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Políticos de contrafacção

Até há uns anos, quando se falava em contrafacção, a nossa imaginação era logo transportada para aquelas ruas a fervilhar de gente em Banguecoque ou em Hong-Kong, com centenas e centenas de pequenas lojas ou bancas de rua, onde tudo se vendia ao preço da uva mijona: roupa, CDs, óculos, máquinas fotográficas, informática, relógios das marcas mais conceituadas e tudo o que mais se quisesse. Podia-se adquirir um Rolex, uns Ray-Ban, uma Nikon ou roupa da Hugo Boss por menos de metade do preço normal. Só com um pequeno pormenor: embora tivessem a mesma aparência dos objectos de marca, estas mercadorias de contrafacção eram cópias falsificadas e por isso não tinham garantia de qualidade. Ou seja, faziam a mesma vista que as verdadeiras mas não prestavam para nada.

É claro que com o tempo, a contrafacção deixou de ser exclusiva dos países asiáticos e depressa se instalou entre nós. Todos conhecemos as feiras e mercados de toda a espécie onde, entre alfaias agrícolas, ferramentas, louça de barro, alguidares de plástico e sandes de torresmos, pululam as bancas de roupa, CDs, telemóveis e muitas outras falsificações que toda a gente, de todas as classes sociais, adquire alegremente, para poder andar à moda por pouco dinheiro, nem que seja só durante uns meses.

De vez em quando a ASAE, armada até aos dentes, faz umas incursões inesperadas nestes locais, confisca a tralha toda e prende temporariamente os prevaricadores. Depois, com o tempo e o esquecimento, tudo volta pacificamente ao mesmo e todos voltamos a comprar gato por lebre.

Mas como Portugal tem fama de ser um país inovador e de ter gente muito criativa que não deixa os créditos por mãos alheias, nos últimos anos surgiu, entre nós, uma nova mercadoria de contrafacção: os políticos.

Fabricados à pressa nas “jotas” dos vários partidos, com falsos títulos de Drs e Engºs atribuídos por universidades de qualidade duvidosa, apresentam-se com aspecto modernaço e bem-falante e vendem a banha da cobra por todo o sítio onde passam. Só comem em restaurantes de luxo e deslocam-se em carros topo de gama que inevitavelmente, entram e saem pelas traseiras. Mas viajam quase sempre em classe turística, para dar o exemplo, dizem. Andam, geralmente, rodeados de jovens bem aprumados, com porte atlético e óculos Ray-Ban (de contrafacção), que os guardam como quem guarda um tesouro e que impedem zelosamente qualquer tentativa de aproximação mais ousada.

Mas este invólucro de luxo não resiste a uma análise mais profunda e tal como os Rolex de contrafacção, limitam-se a ser falsificações destinadas a enganar o pacóvio mais incauto. Mas o “conto do vigário” descobre-se assim que lhes abrem a tampa e lhes põem a nu o mecanismo.

Na realidade, não distinguem a verdade da mentira e confundem o que é legal com o que é moral. Tanto dizem hoje uma coisa como amanhã o seu contrário, sempre com o mesmo à vontade. Desprezam o serviço público e não respeitam, nem se interessam pelos outros. Movem-se sem escrúpulos nem ética, manipulados por interesses poderosos. Têm como principal fito o poder e a troca de influências em benefício próprio e das suas clientelas. São apenas imitações fraudulentas de estadistas verdadeiros.

E se formássemos uma ASAE só para políticos?

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Escrito por

Isabel Almasqué, Médica oftalmologista. Ex-Chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos. Ex-Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. Co-autora de vários livros sobre azulejaria portuguesa.

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