela de alumínio da vizinha, que estava a secar na beira da estrada e agora está toda esborrachada! Dirijo-me a ela para me explicar, mas o homem que me tinha dado indicações, rindo-se muito, empurra a mulher para dentro da porta com um braço e faz gesto para mim com o outro de que não me incomode. Agradeço. Fulô está já ali para me abraçar.
Nunca se sabe o que se vai encontrar lá dentro. Desta vez, Aleteia (Couvinha, “de couve”, diz ele) está ausente. Tenho pena, porque ela é uma figura interessante, muito ao meu gosto. O irmão deficiente pede-me dinheiro para comprar pão para o almoço. Logo sai em direção à padaria com os primeiros reais que me saem do bolso, com pouco ele se satisfaz. Entretanto, Fulô mete o filme no seu leitor de DVD. Diz que entende umas coisas de inglês e fica muito satisfeito. Fala-me de uma exposição que os alunos da Faculdade organizaram das peças dele lá em baixo no Centro Cultural. Diz que vão gostar de ver o filme. Voltou a cortar as tranças rasta mas, mais uma vez, elas voltaram a crescer.
Chega uma moto e entra na casa de rompante um irmão seu, com o aspecto mais refinado de quem tem um emprego formal. Mal olha para mim e dirige-se à parte de trás da casa para começar a fazer o almoço. Ouvem-se as panelas a bater e o irmão conversa com Fulô como se eu lá não estivesse. “Fui dar de comer ao corôa. Está muito magro, coitado. Parece que ninguém chega lá pra dar ele de comer. Tava com fome.” Pergunto a Fulô: “De que se trata?” “Ah, é que foi dar de comer a meu pai, lá do lado de São Félix, onde ele vive.” Mas Fulô não responde ao irmão, está interessado demais em explicar-me as bonecas de Madonna, Lady Gaga, Bioncé e outras assim que anda a fazer. Quero comprar-lhe um barco de Exú que ele ali tem e, por isso, parte palitos com uma faca fina, para segurar os bonecos no barco. Quando é que ele vai voltar a fazer um maravilhoso barco do marinheiro português, como o que eu lá vi quando cheguei da primeira vez? Nessa altura recusou-se a vender-mo, porque já tinha dono.
“Então? Sempre fez o Ogum-Xerokê que eu lhe pedi?”
“Ah, não! Eu sei lá fazer isso! Não tenho onde copiar.”
“Mas homem, já lhe disse, é uma mistura de Santo António Sargento com Exú.”
“Mas precisa ver!” Volto a insistir, mas sei que enquanto eu não lhe trouxer uma foto da imagem não vai meter mãos à obra. Depois dá-lhes as formas dele, mas tem que ter a inspiração, não basta ouvir a descrição. Quando (se…) um dia voltar, logo lha trarei.
Passamos umas horas simpáticas falando sobre os bonecos dele e montando cuidadosamente uma caixa de papelão forrada a jornal para eu poder trazer comigo a série de bonecos que lhe compro. Alguns são para deixar pelo caminho – como uma versão encantadora do samba de roda a que nós assistimos uma vez na inesquecível noite da Senhora da Boa Morte que lá passamos em Capoeira. Esse ficou com Guido e Danny, o casal de amigos que me recebeu essa noite em Valença com um arroz de ostras de génio!
Da última vez que visitei Fulô, saí tarde demais e assustei-me muito nessa longa viagem no escuro. A BR 101 estava, como sempre, cheia de filas de camiões, de condutores aloucados, de buracos e de quebra-molas imprevisíveis. Por isso, desta vez, quis sair logo após comer qualquer coisa numa “padaria” do centro de Cachoeira (acaba sempre por ser arroz com feijão e mais qualquer coisa … em Roma…).
Lá volto a passar a ponte de ferro para São Félix e embrenho-me outra vez pelas estradas de pedra vermelha. Quando chego a um ponto onde a vista se abre para a majestosa fachada arroxeada da Barragem do Paraguaçu (onde antes tinha estado a tal cachoeira epónima) paro o carro para tirar umas notas. Está calor e as janelas do carro alugado estão abertas – carro simples, sem “ar” nem “direção assistida”, porque a FCT não paga mais. Do outro lado, um camião cheio de pedra desce a calçada íngreme. Pára, olha para mim com uma mistura de surpresa e asco: “Quer ser assaltado, é?”
Devolvo o olhar sem saber que dizer, mas ele já vai de caminho. Em torno ao meu automóvel a paz reina: ninguém … ouvem-se os pássaros piando alegres por entre os raios de sol e a folhagem de um verde incandescente, no límpido Outono baiano. Por sim ou por não ligo o motor e meto-me ao caminho motu continuu. De facto: nunca se sabe se vai passar por aí mais um qualquer sorridente homicida.

João Pina Cabral
Abril, 2018

Video

Fulô – power, captivity and desire

Galeria de Imagens

Fotos e video de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Partilhar
Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

Últimos Comentários
  • Olá João, Que beleza seu comentário que nos traz a a obra do Fulô, tão intensa e comunicativa. O filme é uma linda aproximação quanto ao universo que envolve Cachoeira, seus artistas e as ricas e complexas trocas e apropriações entre mundos aparentemente distantes..

COMENTAR