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O milagre de Griselda

A cena repetia-se todos os anos, durante as férias que há mais de uma década passávamos na República Dominicana. Sempre no mês de Fevereiro, para fugir ao frio de Portugal.

Não que as temperaturas fossem excessivamente baixas como no resto da Europa, mas para alguns de nós, com vivências de juventude africanas, o inverno de Lisboa era suficientemente incómodo e desagradável para nos empurrar para paragens mais amenas. Escolhíamos sempre a mesma zona, junto à costa, mas longe das grandes multidões e dos habituais reboliços turísticos. Alugávamos uma casa numa pequena vila, onde o pouco comércio existente se alinhava ao longo de uma única rua: dois ou três pequenos “colmados” (nome local para mercearias onde se vende um pouco de tudo), meia dúzia de restaurantes familiares, um pequeno hotel rústico, um banco e pouco mais. Os dias passavam-se entre longas horas de leitura, dedicadas aos livros sempre adiados na azáfama de Lisboa, amenas cavaqueiras, passeios à beira-mar, banhos nas águas translúcidas da praia quase sempre deserta e o inevitável fim de tarde no bar do Rey para o cerimonial da “Margarita”, que este preparava como ninguém.

Esta rotineira calmaria era regularmente interrompida quando alguém se lembrava de ir dar as fotografias tiradas no ano anterior aos respectivos fotografados: vendedores de estrada, trabalhadores do campo, motards, professores e estudantes das escolas, famílias, crianças, “galleros”, etc. Assim que chegávamos a cada local, a agitação era inevitável. À volta de nós gerava-se um burburinho incontrolável, com gargalhadas, pulos de alegria e gritos de estupefacção. Todos se queriam ver nas fotos, chamavam uns pelos outros à medida que se iam reconhecendo. E apesar de toda aquela confusão, lá conseguiamos fotografar mais uma vez as caras e as cenas para distribuir no ano seguinte.

Numa tarde um pouco entroviscada que prenunciava alguma chuva, decidimos sair da praia mais cedo para entregar as fotografias à família de haitianos que vivia algures no meio dos montes, não muito longe dali. Metemo-nos na carrinha e após hora e meia de muitas sacudidelas, subidas e descidas por picadas e caminhos de cabras, lá chegámos ao local pretendido. A referência que tínhamos dos anos anteriores – COLMADO DE GRISELDA – pintado a verde deslavado na parede, tinha desaparecido. Subimos a pé a rampa enlameada que desembocava naquele “patchwork” de madeiras e chapas onduladas, abrigando umas enxergas espalhadas pelo chão, onde vivia Griselda e a o resto da família. Ao contrário do que era habitual, não houve nem barulheira nem correrias a assinalar a nossa chegada. Do antigo “colmado” só restavam as prateleiras vazias, uma balança ferrugenta e o velho balcão onde tocava um transístor roufenho. Griselda apareceu, tristonha, seguida da irmã Elsa e da filha Milagros. Fora obrigada a vender os produtos todos do “colmado” para pagar a cirurgia recente da filha, depois de uma perna quase desfeita por uma mota desgovernada. Tinha ficado a coxear mas, pelo menos, estava viva. Agora, sem o negócio do “colmado”, o sustento da família vinha só dos pequenos trabalhos que o marido ia arranjando. O dinheiro era pouco e não dava para comprar os óculos de que tanto precisava para ler as receitas do médico e as instruções das caixas dos medicamentos que Milagros tomava diariamente. Ali, mais ninguém sabia ler e ela andava triste e assustada com medo de se enganar. De repente, vindos do nada, no meio dos sacos e das máquinas fotográficas, surgiu um par de óculos, que o Manuel trazia sempre no bolso para qualquer emergência. Griselda experimentou-os, a medo. Primeiro parecia atónita, depois pegou na embalagem dos comprimidos e começou a ler, não contendo as lágrimas. Pulando de alegria, foi buscar as receitas e os relatórios médicos. Tirava e punha os óculos para ter bem a certeza que não estava a sonhar. Chamou o resto da família e os vizinhos aos gritos e dançando ao ritmo da música que teimava em sair do velho transístor, abraçou-nos a todos, esfusiante.
A vida de Griselda mudou naquele dia. Para nós, apenas um par de óculos a menos. Para Griselda, um milagre.

milagre de griselda
milagre de griselda
milagre de griselda
milagre de griselda

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

Últimos comentários
  • Que bonito Isabel.. Bonito o que escreveste, bonito o vosso gesto, nobres os vossos servicos num país que é meu também. Bem hajam. Continuem a aparecer numa regiao one sao muitos os amigos que vos esperam. Bem hajam.

  • Para os viajantes, um par de óculos a menos, Para griselda, um milagre. e para mim, um orgulho imenso, e a sorte que é fazer parte da tua família.

    parabéns pela nova “Ma” do doma, e, keep up – são uma inspiração!

    • obrigada querida sobrinha. A tua contribuição para o arranque do doma(antigo) foi valisíssima como sabes. O Tiago deixou lá a marca dele, especial como sempre. Bj

  • Quando o nosso foco são os outros, a ajuda surge naturalmente, bondosamente… Muitos parabéns pela história e pelo gesto, que fez seguramente toda a diferença na vida da griselda!

    • Obrigada pelo comentário. O gesto não foi meu, foi colectivo mas quem ficou sem óculos foi mesmo o manuel.

  • Um espanto!!!

    Muito bem contado e escrito.

  • Uns chamam coincidência, outros sorte, outros, cada vez em menor número, milagre mas o que é certo e importante é que a griselda ficou um pouco mais feliz, o manuel um pouco mais piTosga e eu muito orgulhoso pela irmã QuE tenho.

    De resto chamem-lhe o que quisErem

  • Ficou lindo. Foi um prazer reler. Beijo Tóze

  • Pois é. Gente com tão pouco e que tanto nos dá. Esta alegria imensa de com tão pouco tanto bem fazer não é mensurável. Pelo bem que nos faz. A nós…

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