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O futuro nasce do passado

Memórias de Coimbra

São muitas as minhas boas memórias de Coimbra.
Cheguei com 13 anos, entrei para o terceiro ano do Liceu, e quando acabei o liceu já tinha, ao fundar com outros amigos o CITAC, proclamado a minha paixão pelo teatro, moderno, desde logo, mas sem ignorar os clássicos. O teatro moderno trazia-nos aquela possibilidade de contestação, de estilos e conteúdos, e um jovem que não sente o prazer de contestar nasceu velho, não é jovem, não merece esse nome. Mas no teatro clássico encontrávamos os grandes modelos universais de pensamento que dão forma, ainda hoje, às nossa estruturas civilizacionais.
Não me esqueço da leitura da Antígona, nas aulas da minha Mestra e amiga Helena da Rocha Pereira: devo-lhe tudo o que sei da literatura e da cultura Clássica, devo-lhe esse amor que ela despertou numa jovem caloira que, citando agora um poema de Sophia de Mello Breyener “ia e vinha / e a cada coisa perguntava/ que nome tinha”.
Eu era assim, jovem e cheia de curiosidade.
Tive a sorte imensa de encontrar na Academia de Coimbra um ambiente vivo, onde se discutia, se discordava, se criava em conjunto, num dos muitos espaços existentes. Havia espaço, podia é nem sempre haver tempo.
Na criação do CITAC recordo as aulas que António Pedro nos vinha dar ao fim de semana, recordo a primeira peça de envergadura, O Dia Seguinte, de Luís Francisco Rebelo e tantas outras coisas que foram acontecendo.
Devo a minha formação a Coimbra e aos seus Mestres: Paulo Quintela, que me fez descobrir Shakespeare, Goethe, Rilke. Aprendi com as suas traduções o gosto da tradução. Por indicação sua traduzi Brecht para a Portugália Editora, que já não existe, mas foi pioneira na renovação do gosto literário português naqueles anos sessenta…É verdade, os anos sessenta foram pioneiros em muitíssimas áreas. Arriscava-se: os livros eram apreendidos, mas até o serem, ou mesmo depois, eram lidos com entusiasmo. Aprendi, com Miguel Torga, a sobriedade rigorosa do trabalho da escrita dramática..Fez-se no Citac uma das suas peças, O MAR, onde Manuel Alegre brilhou, com a sua voz.
Recordo um momento especial de um dos ensaios, em que Torga veio trazendo pela mão a sua filhinha marota, de três ou quatro anos. Quando olhava para ela o seu rosto transformava-se, suavizado, e os olhos enchiam-se de luz. A luz de Clara, hoje nossa ilustre colega e amiga.
Eu entretanto vim viver para Lisboa, onde acabei o curso e onde me viria a doutorar, na Universidade Nova, e a continuar a minha carreira académica.
Também no meu percurso houve mão protectora de Coimbra: a mão do Professor Ferrer Correia, que pela Fundação Gulbenkian me concedeu bolsas de estudo que me permitiram acabar a licenciatura e depois o doutoramento.
Devo muito, mais uma vez, e aproveito para o dizer em voz alta, e com muita gratidão, à Professora Helena da Rocha Pereira. Tive sempre o seu conselho amigo, e tive sempre o seu exemplo magnífico: a dedicação inteira ao labor académico sem que tal impedisse o olhar fraterno sobre os jovens que precisassem dela.
A minha juventude em Coimbra traz-me muitas recordações: as serenatas que os estudantes faziam às meninas do lar de freiras diante da minha casa, na Av. Dias da Silva; a seguir os estudantes roubavam as galinhas dos nossos quintais e fugiam para grandes patuscadas; as festas da Queima, com cortejos temáticos, eu fiz de Margarida num carro sobre o Fausto de Goethe, quando ainda estava longe de pensar que a minha tese seria sobre o Fausto…enfim. Nesse tempo Luis Góis era o cantor, António Portugal o músico das noites emocionantes, na escadaria da Sé.
Não fui uma aluna brilhante nem, muito menos, genial.Tive colegas e amigos brilhantes e geniais, pela sua maturidade intelectual: O Vítor Aguiar e Silva, o Aníbal Pinto de Castro, entre outros, a Teolinda Gersão, e um pouco mais adiantado do que nós, mas que eu conhecia do TEUC, o Alberto Pimenta.
Eu fazia muitas coisas: teatro, ballet, era nadadora da Académica, ia ver jogos de futebol e de hóckey em patins, estudava piano, ainda que mal, ouvia os grupos de jazz nascentes nesse tempo, e seleccionava as matérias a que me entregava com entusiasmo, e essas tinham à frente Mestres, no sentido que George Steiner dá à palavra no seu livro Lessons of the Masters: aqueles que são guia e inspiração no âmbito do nosso percurso estudantil e para sempre, ao longo de toda a vida.
Fui feliz no meu crescimento em Coimbra.
Em Coimbra se abriram para mim as portas ou as Luzes da Razão, trazendo-me:
1. O culto da amizade fiel,fraterna, duradoura,sem distinção de raça , classe ou religião.
2. O culto do estudo, do saber ampliado, transversal, de que a arte fazia necessariamente parte; a arte era uma dimensão da alma, acrescentada.
Esta é a felicidade que desejo que os jovens de hoje também tenham, se tal fôr possível, num mundo em grande mudança : a da harmonização feliz da Ética e da Estética.

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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