De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Moçambique 2016

Fogos

No rescaldo dos dois dias de viagem, hoje dorme-se no terraço. Durmo eu, dorme o Carlos, dormem a Margarida e o Miguel, estiveram a pé até tarde à nossa espera, dorme a Victória. A embalar-nos, os sons africanos. Os pássaros, a música e a alegria da aldeia.
A cinza pousou em todos nós. Estamos na época dos fogos. São ateados para limpar as terras que vão receber as sementes e para os circundar com redes para apanhar os animais. É caril. Caril é o nome que se dá a tudo o que acompanha a xima. Carne, peixe, legumes. A xima são as papas de milho, alimento que comem todos os dias a todas as refeições. Quase sempre xima só. E os fogos que não foram ateados? Ninguém se preocupa com eles. E as casas? Se arderem, paciência. Voltam a pôr capim no telhado. Não há nada dentro das mesmas de qualquer maneira.

Isaura

Estes dias têm sido de tranquilidade. Somos 8 cá em casa. Nós os quatro, a Victória e a ajuda cá de casa, o Raimundo, o Paulo e a Isaura.
A Victória não chora. Essa minina não tem de dormir sozinha. Tem de dormir ao colo da mãe. Então, quando um pouco mais irrequieta, logo a Isaura a sossega. Embala-a passeando como uma sombra silenciosa, adormecendo-a na calma e no sossego cá de casa.

Pudim Flan

A pobreza total desta terra e a forma como as pessoas lidam com ela surpreende-me todos os dias. Não pela negativa, mas sim pela capacidade que têm para aproveitar tudo, não deitando nada fora. Por necessidade. Porque não têm nada mesmo. Hoje fiz Pudim Flan para o jantar. Como sabem, primeiro tenho de fazer o caramelo numa panela para depois o deitar na forma. Claro que fica sempre um resto de açúcar no fundo que, lá em casa, é diluído na água de lavar. Diz o Raimundo à Isaura: Depois colocas água na panela e depois ficas com esta água com açúcar. É muito bom…
Fico sempre a pensar na nossa vida aí em Lisboa…

moçambique 2016
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A morte

Sim eles são católicos, sim eles são muçulmanos, mas acima de tudo seguem as crenças tradicionais. A morte é um acontecimento vulgar, mas o ritual fúnebre e o respeito pelos mortos é de extrema importância. Quando alguém morre, toda a aldeia, todos os amigos e toda a família têm de aparecer, comer e beber. Se não vais, depois não vão ao teu. E não podes partir sozinho. Desacompanhado. Além disso, se não vais, podes ser acusado de teres sido tu a fazer a “xiteca” que causou a morte. Xiteca é feitiço. Os cemitérios e as campas são locais de culto. E na estrada, se passas pelo lugar onde está a campa de alguém que foi importante, abrandas o carro, desligas a música e passas devagarinho.

O milho ou a falta dele

Aqui no Niassa, a população alimenta-se à base de milho. Quase sempre milho só. Este ano a produção de milho foi fraca. Vai faltar milho. O governo não consegue armazenar o suficiente para distribuir mais tarde. Pediu, a quem pudesse, que comprasse e guardasse para que os países vizinhos o não fizessem. Neste momento compra-se o milho a 13 meticais. Em Novembro ou Dezembro este vai ser vendido a 25 ou a 30. Uns vão enriquecer. Os outros passam fome.

Algodão

Hoje fui visitar uma fábrica de processamento de algodão. Recebem-se as sacas cheias da planta, os trabalhadores desensacam e retiram o lixo que vem juntamente. O algodão é aspirado para dentro dos pentes, grandes máquinas que separam a rama das sementes, que voltam a ser distribuídas pelos agricultores. O algodão penteado é embalado e vendido. Processo simples. Grandes máquinas. Tudo limpo. Se não fosse a mão de obra numerosa espalhada por todo o recinto, até parecia que estávamos numa fábrica localizada num país dito civilizado. A surpresa veio no fim e foi grande. Os fardos são embalados em plástico e fechados com… um ferro de engomar. Daqueles iguais aos que usamos em casa. Genial! Fica muito mais barato que fita adesiva!

moçambique 2016
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A Feiticeira

Saudásio está um pouco normal.
Ando com um pouco de gripe nas manhãs.
Dói a coluna, dói a perna, dói o estômago, tem muita dor de cabeça.
Hoje fui trabalhar com uma feiticeira.
Tem um consultório, uma farmácia onde se fazem as mezinhas e uma horta onde crescem algumas das plantas utilizadas. Tudo limpíssimo e muito organizado.
Impressas numas folhas A4 plastificadas estão as imagens de todos os órgãos, fotografias de lâminas das análises de sangue feitas a inúmeras doenças, como p. ex. a tuberculose, febre tifóide e todos os tipos de malária. Gastrite, ulceras, inúmeros parasitas, tumores, dentes, artroses, desenhos de gravidez em várias fases de desenvolvimento, quistos, sangue, herpes, erupções. São vários os livros, muitas folhas soltas.
O doente entra, diz o que sente. Separa telemóvel, separa chaves, põe a mão em cima das primeiras imagens, pōe dedo em cima de outras. Os livros andam para a frente e para trás. Abre, fecha, a mão acompanha. E já está. 5 minutos. Sai a receita que eu escrevo num pedaço de papel: Navata, artemisia, sabugueiro, muruiri, sifonha, gervão, pata de vaca, tutúlia ou namoaça. E há muitas mais. O doente segue para a farmácia onde lhe fazem a mistura dos chás, dos xaropes ou das pomadas. Paga quem pode. A argila tem de se ir buscar ao rio.
O próximo já entrou.
Hoje, só de manhã, foram 47 consultas. Vi de tudo! Ouvi de tudo.
Estou um pouco milhor sim… Está a reduzir-se a quantidade das dores. Obrigado mãmã.

Fui à missa em Cuamba

Estão os ricos e os pobres. Os ricos à frente, os pobres atrás. Mas todos muito bem vestidos, camisas engomadas, calças vincadas, toucados armados, os brincos e os colares a brilhar.
Santo Agostinho, antes de ser santo, fazia coisas feias bem mesmo, diz o padre. Falou bem. Sobre os senhores importantes a fazerem-se ainda de mais importantes, não se lembrando dos necessitados.
Na hora do ofertório foram ao altar depositar a sua oferenda.
Todos cantam, todos batem palmas.
No fim da missa, a família que celebrava os seus mortos volta a caminhar em procissão até ao altar, as crianças à frente. Levam massa, arroz, ovos, óleo, sumos, coca-colas e xima cozinhada. Não vimos a galinha viva, mas ouvimo-la na sacristia. Deslocam-se a dançar cantando ao Senhor.
Lá fora, do outro lado da estrada, a kizomba tocava a um volume ensurdecedor. Mas os cânticos na igreja conseguiam cantar mais alto.

Kukula

Kulula quer dizer crescer.
Kukula nasceu para tentar acabar com o trabalho infantil nas machambas.
Machambas são os campos de cultivo.
Muitas vezes as famílias não têm nada para comer. Alimentar as crianças nas escolas foi a forma que se encontrou para as fazer sair dos campos. E foi assim que Kukula nasceu. Pensado, criado e supervisionado pela Margarida, financiado pela empresa e implementado pela ONG APOIAR.
Estudaram-se os dados, pensaram, desenharam e construíram-se três cozinhas em três escolas diferentes. Compram-se os alimentos, cozinham-se as refeições, lavam-se as mãos, distribui-se o almoço. Tudo muito bem organizado. Já tomaram o mata-bicho também.
Resultados só numa escola:
10 crianças na escola em novembro 2014
300 crianças em novembro 2016
Ontem fui visitar as cozinhas.
Os cozinheiros a cozinhar, as ajudantes a ajudar, as crianças a comer.
Valeram bem a pena as cinco horas de picada. Cada salto, cada pulo, cada buraco na estrada e a paisagem sempre igual, igual, igual a passar. Castanha. Queimada.
Orgulho de mãe.

moçambique 2016

Eclipse

Não há gente nas ruas, as crianças não foram à escola, não apareceu ninguém nas consultas. Comentam atrás dum sorriso envergonhado, tenho medo sinhora, vem aí o eclipse. Ficou escuro, ficou frio. A população escondeu-se em casa. Logo logo já passa e a cidade renascerá. E os sorrisos abertos também.

A escola em Mandimba

A escola de Nacalongo tem o Senhor Director, tem o Adjunto do Senhor Director, e tem três salas. Orgulhoso o Senhor Director foi mostrar-mas. Tem duas salas já preparadas e uma sala que ainda… Fechadas a cadeado e arames, as duas primeiras salas, as ditas já preparadas, tinham… Nada. O chão de cimento era a novidade. Estão fechadas para as crianças não fazerem as necessidades ali dentro mesmo. As secretárias hão-de chegar ainda esta semana, diz o Senhor Director.
A terceira sala, a que ainda não estava preparada, nem chão tinha.
Fui ver também a sala da direcção. Um cubículo de 1×1 sem janela com um computador, caixas, cadeiras empilhadas, prateleiras vazias, garrafas, e mais tudo o resto que possa imaginar. Ou não. É, diz o Senhor Director. Falta aqui o material didático que há-de chegar. E o ano escolar acaba já em novembro.
E os professores? Estão em reunião. Onde é a reunião? Foi aqui, mas já acabou.
As crianças, essas, brincam na rua à espera da refeição. Eram poucas. É dia de vacinas e sempre neste dia não aparecem, diz o Senhor Director. Têm muito medo e os pais também têm muito medo.

Não há água

Porque não fazem uma horta maior?
Porque não temos água.
Mas o poço está mesmo aqui ao lado.
A comunidade não deixa tirar.
Há muito poucos furos de água para muita população. As mulheres vão buscar água para cozinhar e para a higiene. Fazem filas enormes e demoram horas até conseguir uma lata. à volta do poço o local de convívio, o local de conversa. Toda a manhã. Ou toda a tarde. Muitas vezes, se vêm tarde, já nem conseguem um balde sequer. Por isso a gestão da água é feita pelo Régulo, o chefe da comunidade. Estabelece quem e a que horas pode tirar. Tranca o poço, abre-o conforme o caudal. E por isso a horta não pode crescer. Não há água. Difícil de entender não é?

Ritos de iniciação

Almoço cá fora, cânticos e musica lá longe bem perto. Fomos ver o que era. Por todo o lado as festas do final dos ritos de iniciação.
Não me vou alongar sobre este assunto, até porque não sei nada sobre ele. É um assunto tabu.
Aos rapazes em idade pré-puberdade e durante uma a três semanas, são-lhe ensinadas as suas funções sociais e a importância da virilidade. Muitas vezes são circuncisados em condições de higiene deploráveis.
Às raparigas, logo após o seu primeiro período, e também durante o mesmo espaço de tempo, é-lhes ensinado o que delas se espera na sociedade. Mulher trabalhadora, submissa, obediente. Ensina-se também tudo o que se espera de uma mulher capaz de satisfazer sexualmente o seu parceiro. Tudo. Muitas vezes são mesmo violadas. Têm 12 anos!
Durante as celebrações do fim dos ritos, homens e mulheres passeiam-se nas ruas separadamente. Cantam, dançam, gritam. Alegria extrovertida nos homens. As iniciadas, essas, vão totalmente tapadas. Ainda bem que não lhe conseguimos ver as caras.
Hoje tenho um nó na garganta.

Benedita Vasconcellos
Abril 2016

MOÇAMBIQUE 2016
moçambique 2016

Fotos de Benedita Valconcellos

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

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