De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

O meu cão


O meu cão

Conte-nos a história do seu cão ou de outro animal seu conhecido. Envie-a para deoutramaneira@gmail.com

 


César Augusto

Apresento-lhes o César Augusto. Encontrei-o a atravessar uma estrada, no meio de um mês de Setembro.
Apanhei-o com jeitinho – nessa altura ainda não sabia o que hoje sei sobre os ouriços.
Pesava 250 gramas, peso insuficiente para a época da hibernação que se aproximava. Isto aprendi no livro que comprei logo sobre a espécie.
Ao contrário do que normalmente se imagina, estes bichinhos são omnívoros, com grande tendência para carnívoros. Foram latas de carne para cães a base da alimentação que o levou às 650 gramas que pesava no início de Dezembro.
Vivia no jardim e ao fim da tarde eu abria a janela e punha na relva o seu tachinho, enquanto gritava: “César Augusto, está aqui o teu jantarinho!” E lá vinha ele a correr.
Depois do jantar entrava na sala e confraternizava, de mão em mão. Excepto se houvesse alguém desconhecido. Então “ embolava” é só voltava a desenrolar quando o “ inimigo” se fosse embora.
O outro da fotografia, o golden retriever Sebastião, enfiava-se numa banhoca no lago e resmungava-lhe “ Oh pá, tu não sabes o que é BOM!”

Manuela de Sousa Rama

Balu

Sempre estive habituada àquela arrogância e independência muito característica dos gatos.
Era uma criança muito dócil e como tal esperava que o meu animal de estimação gostasse de mimos e atenção.
Pois isso nunca aconteceu. Das duas uma, ou não gostavam de mim ou era da sua essência felina tratar mal quem lhes dá de comer.
Enfim, gatos. Sempre os aturei, mas nunca me apaixonei.
Comecei a namorar com um rapaz que tinha um cão. Um rafeiro castanho, mais parecia uma raposa. Sempre com as orelhas de pé, muito atento e cauteloso, nunca tirava os olhos de seu dono. Com o tempo fui percebendo porquê. Balu, o nome que o rapaz havia dado ao rafeiro, era o seu melhor amigo. Sempre tinham vivido os dois, e a minha presença era claramente uma invasão à matilha que só eles dois formavam. E como falar da estranha forma que o rapaz tinha de tratar o cão? Aos meus olhos era muito estranho pois nunca havia visto uma pessoa a tratar um cão como uma pessoa. Enchia o cão de beijos e dormia com ele todas as noites. Tinham uma ligação muito forte e bonita, parecia que tudo o que o rapaz sentia, o Balu sentia.
Como em todos os namoros, o início foi apaixonante e seria de esperar que não houvesse um dia da semana que eu dormisse em casa. Más notícias para o Balu que agora já não dormia com o seu dono. Não por mim, nem por nós. Por ele. Nós chamávamo-lo para vir para a cama e ele até preferia ficar no chão do que vir para ao pé… de mim.
Durante uns bons tempos, o Balu afastou-se de nós e parecia estar sempre chateado.
Raramente pedia a minha atenção. Lembro-me que quando me aproximava para lhe dar festas, até tolerava uns minutos, mas depois afastava-se e deitava-se noutro sítio. Nem festas queria, se viessem da minha parte.
Não sabia lidar com cães, mas percebi que tinha de fazer algo. Este cão não me parecia igual aos outros. Se acreditasse na reencarnação diria que já tinha sido pessoa. Um cão que tem ciúmes, que abre as portas, que não come a mesma ração todos os dias, que quando lhe perguntam o que quer, ele mostra e que a única asneira que faz é não resistir a comer a nossa comida quando não o estamos a ver, só pode ter sido pessoa.
Foi então que percebi que talvez tivesse começado esta relação pela “pessoa” errada. Talvez se tivesse começado por conquistar o Balu, nada disto tinha acontecido.
E com o tempo, tal como conquistei o seu dono (risos), acabei por conquistar este amigo, que é um dos melhores que alguma vez tive na vida. Lá me deixou entrar na sua matilha de dois, para passarmos a ser três.
O Balu, um cão com maior coração do que muito boa gente, encontrou um lugar no coração dele para partilhar o seu melhor amigo comigo.
Nunca me esquecerei e terá para sempre um lugar no meu.
Tudo voltou à normalidade e agora sou eu que o encho de beijos e peço que venha dormir para ao pé de mim.

Carolina Quadros

Esquecido e Lua

Foi a Nilza que o encontrou. A Nilza era especial, tímida mas de cabeça levantada, tinha um ar real. Trabalhava em casa da minha mãe.
Um dia, no Colombo, encontrou um periquito no chão, encostado à parede, com um ar triste e amedrontado. Pegou nele e deu-lhe o nome de Esquecido. Na sua benevolência achou que alguém o esquecera. Seria?
Veio para a cozinha da minha mãe.
Depois de hidratado e alimentado o Esquecido cantarolava de pulmão cheio.
Lá em casa havia uma linda cadela, a Lua, que a minha mãe adorava.
Talvez o periquito tivesse sido esquecido, mas a Lua não se esquecia de lhe ladrar, diariamente, como se nunca o tivesse visto. Não era um problema de esquecimento mas uma imposição biológica.
E assim conviveram até que cada um (a casa, a Nilza, a minha mãe, a Lua e o Esquecido) seguiu um rumo divergente.

Minnie Freudenthal

Cora

cristina rodo

O meu primeiro contacto físico com uma cobra foi na adolescência. Fiquei agradavelmente surpreendida com o toque que, contrariamente ao que esperava, descobri ser uma sensação táctil extremamente agradável. São bichos frios, com uma pele muito lisa que, quando acariciada no sentido das escamas, parece seda. São extremamente musculadas, deslocando-se com o movimento das costelas, que faz o efeito de uma pequena massagem.
Há cerca de treze anos, vi uma falsa coral à venda e fiquei completamente fascinada. Não descansei enquanto não transformei o “entra a cobra, saio eu!” da minha cara-metade num “Ok, trás lá o bicho…”
As cobras coral são venenosas, as falsas coral são constritoras, o que quer dizer que matam por estrangulamento, não sendo perigosas para o homem. São extremamente parecidas, sendo muito difícil de distingui-las e partilham o mesmo habitat, o que é aborrecido se tivermos um encontro imediato com alguma na natureza. À venda, que eu saiba, só se encontram das falsas, que são reproduzidas em cativeiro.
As cobras (as que temos em casa, claro está) vivem em terrários, assim como os peixes vivem em aquários. Para além do dito cujo, que é específico para repteis, tendo grelhas de arejamento em cima e em baixo, por forma a fazer circular o ar, são necessários vários acessórios. Dado que não regulam a temperatura corporal, precisam de um tapete de aquecimento onde se vão encostar para a fazer subir. Precisam também de uma luz, regulada por um temporizador para lhes dar o número de horas de “dia” consoante a estação. Têm de ter esconderijos para se refugiarem, um do lado quente e outro do lado frio, onde passam a maior parte do tempo. É necessário terem sempre água à disposição, pelo que precisam também de algum recipiente para o efeito. O fundo do terrário tem de estar coberto, algumas pessoas usam jornais rasgados ou papel de cozinha, outras aparas de madeira especiais para o efeito, eu uso uma areia xpto sem arestas vivas, que fica muito mais bonito. A estética da coisa é da maior importância para mim, pois a sua função decorativa é das razões principais pelas quais tenho esta cobra, embora, por ser notívaga, se veja pouco. Aplico-me assim na decoração do seu terrário tal como algumas pessoas o fazem com os aquários.
As falsas coral comem ratos, maiores ou menores consoante o seu tamanho. Contrariamente áquilo em que algumas pessoas acreditam, não é necessário apresentar-lhes o alimento vivo. Se assim fosse, pessoalmente, seria incapaz de ter uma. Assim come ratos que se encontram, já congelados, em algumas lojas de animais. É preciso descongela-los à temperatura ambiente. Quando chegou a Cora tinha cerca de vinte centímetros, parecia uma minhoquinha, comia “pinkies”, ratinhos recém-nascidos, ainda sem pelo. Agora que já tem mais de metro e meio, come “desmamados”, ligeiramente mais pequenos do que hamsters, um de dez em dez dias. Quando está com o cio, geralmente na primavera, não se alimenta durante vários meses seguidos.
As excreções das cobras são como as dos pássaros, cocó/xixi ao mesmo tempo, e têm um cheiro absolutamente nauseabundo. Felizmente só as fazem uns dias depois de cada rato. Na areia, apanham-se muito facilmente com uma colher, o que faz com que o terrário esteja sempre limpinho.
Regularmente (cada vez mais espaçadamente com a idade) as cobras precisam de mudar de pele pois deixam de caber na sua. Ao princípio isso acontecia cerca de uma vez por mês, agora é sensivelmente de três em três. Fazem-no como se despissem uma meia de senhora, roçando-se nas pedras do terrário, começando pela cabeça (até a pele dos olhos mudam) e largando a pele velha do avesso. Quando estão para começar a muda, ficam todas baças, nessa altura é preciso humidificar muito bem o terrário para garantir uma boa muda. Se isso não acontecer será necessário depois retirar-lhe as escamas mortas.
As pessoas costumam perguntar-me se ela me reconhece; reconhece, sim, fica muito menos nervosa quando sou eu a manipula-la do que nas mãos de estranhos. Não demonstra no entanto qualquer tipo de afetividade. Não a tiro muitas vezes do terrário, só de vez em quando, geralmente para a mostrar a alguém ou para verificar se a muda de pele ficou bem feita. Não se pode propriamente considerar um animal de companhia.
Há tempos esqueci-me de lhe pôr água, não sei quanto tempo ficou a seco, se um dia, se dois ou três, fiquei horrorizada. Nesse momento decidi não voltar a ter animais enjaulados, sejam eles de gaiola, de aquário ou de terrário. Uma cobra vive cerca de 15/20 anos, quando esta se for, não virá outra.

Cristina Rodo

Teodoro Carneiro

O meu gato
Sete quilos de músculo e pêlo lustroso, era um Maine Coon, uma raça de gatos grandes e tranquilos. Foi meu por sete anos, os dois primeiros no Connecticut onde eu vivia na altura, um ano em Lisboa quando me mudei, e quatro no Arizona quando para cá voltei.
Um dia desapareceu. Abri-lhe a porta de manhãzinha como de costume. Quando não voltou ao princípio da tarde, não tive dúvidas de o ter perdido. Para adoçar essa certeza, pus os inevitáveis anúncios nas caixas de correio dos vizinhos, com foto, telefone e alvíssaras. Uma vizinha disse-me mais tarde ter visto, de manhã muito cedo, um par de Coyotes com um animal preto na boca de um deles.
Chateado a princípio, deprimido a seguir, só me passou o luto com uma semana em Istambul três meses mais tarde.
Preto, mas de barriga mãos e pés brancos, era um gato de fraque. Quando recebia amigos em casa, punha-lhe um boné de pala, com as orelhas a saírem de lado, que ele exibia dignamente, sentado imóvel entre os convivas. Gostava da companhia de humanos. Muitas vezes ao chegar a casa, quando de carro avistava a minha garagem ao fim da rua, uma figurinha preta aparecia na rampa. O bicho reconhecia o meu carro e esperava por mim. Era o primeiro a entrar quando eu abria a porta de casa.
Comer e sesta, comer e brincar, sesta de novo, especado à janela, dormir toda a noite. Rotina silenciosa do meu previsível companheiro.
Ocasionalmente conversava comigo. Tinha um miado fininho que contrastava com o tamanho dele. Eu dizia qualquer coisa, ele respondia. Subitamente parava a conversa, dirigia-se ao quarto de arrumações, abria a porta e desaparecia por cima de um móvel, para mais uma sesta.
Descansado com tanto dormitar, despertava energético e punha-se em frente à porta de vidro. Era a altura de o deixar sair. Não tardava a voltar com um bicho na boca. Um coelho pequeno, imóvel entre as patas dele, ainda consegui salvar. Mas ratos já os trazia mortos. Agachado no chão, começava pela cabeça, metodicamente. Mastigava com o focinho de lado, e o que fora um rato ia desaparecendo, cabeça, patas e tudo, naquele mastigar contínuo. E o rabo do rato, finalmente, desaparecia também. Depois pedia entrada em casa, o que eu recusava. Deixava-o regurgitar lá fora. Os felinos comem tudo duma assentada. Após algum tempo, regurgitam o pêlo e ossos do que comeram, o que é enjoativo de ver. Deve ser por isso que o David Attenborough nunca o mostrou na TV.
Nunca é preciso dar banho a um gato. Tratam deles próprios como ninguém, num lamber contorcionista que lhes permite chegar a noventa por cento da área corporal. E no topo da cabeça onde a língua não chega, lambem primeiro a pata com que depois penteiam metodicamente a zona inacessível entre as orelhas. E absorvem o perfume de quem lhes pega, de modo que o meu gato cheirava à minha namorada, o que o tornava ainda mais aprazível.
E periodicamente, quando acometido duma espécie de nervosismo que me dava frequentemente, agarrava no bicho. O prazer quase sensual de o espremer, acalmava a supracitada inquietude, por razões que ignoro. Mais calmo retomava o que estava a fazer, e ele continuava a dormir.
Quando viajava deixava-o num hotel para gatos, com o veterinário. Quando fui lá com ele pela primeira vez, tive que dar um nome de registo. Dei o nome dele com o meu apelido. Era o nome que ouvia chamar na sala de espera. Teodoro Carneiro.

José Luís Vaz Carneiro

Tostão e Possum

Durante mais do que 16 anos tive a felicidade de viver com um cão e meio – isto em termos de “titularidade”: o Tostão e a Possum. O Tostão era inteiramente meu. O nome dele continha uma referência escondida: devendo os nomes próprios dos chineses ser dotados de um bom significado, há pessoas inspiradas que chamam ao seu cão algo como “trazer riqueza”, na mesma lógica de chamar a uma filha indesejada “trazer irmão”. Assim, de cada vez que o cão vier, e ele vem sempre quando for chamado, trará um pouco mais de riqueza—no meu caso mais um tostão. A Possum, irmã do Tostão, pertencia a uma amiga que tinha sido a dona da avó deles. Como tivemos pena de separar os dois cachorrinhos, combinámos um esquema: os dois ficariam sempre juntos, metade do tempo em cada casa. Desta forma, as duas donas ficariam livres deles metade do tempo também! Não era que não gostássemos da companhia deles, pelo contrário. Mas assim podíamos fazer as nossas vidas e mexer com mais liberdade sem nos preocuparmos com a organização de logísticas para garantir o bem-estar deles.

Na verdade, em muitos aspectos, ter um cão é parecido com ter uma criança: a relação de autoridade e de dependência, o amor indulgente, a satisfação derivada do contentamento do nosso amado e protegido. No entanto, um cão não é nenhuma versão de atrasado mental de uma criança, ele pode ser mais ou menos inteligente, tal como as pessoas, mas é a inocência que ele mantém para sempre. Ele nunca vai descobrir que o ser humano é tão imperfeito, uma revelação tão dolorosa para tanta gente. Nunca vai sentir-se oprimido pelo nosso amor possessivo. Nunca vai reclamar a sua independência. Nunca vai ter má fé nem pensamentos dissimulados. A alegria que ele consegue tirar do mesmo jogo, repetido vezes sem fim, é contagiosa e terapêutica, uma disposição zen por excelência, uma existência sem crise existencial. Mas isto não deve ser interpretado como falta de inteligência, pelo contrário tenho muitas evidências do oposto, vou dar só um exemplo aqui, a lista é longa.

O Tostão e a Possum viviam alternadamente em duas casas e, claro, as duas donas tinham protocolos domésticos diferentes. Na minha era proibido subir para as camas e os sofás, mas na outra não. Eles sabiam perfeitamente as regras próprias de cada casa e cumpriam em conformidade. Numa das frequentes entregas, mal entrámos na outra casa, os dois subiram diretamente para a cama e olharam para mim, claramente estavam a dizer-me sem palavras: estamos fora da tua jurisdição!

Só há uma caraterística deles que se aproxima da estupidez: a dedicação absoluta ao dono. Há quem ache que se trata de uma relação de conveniência. Eles recebem comida e tecto e nós um bichinho submisso. Se assim fosse, ficávamos nós a ganhar, e por muito. Na verdade, apesar do incómodo de ter em casa um ser que não é autossuficiente quase em todos os aspectos, estamos mais do que compensados. A lealdade sem julgamento, a disponibilidade permanente, a juventude espiritual incorruptível e a fina perceptividade fazem do cão uma companhia inigualável, não uma mera presença de pelo e calor—um peluche vivo—mas um companheiro generoso e compassivo, sempre com boa disposição, adora estar connosco e cuja afeição por nós nunca se vai esgotar com o tempo.
Resta saber, merecemos?

Monica Chan

Chica

o meu cão

Chica, uma das maravilhas da natureza…
A Chica é uma papagaia cinzento degradé, com rabo vermelho e uns olhos amarelos muito vivos que conseguem abarcar 180º. É natural da Ilha do Príncipe.
Foi-me oferecida por um casal de amigos que não tinham condições para ficar com ela.
Vinha triste, depenada, magra e agressiva.
Talvez porque parte da minha infância foi passada na África do Sul, sempre gostei de animais, ou melhor dito de bichos. Por isso fiquei muito triste quando a vi nesse estado.
Era muito desconfiada e medrosa. Quando eu tentava aproximar-me, mordia-me os dedos com o seu bico fortíssimo, até deitarem sangue.
Pouco a pouco, foi vendo que eu não lhe fazia mal apesar da firmeza com que dizia “não Chica” cada vez que me mordia e foi ganhando confiança.
Aprende tudo com uma facilidade incrível. Sabe ladrar, miar e imitar o canto de vários pássaros. Sabe tossir e rir no momento certo. Emita o motor dum camião. Quando ouve água a correr, tanto pode dizer “água” como “glu, glu”. Quando vê pessoas a beijarem-se, diz “beijinho” e imita o respectivo som. Sabe dançar ao som da música e tenta imitar os meus movimentos com as asas.
Quando há transmissão de algum jogo de football pela televisão, imita tão bem o apito do árbitro, que lança a confusão entre os espectadores cá de casa.
Tem uma memória invejável para associações: não só assobia várias melodias como sabe associá-las às pessoas que habitualmente as cantam. Um amigo nosso, sempre que a via, assobiava um fado. Um dia foi viver para Angola e esteve anos sem aparecer. Quando voltou, foi cumprimentá-la e fazer-lhe festas e ela começou logo a assobiar o fado que ele costumava cantar.
Ao pequeno almoço adora comer cereais com leite mas têm que ser “Corn Flakes”. Partilha comigo iogurte, queijo, batatas etc.
Adora companhia e como a nossa casa está sempre cheia, nunca se sente sozinha. É uma alegria tê-la e conviver com ela.
Já tem 30 anos e como dizem que os papagaios duram até aos 70, já a pus no meu testamento.

Montserrat Almasqué

Aurora

o meu cão

É muito difícil escrever sobre o meu cão, ou seja, a minha cadela. A Aurora. Só faltava falar… e falava, com os olhos. Conquistou todas as pessoas, por se parecer com os humanos, com uma vantagem, que nós, raramente temos. O Amor incondicional.
Já passaram anos que ela nos deixou e as saudades continuam enormes. Aquele olhar é inesquecível. Aquela Amizade a qualquer hora, dia, faça chuva, faça sol, estivéssemos tristes ou alegres, zangados ou felizes, era singular.
Tinha coisas fabulosas, uma delas era ficar à janela, tal e qual uma velha, a ver as pessoas a passar. Punha as patas de fora da janela e ali ficava. Seguia, com o olhar e com a cabeça, as pessoas e os outros cães que passavam.
Quando íamos viajar, ela pressentia uns dias antes a nossa chegada. Como? Não me perguntem… Assim como sabia sempre que o meu carro entrava na rua, ela ficava à porta à minha espera. Quando entrava em casa, era recebida com uma tal alegria que me dava trincadinhas na mão, de nervos de me ver.
Ela tinha um relógio dentro dela. À noite, o passeio à rua era entre as 21.30/22h. Pelas 21.30 já ela pousava a cabeça no meu computar e seguia-me com o olhar até eu reagir. E não se deixava convencer se eu lhe dissesse que ainda não eram horas.
E para acabar, porque as histórias não têm fim e o coração começa a apertar mais por estar a escrever, o melhor presente que lhe podia dar era quando a deixava dormir no nosso quarto. Coisa que não era habitual. Ela arrastava a cama até à porta do quarto e ficava à espera que lhe dissessem: “ hoje podes dormir aqui”. Punha a cama dela do meu lado e  dormia com sono profundo até eu acordar. Tal como uma criança no quarto dos pais.
Foi com a Aurora que aprendi a gostar de cães e perceber que eles são uns grandes companheiros. Uns Amigos incondicionais. Espero que haja um céu onde os animais possam andar por lá a correr como a Aurora corria. Uma elegância…

Sofia Freudenthal

o meu cão

Teddy in Mozambique

The house was old and cavernous, more of a place of encounter than a place of rest. The mission offices at one end, our domestic kitchen at the other. Through the enormous grounds, all sorts of different persons made their way in the course of a day. There were four of us, plus my parents, plus our granny, plus never less than two servants, for a while a governess, and regularly there were guests: missionaries, relatives, travellers of all kinds.

When Teddy arrived one late afternoon, he was a young but already mature dog. Some Englishman had left him behind and my father just brought him home on a whim, in the hope that it would work out as a sort of “cold cure” for my little brother’s fear of dogs. My brother yelled for about an hour, more out of spite than anything else, and was soon cured of his phobia. Teddy found his place in the middle of the maelstrom.

He was no one’s dog, truth be said. But then no one in that house received any individual attention. We were all part of the party, each one for him or herself. We young ones soon discovered that the best was to get lost in the middle of the circulation. I suspect that the servants also picked up on the idea. Rather than wait for some unreasonable and often authoritarian diktat, it was indeed more comfortable just to get lost, get out of the limelight, and do as one wished. As we grew older, we all developed our own “safe” spaces in the out houses, in the verandas of difficult access, behind bookshelves, and in the dark of the windowless but airy rooms that were more like corridors than bedrooms.

So did Teddy. Food being not really an assured matter, and there being many hands that slipped down food from the table, Teddy developed into a regular mealtime entertainer. He would move round the table, stand on his hind legs with his forelegs in a begging gesture and his snout with that particular ironic grin that so distinguished him. This was a home where food was seldom really tasty, so there was no dearth of pickings for Teddy to beg.

He had a natural disposition for party tricks that charmed all the many visitors that circulated around the house and garden. With his white flag of a tail, and his gay white on black streaks, he would charm everyone. He jumped high to touch one’s hand with his nozzle, he stood on hind legs, he gambolled in front of anyone who cared to walk under the jacaranda trees in the garden. With a bit of help, he would even go up with me to the house that I made with a pair of plunks and some rope, up a particularly gigantic wild fig tree. Beach outings were everyone’s favourite and Teddy was an active participant in the whole enterprise. He loved to jump into the little row boat that we had in the summer house at Maxixe, 500 kms north of where we lived during school time (today’s Maputo). Teddy swam like a seal.

As he grew old, he also grew more randy, more self-assured, and more disdainful. The city was not that large in those days and he would go all over town and even into the outskirts, where roads were unpaved. Friends and members of the diocese took to bringing Teddy back from God knows where, convinced that he was lost. But the truth is that none of us believed that Teddy had ever been lost and the hard evidence was that, in the days no one picked him up, he would come back of his own accord. He was seldom out for more than four or five hours.

One day, as happened every year around July, the whole family was getting ready to go up to Maxixe for the holiday period. Everyone sort of convened in the parking space amidst a hill of bags and suitcases, getting ready to climb into the two cars that were available. Mother drove one and father drove the other. The trip was heroic and took a whole day from morning to evening. The roads were more or less straight, but the potholes were many and there were all sort of challenges in the form of competing occupants to the road: passing chickens, goats, groups of garrulous women, young boys selling pineapples, you name it.

By noon, we stopped at a small sleepy town composed of an Indian’s shop, the administrator’s office, and three or four private houses, all painted in a kind of burnt sienna colour that seemed to be the chosen tonality in those days. I now think it was Zandamela, with the first of the Zavala lakes in the horizon, but my memory is no longer really reliable for details. Out there, more than a thousand kilometres to the north, near the border with Tanzania, a bloody war was being fought. But down here in the south, we were hardly aware of anything. A kind of tense peace reigned and we, as kids that we were, were hardly conscious of how our wealth caused anger on an impoverished population. We did not really have the analytical tools to detect that silent anger. It was only later, when we got to University that the veil was plucked brutally from our eyes.

Everyone went into the Indian’s shop. Beers for the older ones and cokes for the younger were avidly consumed, as the heat was unremitting. Teddy had his own bowl of water and then, when we all went into the back yard to partake of the omnipresent grilled chicken with salad and rice, he had his quota, as was always the case.

Then we left again, first my father’s car, where my older sister had pride of place; then my mother‘s car, where I played the role of navigator-general. The young ones, the servants, the grandmother, all collected into the back of either vehicle. Off we went for yet another stretch of 300 kms in the scorching heat.

The day was falling as we got to Maxixe. Bags were unpacked, arrangements started to be made for dinner, my father was immediately off on business. Suddenly one of us, perhaps my older sister, commented that Teddy had gone off again. We all laughed because we knew he would be back as soon as dinner was laid on the table. But the moment arrived and Teddy was not there. We went back to the cars (they were parked some twenty meters from the house), we asked around, but the people that had watched us all arrive were adamant that they had not seen the dog arrive with us. In fact, they even commented they were surprised by his absence.

Soon, it was clear that Teddy had been left behind. The last anyone had seen of him was at lunchtime begging for chicken bones. But that was 200 kms to the south and daylight was quickly fading. There was no discussion. As my father was busy (indeed, if I remember correctly, he was not even there), so my mother and I climbed back into the old Mercedes and off back we went, listening through the night to Tchaikovsky’s violin concerto played by Oistrakh because that was the only cassette we owned and the radio only tuned in when we were closer to a bigger town.

As we approached the old Indian’s shop where we had lunch a good six hours before, we saw the blare of the single street light over the main door. Right in the middle of it, calm as anything, there was Teddy resting from the toils of an adventurous day around town. I opened the car door and he calmly jumped in, moving to the middle of the back seat, where he always liked to sit. We got out for a drink and to speak to the store keeper, who told us they only realised that the dog had been left behind two or three hours after we had left, but they did not know how to contact us. Apparently, they had planned to keep him around, feeding him with the remains from the restaurant until such a day, in a month or so, when we would move south again. Teddy, however, was his own man, he was perfectly at ease.

When, much later, we had to leave Mozambique with our hearts in our hands, Teddy had to be left behind. The family was splitting up and my parents did not even have a permanent place to stay for a few months. Teddy was an older dog and everyone believed that he did not have long to live. He was left with the family of one of my father’s local associates. Later, on a return trip, my father visited him and was pleased to see that he had found his place in that family with the same self-assuredness that he had found in ours. Eventually, much later, when we all thought he had long died, we received a letter notifying us of his demise.

There is a photograph of Teddy seating on his hind legs and another of him cuddling next to my younger sister. Teddy was a born performer but he had the soul of a sailor.

João de Pina Cabral

Tobias

As recomendações eram sempre as mesmas. Meninos: comprei bolachas, mas têm de durar a semana inteira. Por isso vejam se conseguem ser moderados a comê-las. Invariavelmente os Filipinos desapareceriam no mesmo dia. Quem foi? Ninguém… Todas as semanas se repetia esta história. Com três filhos, às vezes não se conseguem saber certos segredos.
Os pacotes de Filipinos eram ou são, não sei, encarnados, em forma cilíndrica comprida e estreita.
Tobias adorava comer, como todos os beagles, como todos os cães em geral. Fazia tudo para roubar comida. Lambia os pacotes de manteiga que apanhava, abria a porta do lugar onde estava escondido o leite creme, lombo salpicado deste doce, travessa vazia. Da mesa comeu o bolo, comeu o queijo, comeu a mousse, as patas lambuzadas deixando o rasto pelas cadeiras, pelos tapetes. Mas nós adorávamos o Tobias. Roubava, comia e parecia que sorria. De felicidade.
Um dia, estava eu à janela do primeiro andar, e vejo o Tobias cavar o seu buraco. Como sempre fazia apesar dos muitos ralhetes nossos, do jardineiro e de todos cá em casa. Qual o meu espanto quando vejo, preso nos dentes sair da cova um pacote de Filipinos. Afinal era ele!!! Roubava, guardava, e de vez em quando apetecia-lhe um bom pacote de bolachas de chocolate.
Tenho tantas saudades tuas Tobias…

Benedita Paes de Vasconcellos

Fusca

meu cão
fusca

A nossa cadela
Já estava atrasado, como sempre. Abriu a porta de trás do automóvel e vestiu apressadamente o casaco em cima do qual a Fusca, cadela que o acompanhava sempre para todo o lado, se tinha anichado durante as longas horas de espera dentro do carro. O dia tinha estado quente e tinha andado quase sempre em mangas de camisa, mas agora a ocasião exigia fato completo. Alisou as frentes do casaco, tentando disfarçar as rugas provocadas pelas patas e pelo corpo pesado da cadela, sacudiu os pelos do animal que teimavam em ficar colados ao tecido, aconchegou a gravata e dirigiu-se para o evento. Era a inauguração do primeiro supermercado de Lisboa, o Modelo, na Praça do Saldanha. Mal deu os primeiros passos dentro do estabelecimento, sentiu os olhares pregados sobre si. Pensou que era por ter o casaco um pouco amarrotado. Sacudiu-o mais uma vez, tornou a alisar as frentes e as bandas, certificou-se que não tinha nódoas muito aparentes e prosseguiu nos cumprimentos obrigatórios às forças vivas, presentes na cerimónia: representantes das instituições oficiais da capital, homens de negócios importantes acompanhados das respectivas mulheres ( ou não estivéssemos na inauguração de um supermercado…), jornalistas, etc. Mas os olhares não despegavam e agora eram mesmo acompanhados por algum cochichar, sobretudo entre as senhoras. Deve ser porque não estar de fato escuro ou talvez por ter uma a gravata exuberante demais para a ocasião, pensou. Ao fim de algum tempo, deixou de ligar ao facto de continuar a ser alvo das atenções e, descontraído, prosseguiu como se nada fosse. Dirigiu-se para o cocktail de recepção, falou com quem tinha que falar e, lembrando-se da cadela fechada no carro, onde tinha passado o dia inteiro, saindo apenas para pequenos passeios higiénicos, decidiu ir para casa. Ao entrar, pendurou a trela da Fusca no lugar habitual, deu os primeiros passos em direcção à sala e ouviu, admirado, as primeiras palavras da empregada, apontando-lhe para as costas: “Ai, Sr. Almasqué, como o Sr. vem, o que é que lhe aconteceu?” Olhou então para o casaco que tinha acabado de despir. Na parte de trás, para além de marcas secas e esbranquiçadas de baba de cão, viam-se os bocados do forro e das entretelas pendurados e transbordando dos múltiplos rasgões provocados pelos dentes aguçados da Fusca que, no desespero da sua clausura automobilística, tinha transformado numa amálgama de vários tecidos estraçalhados o que em tempos tinham sido umas costas de casaco. Ficou petrificado ao mesmo tempo que os acontecimentos da tarde se esclareceram subitamente no seu espírito. Num primeiro impulso, dirigiu-se furioso, ao encontro da Fusca, disposto a fazer-lhe pagar pelo sucedido. Encontrou-a enroscada num canto, de rabo entre as pernas, tentando passar despercebida. Ao levantar o focinho, fixaram-se mutuamente. Os olhos do meu pai encontraram um olhar lânguido, de quem reconhece a culpa e está pronto a aceitar a respectiva reprimenda. Houve um compasso de espera. Finalmente, o meu pai dirigiu-se à empregada com um sorriso resignado e disse: “Maria, não te esqueças de dar uma refeição melhorada à Fusca porque ela passou a tarde fechada dentro do carro e deve estar cheia de fome, coitadinha.”

Isabel Almasqué

Oscar

Oscar, um cavalo inglês com quem tenho uma relação intensa desde o primeiro momento. Tem 24 anos, que em anos de cavalo pode equivaler mais ou menos à minha, 62 anos. A vantagem é que nenhum de nós está consciente da idade que tem, portanto temos “licença” para nos portarmos com um abandono total e isso dá-nos a possibilidade de uma liberdade intensa nos momentos em que galopamos pela floresta, ultrapassando obstáculos físicos e outros de que não nos tenhamos apercebido.
Há cerca de 5 anos, quando decidi recomeçar a montar regularmente, dei com um picadeiro, cuja dona me disse que era capaz de ter um cavalo que eu iria gostar de montar. Era o cavalo de competição do seu filho, mas que já não o montava. Foi um coups de foudre, a primeira vez que o vi, com uma personalidade a igualar a sua qualidade física. Como qualquer animal, incluindo seres humanos, a ligação mais rápida faz-se sempre através da comida. Quando viajo e vou visitar pessoas, a primeira coisa que faço, é perguntar se posso ajudar na cozinha, partilhar quaisquer receitas ou técnicas de cozinha. Especialmente a receita de pão, que aprendi há 12 anos, o mais básico dos nossos alimentos, tem-me levado pelo mundo, deixando boas memórias.
Com o Oscar, a simplicidade de ter uma ou várias cenouras no bolso, faz com que ele meta a cabeça fora da box mal ouve a minha voz e sabe que assim que eu entro, pode começar a tirar as cenouras do bolso. Em retorno, dá-me o grande prazer de me deixar montar e partirmos juntos para umas pequenas aventuras.

Pedro Leitão

Brownie e Bicho

Um amor incondicional e único
Chegou às minhas mãos inesperadamente. Foi um presente da minha filha para tentar compensar ou substituir a perda do Winner, outro cão amado que tinha partido recentemente, com 14 anos de idade.
Esta era uma English Springer Spaniel, raça pouco conhecida em Portugal e mostrava-se meiga, muito tímida e algo medrosa. Acabava de chegar a uma casa desconhecida, deixando para trás os irmãos. Pusemos-lhe o nome de Brownie.
Ao princípio, estava relutante em ter outro cão. Um nunca substitui outro, nunca nada é igual, nem mesmo um animal de estimação.
Mas, suavemente como quem não quer nada, foi entrando no meu coração, partilhando o meu espaço, a fazer gracinhas, a pôr-se ao alcance de uma festa e a mostrar a sua alegria cada manhã com as suas lambidelas e sempre a mexer o seu rabinho cortado.
Como não amar a sua maneira de ser meiga, muito carinhosa, a sua bela pelagem branca com manchas castanhas, as suas orelhas longas e onduladas que abanavam ao correr, os seus olhos expressivos e inteligentes, sempre atentos aos meus movimentos e às minhas palavras.
Tornámo-nos amigas inseparáveis. Onde estava eu, estava a Brownie. Dormia no nosso quarto e havia “caminhas” espalhadas por todas as divisões da casa.
Os anos foram passando quase sem darmos por isso. Já nem eram precisas palavras para nos entendermos. A Brownie adivinhava os meus passos e as minhas intenções, conhecia as minhas rotinas, a minha vida era a sua.
De manhã, esperava pacientemente para iniciarmos o nosso passeio: ver o mar, os pássaros, as flores, passear pela praia e pelas falésias, gozar o ar livre, usufruindo de cada momento. A Brownie apanhava o rasto dos coelhos, corria e dava uns saltos maravilhosos, tal qual uma gazela. De volta a casa tomávamos o nosso pequeno-almoço. Gostava muito de comer, engolia tudo rapidamente, a sua ração desaparecia num instante, adorava dividir comigo os restos do meu iogurte e quando eu tomava um café, ela não dispensava a sua bolacha… Também servia de aspirador, punha-se a jeito por debaixo do prato da papagaia (Chica) à procura de uma sobra.
A minha filha, em casa de quem eu a deixava quando tinha que viajar, reclamava que a cadela era “ demasiado mimada”, porque não parava de “chorar” enquanto eu não voltasse. Mas nunca se é demasiado mimado, quando não se pede nada em troca do que se dá.
Era amiga de todos os habitantes da casa: do meu marido, dos meus filhos e netos, da papagaia Chica e até da gata-preta Michu, encontrada na rua pelo meu cão anterior.
Tinha uma mania muito engraçada, cada vez que alguém tomava um café, ela achava-se no direito de comer uma bolacha. Quando eu me esquecia, ela, com um latido, recordava-me que ainda não tinha recebido a sua recompensa.
Com a idade foram-lhe aparecendo nódulos e tumores em vários sítios do corpo. Fez várias operações e várias anestesias. Sofríamos as duas quase em silêncio.
Um dia, durante um dos nossos passeios, encontrámos um cão abandonado. Era de raça “Cocker Spaniel” e estava na rua, muito sujo, cheio de parasitas. Perguntei se era de alguém e, sem hesitar, levei-o para a nossa casa. Descobrimos que também já não era novo e que era surdo, mas era doce e meigo, amigo e sempre muito reconhecido. Ao princípio estava sempre triste e como não sabíamos que era surdo, fartávamo-nos de o chamar por vários nomes até que, finalmente, ficou “Bicho”.
A Brownie ia envelhecendo e com 16 anos, ficou cega. Tinha que ser guiada com a trela curta, mas saíamos os três na mesma, dando passos mais lentos e parando várias vezes para descansar. Foi também perdendo o ouvido progressivamente. Quando chamava por ela, estancava e olhava fixamente para o ponto donde provinha a minha voz.
Pouco a pouca tudo se tornou mais difícil: andar, subir e descer escadas, perceber onde eu é que eu estava. O olfato era a sua grande ajuda e continuava a comer com grande apetite.
O ”Bicho” também estava com uma insuficiência renal, não comia, estava cada vez mais magro e vomitava muito.
O momento mais terrível e temível ia chegando e eu tentava atrasá-lo o mais possível, mas sabia que tinha que me decidir em dar a tal “ajuda”.
Um dia, despedi-me deles com muitas festas, abraços beijos e palavras doces, mesmo sabendo que já não me ouviam. Estávamos sentados ao pé do mar, na falésia onde tínhamos passeado vezes sem conta. Ia perder dois grandes amigos.
Enchi-me de coragem e levei-os ao veterinário. Foi rápido e ficaram a dormir nos meus braços, molhados com as minhas lágrimas.
Foram enterrados a olhar para o mar, debaixo de um pinheiro, um ao lado do outro.

Montserrat Almasqué

Vick

Quando tinha 9 anos fui mordido por um cão.
Chamava-se Vick e era o meu cão.
A culpa foi minha porque estava a infringir a mais elementar etiqueta canina tirando-lhe comida do prato enquanto comia.
Na realidade foi só um arranhão na minha perna direita mas serviu para estabelecer os limites do que era razoável entre nós.
Com o tempo o Vick tornou-se o meu maior aliado.
Naquela altura eu era um miúdo magricela , sempre doente certamente deprimido. Detestava comer e ao contrário dos meus irmãos cada refeição familiar era para mim um suplicio interminável, até que com o Vick aperfeiçoei um protocolo simples mas extremamente eficaz, ele ficava debaixo da mesa e eu ia-lhe passando tudo quanto podia sem os meus pais verem. Com o tempo a gama de coisas que o Vick era capaz de comer cresceu de um modo impressionante abrangendo muitas coisas que habitualmente não estão nos menus caninos ortodoxos tais como beringelas, maçãs, laranja e cubos de gelo…

Manuel Rosário

Chegávamos ao Sobral, para mais uns dias de férias que nos faziam de novo felizes. Avós, espaço, ruralidade, coisas novas que não percebíamos, mas encantavam. Algumas coisas permaneciam lá e fomo-nos apropriando delas: o Santo Isidro – lá atrás na foto, num nicho no exterior da «leitaria» – a estrutura em madeira para prender os animais que iam ser ferrados, com o seu arco em ferro forjado, as mesas de desmonta dos porcos acabados de matar, que julgávamos serem bancos para sentar, também na foto, o enorme vaso de barro com uma planta que ainda hoje lá permanece, à direita. Chegávamos e corríamos a escolher o chapéu. Estes dois, cinzentos, que nos transportavam para o Canadá, ao serviço da polícia montada – talvez os preferidos… – o chapelinho de cowboy Bonanza, para as aventuras mais a sul, no Far-West. Vestíamos roupas diferentes, para andarmos sujos e felizes. Um boné forrado a pele de ovelha, também cinzento, de pano e com abas para proteger as orelhas que o Tio Ramiro – paz à sua alma – trouxera do Mid-West onde tinha estudado lacticínios. De onde chegou de barco, agarrado a uma americana, que não teve espaço na família, e com uma garrafa de Tide já aberta, presente para a sua Mãe que ainda só conhecia o sabão. Era muitas vezes o boné preferido para as férias de Natal, quando o lago gelava, com os peixes lá dentro! O Vick, era o nosso companheiro de todas as aventuras, também feliz, obediente e pronto para atacar a galinha feroz que caçávamos quando lhe dizíamos «agarra Vick»! Ele adorava estas cenas de caça com os antigos donos de Lisboa.

Rui Rosário


O primeiro cão que conheci

Passaram mais de cinquenta anos. O pataco dorme agora numa velha gaveta desta sala. Quando o acordo, para saber se está bem, vejo a minha irmã – linda, linda – rindo para mim, para nós sorrindo. Desata-se, nesse instante de presente, uma memória tão pura e tão sua que até juraria tratar-se da melhor memória da minha arca de lembranças. E, no mínimo, será a memória mais cuidada em mim, sem ponta de desleixo, com tudo em seu lugar, bem preservado. Memória plena, sem vazios, toda ela é minha irmã em vida e luz, depois de ter morrido há um ror de anos, tantos que não sei contá-los sem a ajuda deste fraternal pataco, que o Nero, primeiro cão que conheci, achou e que meu pai haveria de resgatar.
Estava ainda pelas verduras dos seis anos de idade, quando o cão correu para mim com um pequeno disco metálico na boca. E como Nero, sempre pronto para a bondade, se recusava a confiar-me o achado, pedi a intervenção de meu pai: “É um pataco. Não vale nada. Já não corre!” E, assim, atirou prontamente a moeda contra o tanque das maternas lavações das roupas da nossa “tribo”.
O cão seguiu meu pai, a quem obedecia a horas e a desoras, cumprindo as suas ordens e contra-ordens. Nero, de seu histórico nome, fora uma prenda que me encantou. “O cão agora é teu!” – E, se o meu pai o disse, ficaria uma escritura lavrada naquele ano de 1961. O problema, contudo, é que não são as pessoas que escolhem os bichos. São os bichos que escolhem as pessoas. Eu até poderia ter alguma importância para o cão. Mas, ele não era meu. Eu é que era do cão. Em sã verdade, o meu pai teve sempre a posse do Nero. Fosse ou não inteiramente assim, sobrava-me agora um pataco, ali mesmo, à mão de plantar e de colher. Foi num ápice: pataco no chão, pataco na minha mão. Desprovido de qualquer valor, segundo meu pai, o pataco haveria de tornar-se no meu melhor brinquedo, a alegria das manhãs, um tesouro que animava as horas dos meus dias – o começo do que viria a ser a grande paixão da minha vida pela História e pela Numismática.
Cautelosamente, não fosse alguém observar, escondi a moeda debaixo de uma gaiola onde moravam duas rolas, laboriosas cantoras a partir das seis da madrugada. Entretanto, Dionísia, minha irmã única, que só uma irmã vale por mil, resolveu pôr-me à prova. Levantando-se mais cedo, tirou o pataco que dormia sob a gaiola e aguardou a minha entrada em acção.
Perante o desaparecimento da moeda, senti um abalo difícil de exprimir, porque, em toda a linha, eu não sabia nada de abalos.
Dionísia, menina inteira, toda metida num coração doce, perguntou-me: “Que mão queres? A direita ou a esquerda?”  “ Nenhuma. Só quero o pataco que o Nero achou.” “Pois aqui tens o pataco. Até parece que o preferes a mim!” “Nem pensar. Não há comparação.” Tantos abreijos, beijos e abraços, abraços, mais abraços se seguiram que não couberam no passado. Ficaram moradores no futuro. E se alguns deles, só os últimos, ainda os vejo, é porque a fila, de tanta fartura, nunca parou de aumentar. O primeiro desses abraços, abreijos, vai lá muito à frente. Cresceu tanto que nos olha sobre as árvores. Ficou quase, quase, a meio caminho do Sol.

José Miguel Noras
Março, 2018

Sugestões

Partilhar
Sem comentários

COMENTAR