De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Acaba de falecer com 90 anos, em casa de sua filha na África do Sul, um dos espíritos mais criativos do século XX português, reconhecidamente um dos maiores mestres da arquitetura da África Austral, e um dos mais distintos artistas que jamais viveu na África lusófona. Pancho era um espírito rebelde que se recusava a ser arrumado … que não fosse pelas categorias teóricas que ele próprio criava e que eram, digamos assim, categorias metafisicamente abertas referentes a um mundo alternativo. Durante quase uma década, ajudado por um escultor africano que ele tinha salvado da falência porque já ninguém lhe comprava as bacias de madeira agora que havia plástico, Pancho foi construindo maquetes dos templos, dos barcos e dos comboios desse tal arquipélago de utopia onde vingavam, aí sim, as categorias analíticas que ele ia inventando. Toda uma obra de escultura da qual não aceitava separar-se e que continua a estar ainda muito pouco estudada.

Por princípio o Pancho discordava, exceto se lhe propuséssemos um jogo em comum. Aí, se ele vislumbrasse faísca criativa no parceiro, entrava no jogo e dava livre e generosamente da sua criatividade expansiva e da sua cultura geral gigantesca. Em jovem, foi assim que ele primeiro me fascinou: colaborando com o meu pai na concepção (e por vezes na construção) de edifícios fascinantes para a Igreja Anglicana de Moçambique. Duas mentes mais opostas era difícil de imaginar e, no entanto, postos ao serviço de um ideal comum, trabalhavam em conjunto com um empenho e uma criatividade prática, que quem viu, nunca esquecerá.

Nessa década de 60, Pancho era pintor, era poeta, era filósofo, era mestre, era construtor, era arquiteto e tinha reunido à sua volta (em sua casa, sob a varinha mágica da Dori, sua mulher e colaboradora) um grupo de jovens artistas moçambicanos que, apesar dos brutais solavancos que a evolução política do país posteriormente dispensou a quem lá ficou, acabou por ser a raiz da vida artística do Moçambique independente. Quantos de nós em Lourenço Marques e, mais tarde, em Joanesburgo aprendeu a ver o mundo da arte e da arquitetura pela imensa coleção de slides do Pancho? Como esquecer uma dessas aulas, por exemplo, sobre um dos seus inspiradores, António Gaudi, ou sobre o surrealismo e a arquitetura? Outro exemplo: quando veio visitar os meus pais ao Porto nos anos 80, fomos com ele pelo Minho afora estudando a arquitetura das praças, um projeto que ficou sempre por acabar.

Este é um caso em que vai-se o homem mas fica a obra e os ecos da sua presença não vão desaparecer tão cedo, pelo menos enquanto houver espíritos criativos, desempoeirados e com um gosto pelo real impossível.

pancho guedes
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Como tipo, ele era uma espécie impossível: imaginador utópico e, ao mesmo tempo, construtor dedicado de edifícios onde a utopia se inscrevia em pedra sólida. Por exemplo, essa casa cujo plano tem a forma de um corpo de homem e um corpo de mulher, mas só quem vir o projeto, ou vir a casa a partir do céu é que poderá aperceber-se disso. Se, por um lado, poucos arquitetos da sua geração tiveram tantas obras construídas como ele (centenas e centenas de edifícios, a grande maioria no sul de Moçambique), por outro lado, algumas das suas obras mais famosas nunca foram edificadas … e nem ele se preocupava muito com isso. Como exemplo vale citar a famosa Catedral das Palhotas, cujo modelo de madeira ele usou durante décadas para demonstrar aos seus alunos que era possível construir edifícios simbolicamente ricos mas tecnicamente modernos usando métodos tradicionais africanos.

Outro exemplo foi o fascinante projeto para o Museu Malangatana em Moçambique que, já no fim da vida ativa, Pancho imaginou e desenhou minuciosamente (até ao fim, desenhava tudo à mão, recorrendo à letragem que ele próprio tinha concebido em jovem) sabendo bem que nem ele nem o pintor a quem ele tinha comprado os seus primeiros tubos de tinta sobreviveriam à obra. O projeto é um modelo de um edifício em princípio edificável … talvez edificável … mas realmente é uma obra de arte e, mais que isso, é uma homenagem a um dos seus principais parceiros artísticos. Mas logo o seu primeiro projeto tinha sido fabuloso no sentido literal da palavra. Ainda mal saído da faculdade, quando chegou a Lourenço Marques, ele obteve o seu primeiro emprego como desenhador da Câmara. Era a altura em que o Salazar mandava construir castelos. O jovem arquiteto teve que estudar as fundações praticamente invisíveis da Fortaleza de Lourenço Marques e desenhar e construir o que, hoje, é … o mais antigo edifício da cidade!

pancho guedes
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Havia muito de António Vieira em Pancho, não só na sua imaginação barroca e no gosto pelos encontros difíceis e as verdades improváveis. Mas também no espírito de aventureiro corajoso e verdadeiro, capaz de pegar num dos muitos 2-Cavalos que foi tendo pela sua vida fora e ir por uma qualquer picada avante, até chegar onde sentisse que havia algo a fazer. E não era caso de se dedicar a brincar só com quem fosse seu semelhante. Não, Pancho sabia ver um igual, um parceiro de brincadeiras, onde quer que ele se encontrasse. Essa era uma lição que tinha aprendido em África logo quando lá chegou em criança. Uma vez encontrado o parceiro, era ir em frente. Foi assim que construiu com o mestre pedreiro Luís Basílio a incrível estrada de acesso à casa da Eugaria, em Sintra: uma verdadeira obra de arte paisagística que se atira pela encosta da serra a baixo, revelando tudo o que Sintra pode ser. Mas foi assim também que, muitos anos antes, tendo encontrado numa missão metodista distante em Gaza um construtor iletrado que se fascinara com o que ele desenhava, inventou um sistema modelar de desenho arquitetónico que permitia que o pedreiro iletrado fosse construindo o que o arquiteto concebera, bloco sobre bloco, em séries de unidades que contava a dedo. Uma espécie de Lego para construtores. Os blocos eram produzidos juntando o cimento em pó que os missionários traziam da cidade longínqua à areia do rio que ali passava perto e que esse mesmo pedreiro recolhia saco a saco, bloco a bloco. Assim construíram em conjunto todo um complexo habitacional que ainda lá está.

Mas a magia ia ainda mais longe. A corrupção colonial tinha inventado uma regra que proibia construir edifícios de pedra na zona habitacional onde viviam as populações pobres de Lourenço Marques com a finalidade de deixar essas zonas livres para expansão imobiliária futura. Assim era fácil deslocar a população conforme fosse considerado útil por um qualquer colono mais ganancioso. O problema punha-se: como construir nesta zona da cidade uma igreja para os missionários metodistas suíços com quem tantas vezes colaborou? Aí Pancho inventou um esquema genial: fez um plano para uma igreja construída em cimento sobre rodas de cimento. Confrontadas com esta solução, as autoridades cederam e foi possível construir um edifício mais comum. A verdade, é que há poucas obras mais incisivas que esse irónico ‘manual do vogal sem mestre’ que, ludibriando o censor salazarista, Pancho escreveu e publicou nos anos 60 sobre a grande mentira que era essa ‘cidade do caniço’ que rodeava (como rodeia ainda hoje) a cidade do cimento.

pancho guedes
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Fotos de Monica Chan

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Pancho Guedes, Luís Lage
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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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