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Memórias da Feira Popular

Lembra-se da Feira Popular?
Conte-nos as suas memórias…

Pergunta lançada em Janeiro e Fevereiro de 2016

Pai, compre nuvens!

A Feira Popular era para mim um local de magia, de diversão, de fantasia, de curiosidade, medo e mistério, de aventura, de atracção , de gula e de riso.
A minha feira popular é a do espaço onde hoje está a Fundação Gulbenkian, e lembro-me que a zona murada com aqueles muros altos, cinza escuro, só em si constituía motivo de excitação pela curiosidade do que lá ia encontrar dentro, algo que não se via de fora, e que escondia mistérios, aventuras surpreendentes e beleza.
Carrinhos de choque com uma vara ao alto que faiscava, o vertiginoso poço da morte que deitava um cheiro estranho a óleo ou petróleo, não sei, e eu a perguntar-me se os mortos teriam aquele cheiro, o comboio fantasma onde atravessávamos selvas com gorilas, e grutas com teias de aranha, e esqueletos que nos abraçavam, e eu agarrada ao meu pai, à minha tia, à minha mãe, à minha avó, a qualquer pessoa crescida que me levasse, os espelhos que nos deformavam e me faziam rir da figura que os adultos faziam, o algodão doce. Mãe deixe-me comer as nuvens! Pai, compre nuvens! Era mais bonito de se ver do que de comer, mas eu achava que comer nuvens não era para todos, o “autoxuto”- a minha tradução da palavra water shoot que ouvia aos crescidos – a desembocar desenfreado no lago, o homem fenómeno, anão ou gigante, excessivamente gordo ou magro, a cigana que lia a sina, uma figura de mulher desconjuntada à porta da tenda que se rebolava e me fascinava pelo insólito, meio real, meio fantástica onde nunca me foi permitido entrar.
Um dia este meu mundo mágico desapareceu do lugar, mudou-se para Entrecampos e a primeira vez que lá fui, apressei-me a guarda-lo dentro de mim, antes de o adulterar com cheiro a sardinhas e frango assado.
A minha fantasia pueril manteve-se até hoje guardada nas nuvens brancas, talvez de algodão doce, mas nunca de fumo e cheiro a gordura.

Ana Zanatti

feira popular
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Seguia a minha mãe, muito de perto

Entrei atenta, muito curiosa e algo apreensiva na casa dos espelhos. Seguia a minha mãe, muito de perto, dando passos cuidadosos e vendo-me reflectida ao infinito nas paredes espelhadas. O labirinto confundia-me, a minha única preocupação – não perder a minha mãe de vista. E lembro-me de me ter sentido algo enganada quando percebi que a saída não passava por uma solução do labirinto mas por encontrar uma saída secreta, uma porta nos espelhos que nos devolvia só mundo da feira.
Cresci perto de Lisboa, muito perto!
Mas suficientemente longe para não precisar de cá vir.
16 km ligados por auto-estrada.
Lisboa era o mundo do meu pai. De trabalho, de longas caminhadas, o mundo dele, que sentia tão longe do nosso.
Às vezes, muito só às vezes, íamos a Lisboa.
Um jantar num restaurante conhecido pelo meu pai. Ou uma ida ao cinema – tão rara.
E em Lisboa havia a feira popular.
Era fascinante quando acontecia passar perto da feira de noite. Só pelo que se adivinhava que por lá se passava.
Não sei agora ao certo se as luzes e o som são memórias reais ou mera fantasia. Sei que fazem parte do que recordo do imaginário infantil ligado à feira.
Isso e o medo da montanha russa.
Nunca cheguei a andar na montanha russa de lisboa. Cheguei a outras em Paris, em Orlando, nunca à de Lisboa.
Pensando bem terá sido assim que entrei pela primeira vez na feira popular. Um misto de fascínio e de medo, nesse mundo desejado mas tão desconhecido. As gentes, os cheiros, as luzes, os ruídos.
Tão curioso como as memórias se difundem. Na verdade não sei dizer o que é real ou transformado pelos meus afetos.
Mas a feira… A feira, para uma criança, era um lugar mágico. E como qualquer lugar mágico, cheio de tentações e elementos assustadores, não só pelas experiências que as atrações proporcionavam mas também pelas personagens que a habitavam.
A feira popular, é parte do imaginário de várias gerações, e fica um vazio, quando um mundo de tantas experiências, desaparece.

Inês Ataíde Gomes

feira popular
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Havia um Palácio da Loucura

A minha Feira Popular era ali onde hoje são os jardins da Gulbenkian. Exacto, onde foi feita a primeira emissão de televisão na nossa terra.
Que recordações me deixou? Semicerro os olhos e sou assaltado pelos cheiros e pelo barulho… A Sardinhas assadas ou às farturas e à pancada do Water Shut, um carrinho que percorria uns rails e que, em dado momento, entrava na água do lago, esparrinhando-a para os lados. Ou aos carroceis, sempre cheios de gente ávida desse circular labiríntico, montada em tigres, leões ou jacarés. Os mais ginasticados podiam mesmo acertar em cheio numa das bolas suspensas sobre as suas cabeças!
Havia, calculem, uma praça de toiros onde entravam umas vaquitas esqueléticas para gáudio de alguns incipientes pretendentes a diestros ou a forcados. Tinha sucesso essa Praça Monumental!
E havia os furos de chocolate que, por vezes, quando ainda não tinha saído a bola doirada e já só tinha poucos furos, valia a pena acabar… De vez em quando, no arremedo de Passeio Público que as diversas avenidas proporcionavam, via-se um circunspecto pai de família transportando uma generosa enfiada de panelas. Outra tômbola, cujos prémios eram essas mesmas panelas… Depois havia também uma multidão de barracas com as experiências mais variadas. Sentávamo-nos num ângulo formado por dois espelhos e era-nos proporcionada uma foto onde surgíamos uma meia dúzia de vezes, com vistas da esquerda, da direita, de frente ou de trás…
E havia um Palácio da Loucura com espelhos deformantes… Os magalas e as criaditas de servir riam até mais não poder ao verem-se feitos anões gordos ou esguias girafas nas suas superfícies polidas. Bem e o aterrador Comboio Fantasma provocando sustos tremendos por entre aterradores estrondos! E… “Oh Freguês, vai um tirinho?” com espingardas a que os pontos de mira haviam sido desviados para dificultar a pontaria e evitar o ter que dar prémios… Em dias muito especiais uma família ou um grupo de amigos ia jantar à feira… Na minha memória há a recordação de sardinhadas inigualáveis, acompanhadas de explêndida batata cozida e de fartas saladas de alface, tomate e pimentos…
Noite memorável, quando terminada a guerra, passou por Lisboa o contingente brasileiro que havia combatido no Norte de África e em Itália. A Feira foi invadida por uma imensa multidão que por todos os meios tentava acarinhar os surpreendidos soldados do País Irmão… Eram tempos em que o Atlântico era larguíssimo e do Brasil, pouco se conhecia…
Vínhamos tarde para casa, deixando para trás aquele espaço permanentemente por baixo da nuvem branca acinzentada das sardinhas e das farturas…

Carlos Nery

feira popular
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Mais uma corrida, mais uma corrida!

Não me lembro da primeira nem da última vez que lá fui. Nem me lembro duma história em especial. Lembro-me de ser a feira.
A feira corria por mim de cabelos desgrenhadas, os sons misturavam-se com as cores, pulsavam, cresciam e soltavam-se em gargalhadas, gritos para causar medo aos outros ou para o expulsar de mim, naquele escuro de surpresas fantasmas, em descidas vertiginosas onde o estômago se rasgava enquanto o meu corpo se antecipava ao precipício.
Ali, à frente dos espelhos, eu era todos aqueles corpos deformados. De tanto rir não sei se alguma vez respirava.
O silêncio e uma quietude cobarde paralisava-me em frente da mulher do poço da morte. Será que por ser criança me não deixavam entrar? Ou foi só mesmo puro medo?
Mais uma corrida, mais uma corrida! O fôlego não me faltava, saltava no carrinho colorido, bailava, esgueirava-me e sentia que aqueles choques eram flirts naquela pista sempre a rodar.
Ainda hoje trago em mim o espaço da feira e por isso a memória dos outros, que também sou eu, em rodopio de festa.

Minnie Freudenthal

Em nome da Feira Popular conheci Lisboa à noite

Quando vim estudar para Lisboa, fui viver para um lar onde não eram permitidas saídas à noite. Felizmente, as freiras eram muito sensíveis aos pedidos de autorização para ir à Feira Popular “comer sardinhas e andar nos carrosséis”…
Foi em nome da Feira Popular que conheci Lisboa, à noite!

Cristina Gonçalves

feira popular
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Panelas e panelões, cada um a vinte e cinco tostões

A primeira coisa que me vem sempre à memória quando penso na Feira Popular é ver-me, com 3 ou 4 anos, às cavalitas do meu pai., ainda quando a Feira era Palhavã. Era provavelmente a única maneira que os meus pais tinham de impedir que eu me perdesse no meio da multidão, extasiada pelo incessante movimento dos carrosséis e pelas centenas de luzes multicolores. Para mim, tinha a vantagem de poder observar tudo de cima, perspectiva que, dada a minha pequena estatura de criança, se revelava totalmente inédita.
Já mais tarde, em Entrecampos, lembro-me de ficar lambuzada até às orelhas com o algodão doce, ritual obrigatório de todas as idas à Feira Popular e ainda hoje tenho presente a voz estridente e esganiçada da mulher que vendia “panelas e panelões, cada um a vinte e cinco tostões” que, ampliada num microfone de terceira categoria, ecoava por toda a feira.
Lembro-me dos vários carrosséis, dos carrinhos de choque, e sobretudo do comboio fantasma do qual tinha um medo horroroso mas no qual, armada em forte, insistia sempre em ir. Agarrada à mão do meu irmão ou de algum dos meus primos mais velhos, fazia o trajecto todo de olhos fechados para não ver as carantonhas fantasmagóricas e assustadoras, facto que não me impedia de sentir arrepios quando sentia aquela espécie de teias de aranha a passarem-me pela cara.
Outra das memórias muito claras que tenho é do “Café dos Pretos”, com as suas sombrinhas de colmo e os bancos feitos de troncos de árvore, onde ninguém dispensava um bom café de Angola servido por mulheres negras com trajos coloridos.
O ambiente da Feira Popular era feito não só deste brou-ha-ha de vozes, carrosséis a rolar, música a tocar, luzes a acender e apagar, mas também de uma mistura de cheiros a frango assado e a farturas que nos impregnavam as narinas. Mas era sobretudo feito duma alegria descontraída e contagiante que englobava adultos e crianças, pessoas e famílias de todas as classes sociais e das condições económicas mais díspares. Porque a Feira fazia jus ao nome e era mesmo, mesmo popular.

Isabel Almasqué

feira popular
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Aquele inesquecível “electrocardiograma na feira”

Em Entre-Campos, num terreno hoje abandonado às ratazanas, aos pombos e às ervas daninhas, existiu, em tempos, um lugar de encontros improváveis, de luzes, cores, decibéis, vertigens e emoções, de onde, com alguma sorte, podíamos sair com um jogo de panelas ou com os bons presságios duma bruxa que adivinhava o futuro: era a Feira Popular de Lisboa. Não vale a pena tentar saber que interesses, insensibilidades, corrupções ou incompetências privaram a cidade daquilo que era uma fonte de magia para as crianças e um espaço de convívio e de descontração para os mais crescidos. Basta-nos só a consolação de poder juntar alguns cacos da memória e recordar os momentos felizes que por lá passámos.

As minhas primeiras recordações são muito antigas: ainda não tinha vinte anos, morava na província e tinha catrapiscado uma lisboeta. Era um pretexto para vir nas férias a Lisboa o que, para um provinciano como eu, era um deslumbramento: letreiros luminosos, centenas de automóveis, Chiado-abaixo-Chiado-acima e, claro, Feira Popular.

Muito mais tarde, já com família constituída, não me livrei de ir com as criancinhas à Feira. Era um ritual com as suas regras que começava com um jantar no “Miguel dos Frangos” a que se seguia uma peregrinação pelas várias secções que nos ofereciam uma panóplia de movimentos insólitos, violentos e inúteis que provocavam gritos de pânico e de alegria. Enquanto os microfones anunciavam “Outra corrida!”, a frase que eu mais ouvia era: “Ó pai, só mais uma vez!”.

Mas a Feira Popular era também o lugar de jantares periódicos com os velhos amigos do Jazz, à volta do comilão e impagável Luís Villas-Boas. Um dia aconteceu um facto inesperado. Ao chegar, já atrasado, vi dirigir-se a mim a gaguejar, o Chiotte, médico como eu, mas que era oftalmologista e só sabia de olhos: “Anda depressa… o Luís… o Villas… sentiu-se mal… esteve quase a desmaiar… está ali no posto de socorros!”. Observei-o: a respiração estava calma, a tensão normal, o pulso regular, as conjuntivas coradas. E comecei a pensar “não querem ver que este tipo teve um ligeiro badagaio (leia-se “crise vagal” na versão cavaquista) e ainda nos estraga o jantar? Só tenho de me certificar se tem ou não tem um enfarte”. Fui a correr à clínica que ficava perto, trouxe um electrocardiógrafo e, ali mesmo, à mistura com as luzes e o ruído ensurdecedor dos pregões, liguei o Luís ao aparelho. Perante o pasmo dos amigos presentes e de um enfermeiro de serviço que me olhava de soslaio, obtive uma tira de papel com o registo da “electricidade” cardíaca do fundador do jazz português — vulgo electrocardiograma – que, felizmente, estava normalíssimo. “Anda Luís, levanta-te! Está tudo bem! Vamos mas é jantar”. E assim foi. O Villas comeu 24 sardinhas bem contadas e uma enorme meloa que descascou como quem descasca uma maçã. E, durante muito tempo, era sempre com uma enorme risada que recordávamos aquele inesquecível “electrocardiograma na feira”.

Muitos anos depois, quando a Feira já estava desactivada e apenas tinha restaurantes a funcionar, era lá que periodicamente almoçava com um grupo de amigas de longa data. Entrávamos então num recinto praticamente deserto, desarrumado e silencioso, onde algumas girafas, dragões e bruxas, há muito tempo imóveis e sem vida, pareciam vigiar-nos com os seus olhos parados e inexpressivos. Um dia, depois de uma refeição bem regada decidimos que as coisas não podiam ficar assim: havia que reanimar a Feira nem que fosse por breves momentos. Procurámos o encarregado da cabine sonora do palco das panelas e convencemo-lo a pôr música. Os velhos altifalantes cónicos, há muito silenciosos, começaram a debitar tangos, passe-dobles e boleros em altos berros e nós subimos ao palco e ensaiámos uns números de ballet. As poucas pessoas que por ali andavam, olhavam-nos e pareciam pensar: “Coitados, devem-se ter passado”. Mas nós divertimo-nos imenso.
Julgo que foi esta a última vez que fui à Feira Popular.

António José de Barros Veloso

feira popular
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Noites quentes, noites felizes, descontraídas, nos Verões lisboetas de outrora

A primeira vez que fui à Feira Popular, estava a feira situada no espaço que é actualmente ocupado pela Fundação Gulbenkian. Não havia barraquinhas a vender farturas, o que mais havia eram divertimentos, como o escorrega que saía pela água do lago, o chicote, e outros no género. Muito barulho e muita animação.
Anos mais tarde, já eu vivia em Lisboa, abriu a Feira ali na Av. 5 de Outubro, com restaurantes de frango no churrasco, sardinhas assadas, farturas – fazia-se bicha pois eram deliciosas e não havia ASAE a inspecionar a higiene ou a dimensão das frigideiras- tiro ao alvo, barraquinhas de ginjas, carros de choque, de que eu não era apreciadora, comboio fantasma, divertido de tão ingénuo, e o célebre poço da morte, com jovens que seriam artistas de circo e cuja apresentação dava vertigens.
Eram belos passeios de Verão, e pretextos para jantaradas de amigos.
Recordo em especial uma noite em que íamos com os meus pais, eles à frente eu e o meu marido atrás, e um senhor de ar respeitável parou a cumprimentar o meu pai.
Perguntei quem era, e o meu pai disse: este foi um dos PIDES que me prendeu muitas vezes em Coimbra, no meu tempo de estudante. Está retirado.
A conversa ficou por ali…não era o momento de evocar o passado mas sim de ir às farturas…
Uma outra memória é puramente jazzística, de alguns anos depois: o grupo do Tózé Veloso, o médico de todos os músicos, fez uma reanimação ali mesmo, do Villasboas, o pai de todas as produções que vinham a Portugal. Pela sua mão se via uma vez por ano, pelo menos, no Cascais Jazz, o que havia de melhor do mundo do Jazz. Caiu inanimado e o amigo médico tratou da sua recuperação.
Foi um grande sururu, enquanto nós outros, à mesa, esperávamos para jantar.
O Villas recuperou e veio sentar-se, animadíssimo: de entrada pediu uma dúzia de sardinhas e a seguir já nem me lembro de tão estarrecida que fiquei com o seu apetite.
Já não demos nenhum passeio a mais pela feira.
Dali seguimos todos para o Hot Clube, a digestão foi feita a ouvir música, no meu caso, a tocar furiosamente no caso dos músicos que tinham jantado na Feira.
Noites quentes, noites felizes, descontraídas, nos Verões lisboetas de outrora.

Yvette Centeno

feira popular
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Vamos a uma voltinha? 

Pequena com a minha avó e uma empregada velha – que refilou, mas exigiu que me acompanhasse num barco – havia barco(!?) a remos. A mulher tinha um pavor da água porque não sabia nadar, mas lá foi – contrariada- mas a menina queria!!!!
Com amigos – cheiro a sardinhas que impregnavam os corpos sexy dos 15 anos !?!. Mas era barato e jantávamos.
Lembro-me do comboio fantasma – que era suposto fazer medo! Era básico: passava-se pela “selva de gorilas e feras” sentíamos aranhas ” na cara e lembro-me que a viagem acabava com todos os passageiros a gritar à boca da saída – o que atraía e seduzia os incautos- porque “uma mão” apertava uma perna – o que não estávamos à espera! Alguém pagou para o fazer!
Nos carrinhos de choque uma voz enrolada anunciava: vamos a uma voltinha? As crianças não pagam mas também não andam…
Outra atracção – os espelhos deformados que nos faziam tanto anões, quanto gigantes no corpo, na cara, no volume, na altura. Eu gostava.
Também pagávamos para entrar na maga. Entrávamos numa tenda e lá dentro uma senhora com bola de cristal. Metia medo, mas trazíamos um papeleco com a futurologia e peso!
Por fim e já mãe, fui à casa do terror. A gritaria era muita e o pânico também, porque havia actores que saiam da cama com cara de mortos; abriam de repente as grades da cadeia em que os víamos e onde berravam possessos… E por fim apareciam-nos com uma serra eléctrica a funcionar… Perdi o instinto maternal, passei por cima diz meus filhos à procura da saída e… Jurei para nunca mais!

Vera Castelbranco

A montanha russa com looping era o ponto alto

Lembro-me de ir com o meu pai no dia de 1 de Junho, dia da criança. Era uma festa e uma excitação.Também com os meus amigos do liceu, nos dias que acabavam as férias. A montanha russa com looping era o ponto alto. Atenção que vamos ter uma nova feira popular! A tradição vai voltar a ser o que era, espero!

Mafalda Duarte Silva

feira popular
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Sardinhas e leite

A Feira de forma deglutida entrou-me ia eu nos trinta e tal. Era o dia extra para as crianças, a folga permitida onde a vertigem era servida em forma de aviões, cadeiras rolantes, medo escondido no escuro de uma casa misteriosa, gazelas e cavalos e girafas alucinados a rodar ao som ultradecibelante de uma música nossa ,de graça rápida e mensagem brejeira.
Percorria aquele espaço gigante afivelando na memória gentes díspares de gestos berrantes, falas coloridas, afectos abertos e desafectos expressos. Mas o que me ficou de bizarro até hoje foi a expressão daquele homem, empregado no restaurante onde aconteceu o jantar numa daquelas idas ao calor de uma feira chamada popular.
Por motivos que só a saúde por vezes conhece, era eu, então, uma consumidora compulsiva de leite, coisa estranha dada a dificuldade que fora alimentarem-me em idade precoce com uma dieta semelhante.
Sentada, menu decidido no burburinho envolvente, então são sardinhas não é?
Sim, sim respondi olhe e para beber um grande copo de leite, está bem!?
Sardinhas e leite, o senhor não queria acreditar mas no meio de tão desvairadas gentes que percorriam as mesas, olhou-me e recuando continuava a olhar-me como se a feira tivesse adquirido mais uma diversão.

Luisa Folques

A casa dos espelhos

Verão, noite quente, família toda junta, o evento esperava por nós todos os anos. Cada criança recebia uma certa quantia em dinheiro. Ponto de encontro e horas combinadas (o telemóvel ainda não tinha chegado), finalmente a ordem de soltura. A exploração era sempre a mesma. Carrosseis, tudo o andasse à volta, furos e tirinhos, algodão doce, corridas e gargalhadas. Farturas e farturas. A casa assombrada metia-me imenso medo. Não gostava. Não entrava. Voltávamos a correr vivendo e dançando a liberdade de decisão e de escolha sem opinião. Por fim, e este era sempre o último local para onde íamos, entrávamos no local mágico que esperava com tanta ansiedade. A casa dos espelhos! Gorda, magra, alta, baixa, as imagens eram o meu fascínio. Não me cansava de correr para um e para outro, para a frente, para trás. De lado, de frente, de costas, tudo valia em frente daquela magia. Eu adorava esse acabar, esse fim, ao mesmo tempo que ouvia chamar. Vamos embora. Vamos embora. Já chega. Eu não queria sair. Não queria. Adormecida no carro mas dentro dos espelhos, sonhava com o ano seguinte. Que tardava em chegar.

Benedita Vasconcellos

feira popular
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Lembro-me

Lembro-me do Poço da Morte, uma esfera de gradeado com um tipo magrinho, andrajoso e sujo de óleo numa motoca ferrujenta, às voltas lá dentro. Um cheiro a óleo de linhaça queimado pairava no ar.
Lembro-me do Túnel do Medo que percorríamos de carrinho nuns carris. Lá dentro bruxas e esqueletos surgiam arrepiantes ao dobrar das curvas. Umas franjas no escuro roçavam-nos a cabeça. Com atenção, era possível num esforço conjugado agarrarmos os fios e puxar, fazendo cair o efeito especial e interrompendo o andar do comboiozito. Os gritos de susto do resto do pessoal eram a recompensa dos delinquentes, que só tinham que se escapulir rápido para evitar a inevitável fúria do dono do negócio.
Lembro-me dumas senhoras muito pintadas, bem vestidas e de carteira, imóveis nas esquinas, que os nossos pais evitavam olhar.
Lembro-me duma gordinha em bikini, com uma gibóia enrolada ao pescoço. A cobra decidiu aliviar-se durante o acto, cobrindo-a de excremento e obrigando-a a terminar o espectáculo numa corrida para trás da cortina.
Lembro-me das cadeirinhas voadoras. Agarrando a cadeira da frente era possível empurrar com as nossas pernas a vítima, obrigando-a a descrever uma curva orbitária por fora, resultando em interessantes choques com o resto do pessoal.
Lembro-me do cheiro a farturas misturado ao da sardinha assada. A televisão ligada com o grupo musical do Segundo Galarza, o Carlos Menezes à guitarra e que muitos anos mais tarde me ensinaria o Days of Wine and Roses do Henry Mancini.
Lembro-me dos “soldados a namorar as sopeiras”. E à saída da feira, um polícia sinaleiro no Saldanha comandava o trânsito com movimentos ondulantes dos braços, numa coreografia belíssima que atraia a atenção dos basbaques.
Lembro- me…

José Luis Vaz Carneiro

feira popular
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O Luna Park

A minha Feira Popular foi em Lourenço Marques quando, em certa altura do ano, montavam o Luna Park…um brinquedo pequenino ao lado dos atuais. Tinha o chicote, que era fixe mas quase inofensivo, a montanha russa (porquê russa???) e a estrela em que íamos feitos de parvos a olhar cá para baixo. Ah… e tinha o polvo, que eu não gramava.
Uma vez em Madrid, andei nos aviões de uma feira e jurei para nunca mais… achei mesmo que ia morrer de indisposição. Uma estupidez! Conclusão: deixei de gramar essas sensações radicais. Será prenúncio de old age?

João Nunes da Silva

A primeira cerveja que bebi

Lembro-me da primeira cerveja que bebi na minha vida, e foram logo duas, e a coisa não correu bem …
O comboio fantasma, ao lado de amigas que iam apavoradas. Os tirinhos e a respetiva ginginha. Os jantares de grupo comemorando qualquer coisa!

Miguel Freudenthal

Era do poço da morte que eu mais gostava

esgueirava-me por entre as pernas compridas do meu pai. apertava com força o pano das calças para não cair lá dentro, fundo. os meus olhos chegavam ligeiramente acima do parapeito e eu vibrava de cada vez que o motor roncava a cada elevação. o cheiro a óleo e gasolina no ar inebriavam-me. era do poço da morte que eu mais gostava .

Rita Roquette de Vasconcellos

O meu irmão Rui

Eu, uma vez, convidei o meu irmão Rui* para jantar uma sardinhada na Feira, mas no íntimo, no íntimo, queria era gozar com uma coisa. Ao fim de 180 escudos, os tais de boa memória, o homem da barraquinha dos tiros nas serpentinas correu connosco da barraca, depois de o meu irmão ter ganho 3 ursos, 1 panda e 1 gorila, em formato gigante, que o Campeão oferecia às moças que passavam. Ahahahahaha….

*O Rui era um dos caçadores profissionais mais célebres de Moçambique

Nuno Quadros

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O Rei das Panelas

As minhas recordações sobre a feira popular são sobretudo de infância. Depois de crescida poucas vezes lá voltei e nunca fui para além da zona dos restaurantes. Por isso mesmo, tendem, por vezes, a confundir-se imagens mais antigas, da feira onde viriam a ser os jardins da Gulbenkian, com as de Entrecampos. Da primeira recordo sobretudo a televisão, mostrada pela primeira vez em Portugal nesse local. Vejo, de forma pouco nítida, um grande móvel de madeira que as pessoas contornavam para confirmar por trás se não estava mesmo ninguém lá dentro. Lembro-me também de uma montanha russa que atravessava um lago. Na minha memória vejo a água a levantar-se de lado o que hoje me parece completamente improvável.
Da Feira Popular de Entrecampos recordo o Café dos Pretos de que já falei no meu blogue. Outra memória vincada é a do Rei das Panelas. Era um pavilhão alongado dividido por um balcão onde as pessoas se apinhavam do lado exterior. Ao fundo, em escada, estavam as panelas colocadas em pirâmide com os tachos e panelas maiores em baixo, com as tampas ao contrário e o mais pequeno em cima com a tampa colocada tudo atado com um cordel que passava pelas asas. Sobre o balcão, em pé, vários homens vendiam as séries de senhas de cores variadas, enquanto outros rodavam uma tombola para a extracção dos prémios.
Mas também a imagem da Casa dos Espelhos, da máquina da Cigana da Sina e o Comboio Fantasma com o som assustador do abrir repentino das portas, ficaram a fazer parte das minhas recordações infantis.

Ana Marques Pereira

Era uma festa!

Feira Popular era sinónimo de Férias Grandes. Na noite do dia 9 de Junho era garantido que estávamos lá caídos. Ainda há dias falávamos sobre isto, os meus filhos e eu, e todos tínhamos a mesma ideia, a mesma memória, apesar da diferença de idades.
Era uma festa!
De quando era pequena, lembro-me de comermos sempre ‘miaus’ com o pai, umas febras muito tenrinhas dentro de um pão; do carrossel dos animais, que ondulava e onde nos esticávamos para bater nas bolas que estavam penduradas, por isso todos queríamos ir na girafa; dos furos dos chocolates da Regina, sempre na esperança de que me saísse a bola prateada ou a dourada, mas todos os chocolates eram ótimos; do comboio fantasma com as teias de aranha a tocarem na cara, que me arrepiavam toda; dos carrinhos de choques de onde saía com nódoas negras.
Já adulta, o que mais me divertia era a sala dos espelhos. Ficava sempre com dores de barriga de tanto rir. Nougats, algodão doce e tirar fotografias naquelas máquinas onde nos enfiávamos 3 e 4 ao molho para acabar a noite.

Joana Freudenthal

Um homem enorme ao lado de um anão

Tenho boas recordações da feira popular. Os carroceis, o comboio fantasma,a montanha russa,as filas para cumprimentar um homem enorme (para mim era um gigante) ao lado de um anão (situação um pouco surreal), o algodão doce,as pipocas, as farturas, e toda a envolvência incluindo as luzes,os sons e os cheiros vindos de diferentes lugares. Foram momentos bem passados que deixam saudade!!

Cristina Rebocho Machado

feira popular
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Eu lembro-me só de três coisas

A primeira é uma imagem vaga de ir à Feira no tempo em que ainda estava no actual Jardim da Gulbenkian. Deveria ter 4, 5, 6 anos? Estava com o meu pai e o tio Ramiro. Havia uma montanha russa em que no final os carrinhos passavam por um tanque de água levantando ondas imensas, adorei claro, acho que se chamava Water Shoot…
A segunda era um ritual familiar antes de irmos viver para Moçambique. Um dos pacientes do meu pai era o dono do Artur das Farturas. Uma vez por ano toda a família ia comer farturas depois do jantar (como era possível?). Tínhamos direito a red carpet treatment e depois havia uma dose de carrinhos de choque bastante apreciável. Muito bom…
A terceira é um pouco mais assustadora. Estávamos de férias de Verão vindos de Lourenço Marques sem os meus pais. Tínhamos adoptado o João Frazão que vivia lá na Rodrigo da Fonseca connosco por uns dias. Fomos jantar à Feira e pela primeira vez na vida acho tive uma enxaqueca forte. Já era aluno de Medicina, e as parestesias no braço esquerdo e incapacidade de articular palavras foram um terror. Achei que estava a ter um AVC e que ia ficar assim para sempre. Lá fui comendo as sardinhas não disse palavra e nem o João nem o meu irmão Rui deram por nada. Fui dormir acabrunhado mas no dia seguinte estava bom. Enxaqueca? Muitos anos mais tarde a velejar nas Caraíbas aprendi com o Mike o nosso skipper que havia uma coisa que dá nos peixes e que causa sintomas neurológicos passageiros. Chama-se ciguatera e tem que ver com o plancton que os peixes comem…Ciguatera na Feira???

Manuel Rosário

Eu só conheci bem o Luna Park de Moçambique

Havia uns carrinhos de choque e eu adorava chocar, propositadamente, de frente contra os condutores mais distraídos, só para ver os tripulantes aos saltos no banco do carro. Era tão mauzinho…
Lembro-me também das barracas onde se davam tiros nuns patos que passavam num tapete rolante e nos quais eu nunca acertava, o que me provocava uma grande frustração. Havia também uns palhaços que abanavam lentamente a cabeça e na boca dos quais tínhamos que acertar com umas bolas, mas o resultado era o mesmo. Mais tarde, indo já com uma namorada, nunca jogava, para arrelia da própria, pois sabia que não ia ganhar o boneco de peluche que tanto queria.
No entanto, por razões óbvias, gostava de andar com a namorada no comboio fantasma. Como era escuro, ela assustava-se e agarrava-se a mim. O problema era a tentativa de esconder essa reacção quando o comboio chegava ao fim da linha.
Uma coisa inédita aconteceu uma vez com o jogo do martelo e da campainha que eu nunca jogava, com medo da humilhação. Uma vez, provavelmente bem bebido, decidi tentar e logo à segunda martelada…ping! a campainha tocou.
Lembro-me de ver um pavão bêbado e malhado no Luna Park.

José de Sousa

feira popular
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As rifas ou tiro ao alvo

Tantas e tão boas memórias que tenho da Feira Popular.
Talvez fosse dos programas preferidos a ir Sábado à noite com os amigos. Entre a montanha russa, o comboio fantasma e as rifas ou tiro ao alvo, onde nos saía uma garrafa de licor, que achávamos o máximo.
Na minha geração, duvido que haja alguém que não tenha a Feira Popular no coração.

Sofia Freudenthal

Um programa de verão

As memórias perdem a nitidez que caracteriza o presente, mas fazem perdurar as emoções e os sentimentos mais marcantes de acontecimentos passados.
Demorei algum tempo a avivar as recordações das idas à Feira Popular: era um espaço esquecido que já nem existência física tem na cidade de Lisboa. Ficava situada num recinto amplo, com entrada pela avenida da República, do lado esquerdo, antes da rotunda. Acho que havia mais uma ou duas entradas, todas elas com umas luzinhas amarelas – muito arcaicas para os tempos actuais – a tremeluzir.
Ir à Feira Popular era um programa de verão, em família, ao final da tarde. Entre o jantar de frango no churrasco e as várias diversões, passavam-se umas horas com sabor a aventura e muito divertidas. Eu preferia os carrinhos de choque. Sentia-me destemida quando entrava num, por isso, só andava comigo quem me deixasse tomar o comando do veículo. Andava pela pista a conduzir o meu carrinho em choques sucessivos porque essa era a parte mais divertida! E se houvesse irmãos ou amigos também em acção, aos choques juntavam-se os gritos! Também gostava dos carrocéis mais tradicionais que andavam ao som de uma qualquer cantiga popular daquela altura. E lembro-me do sabor do algodão doce a derreter na boca. Mas nunca me atrevi a entrar no comboio fantasma: as surpresas e os sustos com caveiras, esqueletos, teias de aranha e o que mais houvesse não me seduziam. Haveria outras coisas, mas perderam-se com o tempo.
No entanto, recordo ainda uma ida em especial – deverá ter sido a última – no meu primeiro ano lectivo na faculdade. Naquele ano, tinha tido um professor de Inglês, native speaker, diferente de todos os outros professores que tive nesses anos. Já não era novo (para os meus padrões naquela altura), tinha cabelos brancos, e as aulas eram outro mundo. E, no final do ano, a turma combinou este encontro na Feira Popular com o professor. A minha única recordação dessa noite resume-se a histórias divertidas contadas ao jantar com gargalhadas à solta e a umas voltas naquelas cadeiras de ferro presas por umas correntes que giravam todas em círculo. Uma sensação fantástica! Lembro-me ainda vagamente de umas luzes coloridas a brilharem garridamente por ali. E de estar a sorrir, sentindo as pernas a baloiçar levadas no ar pelo movimento do engenho que fazia as cadeiras rodar…

Cristina Escaja

feira popular
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Fotos de Isabel Almasqué, Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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