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Lutero no nosso tempo

Volto aos meus tempos de História da Cultura Alemã, cujo programa eu iniciava com a Germânia de Tácito, para chegar a Lutero e aos seus discursos à Nobreza Alemã, continuando entre muitas outras coisas com Fichte, e novamente os discursos à Nação Alemã e culminando, infelizmente e já no século XX, com o delirante e falso patriotismo de um Hitler que levaria os povos e as nações do mundo a um sofrimento e uma ruína sem par.
Já era global o mundo, no seu tempo, como é global hoje em dia, de forma ainda mais radical.
Escolho Lutero como figura paradigmática de um pensador, teólogo e político – que viu na luta (ainda que de início e por princípio talvez correcta ) contra a Roma de um Papado ávido da cobrança de Indulgências, uma possibilidade de autonomia real e não apenas religiosa: autonomia pela qual se bateu, incitando a Nobreza e os Nobres da Nação, tão dividida, a unirem-se contra um inimigo comum, ganhando outro estatuto e influência política, social e cultural, por outras palavras: mais poder.
Tácito elogiara nos germanos o “conceito de serem únicos” no conjunto das tribus pagãs, com elevado sentimento da natureza, culto da família e da coragem heróica na sua afirmação perante os outros grupos. Únicos, isto é – Superiores.
Lutero, no seu apelo à nobreza alemã sublinhará aspectos que ainda hoje podem (devem?) ser material de reflexão, como por exemplo:
“suprimir a mendicidade em todos os países cristãos….cada cidade deveria tomar contas dos seus pobres, sem tolerar mendigos estrangeiros, quer sejam peregrinos, ou monges mendicantes. Cada cidade alimentaria os seus, e no caso de cidades menos importantes as mais próximas dariam a sua contribuição.”
A lição daqui retirada, como Lutero afirma a seguir, é que “seria mais fácil a esses administradores ou protectores, conhecendo bem cada caso, controlar os abusos dos escroques e dos celerados….”
Lutero cita São Paulo: “Aquele que não trabalha também não deve comer. Nunca foi dito que alguém deva viver à custa dos bens alheios…”.
Com que facilidade se passou da discussão teológica e filosófica às considerações políticas em que um olhar severo vai instilando nos Senhores a ideia de poderem, em cada cidade que dominam, exercer um poder ainda maior, dado que subtraído à autoridade vigente, que era da Igreja de Roma.
Lutero institui uma Igreja, a sua, liberta de Roma, do seu Papado e seus representantes, apelando pelo caminho a novas formas de controlo e exercício de poder por parte dos poderes tradicionais seculares.
Adiante, à medida que sobe o tom inflamado com que se dirige ao Papa e lhe nega todos os atributos, apelidando-o de grande pecador e de Anticristo, evoca os historiadores que sempre louvaram na Nação Alemã “a sua natureza nobre, a sua constância e fidelidade” a fazer frente ao pecado e à malícia de que o Papa de Roma se tornara emblema.
As locubrações passam para a discussão do ensino nas Universidades (e que autores de imediato deviam ser banidos, entre eles Aristóteles e tudo o que dele se conhecia), segue com o direito civil, cujas leis deviam ser depuradas, dando lugar a uma maior presença das Escrituras, o mesmo acontecendo com os livros, pois só os melhores deviam ser escolhidos, não fazia falta ler muito, era preciso ler só os bons e repetidas vezes,….etc.
É definido todo um modelo autoritário que ao fim e ao cabo, embora remeta para a consciência individual o poder de ajuizar e decidir, cria um sentimento de poder absoluto que com o tempo isola a sociedade do convívio dos outros, cujo pensamento condena e recusa à partida, por ser simplesmente “dos outros” por ser apenas diferente.
A diferença assusta – outrora como agora.
Mas é no respeito pela diferença que se pode viver melhor a liberdade.
Quanto aos mais pobres….a palavra hoje em dia é “que se amanhem” ou melhor “que se habituem”. Alguém se lembra da frase?
E o que foi feito dos protectores de serviço?

Yvette Centeno
Março,2012

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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