De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

“leve-leve”

Em São Tomé a expressão “leve-leve” traduz um modo de vida. “Leve-leve” quer dizer devagar e é devagar que tudo se faz em São Tomé. Não me lembro de nenhum outro sítio onde a sensação de tempo parado fosse tão forte e tão presente. As horas arrastam-se pelos dias e as pessoas não correm atrás de nada nem de ninguém. Não vale a pena ter pressa porque a pressa não tem sentido.

Esta “slow life” é balizada por uma economia de subsistência em que pescar, partir um pouco de lenha para cozinhar, colher o que a terra dá (e dá quase tudo), alimentar a família, lavar a roupa no rio ou vender pequenas coisas na rua ou no mercado, asseguram a vida diária. As poucas pessoas que trabalham nos serviços ou no pouco turismo que vai havendo, mantêm a mesma filosofia de vida. E tudo vai andando “leve-leve”. Os dias, que começam e acabam cedo, repetem-se assim ao longo do ano, numa terra sem grandes variações climáticas, atravessada pela linha do equador, onde o calor e a humidade são uma constante.

A ilha está coberta por uma vegetação exuberante e densíssima que faz lembrar a selva amazónica. O verde da paisagem é por vezes interrompido por alguns aglomerados de pequenas casas de madeira construídas sobre estacas e por grandes superfícies coloridas de roupa a secar ao sol. Porcos e galinhas passeiam-se com o mesmo à vontade dos nossos cães e gatos, inconscientes do fim que fatalmente os espera.

As ruínas de algumas antigas roças de cacau deram lugar a pequenas aldeias mas grande parte foi completamente abandonada. Nalgumas houve uma tentativa de recuperação das antigas construções coloniais, com intuitos turísticos, mas o mau estado de conservação das poucas estradas existentes, obriga a longas horas para percorrer curtas distâncias.

A cultura do cacau, embora em declínio e actualmente feita por pequenos agricultores, tem ainda, apesar de tudo, um papel importante na economia do país. Os cacaueiros com os seus frutos coloridos são hoje pouco abundantes e dispersos. Mas é precisamente com esse escasso e escolhido cacau de São Tomé que o italiano Cláudio Corallo fabrica in loco o seu chocolate artesanal e biológico, considerado o melhor do mundo, que vende para as chocolateries de luxo de Paris, Londres e Nova York.

De resto, há tudo com abundância: bananas de várias espécies, cocos, mangas, papaias, jacas, fruta pão, goiabas, carambolas, sape-sape, safu, matabala, etc.. etc… Basta colher e comer.

As pessoas são afáveis e sorridentes. A música está sempre presente e as danças têm todas conotações sensuais e eróticas muito evidentes. Não admira que a taxa de natalidade seja alta e que as mulheres desde muito novas já andem com um filho na barriga, outro às costas e outro pela mão. As crianças têm um ar bem nutrido. Há comida para todos e vai-se vivendo “leve-leve”.

Não, São Tomé não é o paraíso na Terra. Há carências de infra-estruturas e de saneamento básico. Na maior parte da ilha não há electricidade nem água canalizada. Grande parte da população anda descalça. Embora a escolaridade seja obrigatória até ao 6º ano, há muitas crianças que não vão à escola. Há falta de medicamentos, a malária é endémica e a sida e a tuberculose são ameaças reais. A assistência médica é muito deficiente e a maior parte dos cuidados médicos especializados é feita por cooperantes portugueses que ali se deslocam periodicamente.

Como sempre, levei a máquina fotográfica pronta a fotografar tudo e todos. Mas pela primeira vez senti que os disparos da minha máquina tinham a mesma violência que tiros de metralhadora que destruíam subitamente a espontaneidade das pessoas e estilhaçavam sem dó a sua privacidade. Por isso fotografei pouco. Optei antes por olhar e guardar as imagens na memória, na esperança “leve-leve” de um dia voltar a São Tomé.

Fotos de Isabel Almasqué

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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