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Reflexões sobre Understanding the rise of China

Reflexões sobre Understanding the rise of China de Martin Jacques

Como pessoa cuja referência cultural é chinesa, fico contente com a perspectiva de que a China está a tornar-se um país cada vez mais importante no palco mundial. Isto apesar de eu ser de Macau, ter a nacionalidade portuguesa e uma identidade com muitas camadas. Mas no fundo sinto-me chinesa e, neste nível, concordo inteiramente com Martin Jacques que o cimento unificador da China é a sua civilização, que é muito mais antiga do que a própria nação e abrange uma população maior do que os próprios cidadãos nacionais. Certamente não penso que a civilização chinesa seja superior às outras grandes civilizações, mas acho que faz parte do processo de metabolismo histórico que ela volte a viver uma fase de dinamismo, depois de um tão longo período de declínio e auto-destruição. Conheci a China em diferentes momentos de sua história na última meia década e é extremamente gratificante testemunhar a sua evolução para melhor, apesar dos múltiplos problemas que vão a par, e ver aquelas tristes massas indistintas metamorfoseando-se em pessoas coloridas e optimistas. Só espero que esta felicidade possa alargar-se, com o tempo, a uma parte maior da população.

Esta rápida subida da China provocou reacções diversas, muitas vezes extremamente defensivas, senão mesmo xenofóbicas, convergindo com o velho discurso do “perigo amarelo”. Aqui em Portugal os imigrantes chineses são acusados de praticar competição injusta, por estarem prontos a trabalhar longas horas por pouco e pelos preços excessivamente baixos dos seus produtos. Há também quem se indigne pelo facto de muitas fábricas multinacionais, atraídas pela mão de obra barata, se terem deslocado para a China, deixando atrás um rasto de desemprego. Infelizmente, estes são factos, só falta apurar causalidades e responsabilidades. Estou convencida que o problema de concorrência injusta diminuirá com a subida de nível de vida na China e quanto às consequências sociais indesejáveis, o responsável é, no fim de contas, o mercado. Os consumidores procurarão sempre o que custa menos e os investidores irão sempre onde têm uma maior margem de proveito. Tais são as regras do jogo, não se pode segui-las só quando nos são convenientes. Portugal já foi um país exportador de emigrantes e beneficiador de investimentos estrangeiros devido à sua mão de obra barata, ainda há muito pouco tempo.

Na verdade, uma grande vantagem e ao mesmo tempo uma desvantagem da globalização da economia mundial é a des-identificação dos interesses individuais com a sua pertença nacional. Um acto financeiro pode muito bem beneficiar o bem individual de uma pessoa ou uma entidade em detrimento dos interesses mais largos do país. Eu diria mais, a tarefa mais difícil para qualquer sistema político ou económico, seja ele comunista ou capitalista, oriental ou ocidental, é gerir a dialéctica entre os interesses individuais e os colectivos. E a globalização deu ainda mais margem a esta dissociação. No meio desta actual crise, ainda não conseguimos chegar a um balanço final relativo à globalização, mas qualquer que venha a ser a conclusão, já não podemos voltar atrás. O que é certo é que, com a globalização, à parte a circulação rápida de pessoas, bens e dinheiro também circulam ideias e valores. Não há melhor travão contra a atitude de arrogância/etnocentrismo/ignorância, tanto da parte dos “ocidentais” como dos “orientais”, do que o pluralismo de ideias e as vivências adquiridas fora do nosso habitat original. Actualmente, mais do que nunca, vejo uma curiosidade e vontade mútua de conhecer melhor o outro.

Claro, em conclusão, só posso concordar com Martin Jacques que a mudança dos detentores de poder hegemónico no mundo e uma melhor representação dos países em desenvolvimento nas tomadas de decisão internacionais significarão uma democratização do poder de dominação ao nível global, uma tal transformação só pode ser bem-vinda por qualquer humanista.

Monica Chan
2011

Foto de Virginia Duran
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Escrito por

Nasceu e cresceu em Macau. Licenciou-se em Sociologia em França e tirou um curso de pós-graduação na Bélgica. Casou-se e instalou-se em Portugal em 1991, onde trabalha actualmente como tradutora de língua chinesa. Nunca perde uma oportunidade para viajar e comer coisas boas.

Últimos comentários
  • DEPOIS DA CONQUISTA ECONÓMICA DO MUNDO, TEREMOS UMA ETNIA GIGANTESCA, HOMOGENIA E XENOFOBIA NO TOPO DO MESMO.
    É TÃO FÁCIL PREVER O DESENLACE POLITICO-ECONÓMICO MUNDIAL, COMO É DIFÍCIL PREVER OS CONFLITOS CULTURAIS QUE SE APROXIMAM. VAI SER TERRÍVEL.
    SÓ VEJO UM PAÍS CAPAZ DE SER UM TAMPÃO A HEGEMONIA CHINESA. A ÍNDIA. A ÍNDIA SERÁ O FERMENTO DO MUNDO MULTICULTURAL DO FUTURO. MAS ISSO SERÁ DAQUI A UMAS DÉCADAS. PROVAVELMENTE JÁ CÁ NÃO ESTAREMOS.
    ALEA JACTA EST

  • Tenho uma pergunta: por que o resto do mundo está tão impotente perante a conquista económica do mundo pela China? Embora estejam em crise política os EUA e a Europa não deixam de ser detentores de recursos e meios de intervenção importantes.
    Também não sei se a hegemonia chinesa seria mais xenofóbica do que uma outra. Certamente a ideia de uma hegemonia por uma determinada etnia incomoda, mas existe algum exemplo que não é o caso? A questão é como impedir hegemonia num jogo cujo objetivo é a hegemonia, enquanto todos concordam sobre as regras o jogo continuará.
    Uma coisa não se pode dizer da China: falta de visão e projeto de longo prazo. A ironia está em que é exatamente o que causou tanto tormento no país no século passado: uma população gigantesca e a um governo autoritário, que hoje virou a sua força. Enquanto a democracia sofre uma crise mundial, o governo chinês consegue impor planos económicos e ambientais que de outro modo seriam impossíveis em termo de consenso, implementação e escala.
    Quanto ao papel da Índia ser o fomento do mundo multicultural, antes de mais o mundo já é multicultural, a hegemonia é que não. Ao meu ver a contribuição da Índia a este mundo multicultural é a sua existência como um país culturalmente fascinante e a resiliência da sua tradição perante a globalização, mas a sua religiosidade, o seu sistema de castas e a sua misoginia são muitos obstáculos que se opõem a abertura e tolerância.

  • O avanço da China no xadrez económico mundial está bem alicerçado nos acordos assinados no âmbito da OMC- Organização Mundial do Comércio, à qual a China aderiu no fim dos anos 90.

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