De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

De médico e de louco todos temos um pouco

O lado sombrio da net

 

Já aqui há uns anos, uma doente entrou no meu consultório e disparou: “A Sra. Dra. opera com pontos ou sem pontos? É que eu já vi na Internet que agora as operações mais modernas aos olhos são feitas com Laser e não levam pontos.”
Há uns tempos, o porteiro do meu prédio andava a queixar-se persistentemente de uma dor na zona lombar e numa das pernas, que o obrigava a coxear e o limitava bastante no seu trabalho. Aconselhei-o a consultar o médico para esclarecer o que se passava. Mas a resposta veio pronta: Ó Sra. Dra. o que é que eu lá vou fazer? Só perder tempo. Porque eu já fui à Internet e já vi que o que eu tenho é uma hérnia lombar entre L4 e L5. Já estou a tomar um anti-inflamatório e se isto não passar, vou ter que ser operado. Mas…, perguntei eu, o Sr. Orlando sabe o que é uma hérnia? A resposta foi pronta: é uma espécie de gelatina que está entre as vértebras e que se desfaz.
Há dias, tive necessidade de consultar a bula dum determinado medicamento que não conhecia bem, para verificar algumas contra-indicações. Ao fazer uma busca na Net pelo nome químico, o que me apareceu em primeiro lugar não foram sites médicos, nem farmacêuticos, mas sim sites de divulgação, quase todos brasileiros, com informação pseudo-científica.
Estes três episódios, aparentemente sem ligação uns com os outros, têm como denominador comum a informação veiculada na Internet, acessível a qualquer pessoa, tenha ou não capacidade crítica para fazer a triagem do que lhe é fornecido e separar o trigo do joio. Esta facilidade de acesso à informação, mascarada de democratização do conhecimento, veio convencer muito boa gente que basta ler uns artigos na Internet e consultar a Wikipédia para se tornar “expert” em qualquer matéria e ficar abalizado a emitir opiniões, principalmente na área médica que é especialmente sensível e diz respeito a todos.

de médico e louco

De facto, hoje em dia, todos têm opiniões sobre assuntos médicos. Políticos, antropólogos, sociólogos, psicólogos, astrólogos, jornalistas, gente da vida artística e muitas outras pessoas cujo contacto com um hospital se limitou provavelmente a estarem sentados nalguma sala de espera, permitem-se emitir opiniões taxativas sobre os inconvenientes de vacinar as crianças, as vantagens dos partos em casa, a indicação e periodicidade de alguns rastreios, os malefícios dos antibióticos, as mais valias dos “produtos naturais”, os níveis ideais do colesterol, os milagres do cálcio, etc, etc, etc. Qualquer um pode ter um blogue com aspecto muito sério e profissional onde ensina a emagrecer numa semana, a prevenir a queda do cabelo, a fazer exercícios para deixar de usar óculos, a tratar os joanetes ou até a prevenir o cancro. Há de tudo e tudo cientificamente comprovado, claro está. Os “telejornais” ocupam mais de metade do tempo de emissão falando de temas relacionados com a medicina, em especial aqueles que dizem respeito ao alegado mau funcionamento dos serviços públicos ou aos pressupostos casos de negligência médica, que são os que têm mais garantia de captarem grandes audiências. Tudo sempre transmitido num ambiente de melodrama, privilegiando o lado espectacular e bombástico da notícia em detrimento da informação séria.
Mas o que é mais preocupante é que mesmo pessoas com uma aparente diferenciação cultural e intelectual, mostram uma tendência surpreendente para dar crédito a todas as afirmações destes pseudo-especialistas de última hora cujos conhecimentos empíricos os levam frequentemente a confundir derrame pleural com derrame “plural”, descolamento da retina com “deslocamento de rotina”, pneumonia lobar com pneumonia “lombar”, cirurgia de um aneurisma com cirurgia “ao nariz”, nosocomial com “nasocomial” ou prognóstico com “diagnóstico” reservado e por aí adiante. Não, não estou a inventar, já ouvi isto tudo e pior ainda.
Em geral, procura-se informação séria e credível sobre assuntos económicos junto dos economistas; sobre problemas de engenharia, junto de engenheiros; sobre questões de direito, junto de juristas; mas sobre assuntos médicos, todos dão opinião. E não raras vezes, os leigos conseguem mais audiência que os próprios médicos.

de médico e louco
de médico e louco

Não estou com isto a dizer que a facilidade do acesso à informação através da Internet e o facto do público em geral se poder informar e esclarecer rapidamente sobre qualquer assunto não tem as suas vantagens e o seu lado positivo. Mesmo, no que à medicina diz respeito, é evidente que os doentes estão hoje muito mais informados sobre as suas doenças. E isso permite-lhes levantar dúvidas legítimas e exigir explicações mais completas por parte dos médicos, o que em si é uma coisa boa. Mas não se pode confundir informação com conhecimento e esse adquire-se através do estudo, da investigação, do rigor, da experiência e da diferenciação profissional. O tempo da medicina paternalista em que os médicos eram os únicos detentores do saber e os doentes não eram informados de nada, não pode ser substituído por uma época em que a hierarquia dos saberes parece ter desaparecido e em que todos pensam que sabem tudo acerca de tudo.

É certo que os tempos da verdade única foram sendo progressivamente substituídos pelo tempo das muitas verdades, tantas quantas as cabeças e todas aparentemente com o mesmo valor; o que até se pode aplicar à filosofia, à psicologia ou a outras áreas onde, como nada se pode provar, tanto é verdade uma coisa como o seu contrário. Mas em ciência, há verdades estabelecidas e indiscutíveis, pelo menos até que o método científico venha demonstrar o contrário.
Se de médico e de louco todos temos um pouco, como diz o ditado, não podemos confundir a sabedoria popular genuína, despretensiosa, baseada na tradição e transmitida de geração em geração com o novo-riquismo cultural adquirido à pressa e sem critério nos media ou em qualquer site da moda.
Pior do que não saber é não saber e pensar que se sabe.

Isabel Almasqué
Maio, 2016

As fotografias de azulejos pertencem aos Jardins do Palácio dos Marqueses da Fronteira e ao Museu Nacional do Azulejo

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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