De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

My name is Pinto as well

Diz o empregado do banco onde estamos a receber o dinheiro da bagagem que não chegou.
Sinais da presença portuguesa nesta ilha da Taprobana.
Sabes o que quer dizer? Perguntamos.
A new born chicken, responde ele, radiante e a bater as asas… Gargalhada geral!
O outro chama-se Pereira.
Primeiro impacto ao chegar a este país lindo de morrer visto de cima.

Colombo é Bombaim aspirada

Ou uma Lisboa com outra cor de pele, alguns sarees, muitos tuctucs e uma imensa vegetação tropical. Moderna, limpa, arranha-céus chineses a nascer por todo o lado, respira uma atmosfera tranquila depois de uma guerra civil que a magoou e prendeu. O progresso instalou-se, compra-se tudo o que procuramos no mundo ocidental. No shopping ouve-se musica country, compra-se Zara e Mango.
Hoje foi dia de compras, a mala não chegou e vamos amanhã para as montanhas. Cansadas, com os pés e costas a darem sinal, resolvemos entrar numa das muitas casas de massagens. A Madame pediu-nos o dinheiro à entrada. Estranho… Subimos as escadas e 20 meninas punham batôn, penteavam-se, alindavam-se à nossa espera… Nem massagens sabiam dar! Fugimos espavoridas escadas abaixo e às gargalhadas. As meninas ficaram sem as clientes…

Uma lição de história e religião

Ao jantar tivemos uma lição de história e religião. Família muçulmana sufi, culta, rica, interessante e interessada. Contaram-nos a história recente do Sri Lanka. Os povos, as línguas que falavam e as que lhes foram impostas. Tudo era inglês. O estado, a justiça, a educação. O Ditador impôs o cingalês como língua oficial, proibiu a inglesa. Excepto aos muçulmanos que podiam continuar a frequentar as escolas de elite onde se continuava a falar o inglês. Os cingaleses aceitaram, o povo Tamil não. Estalou o conflito, instalou-se a violência, deflagrou a guerra. Quem ficou a ganhar? Os muçulmanos que, apartados do que se passava, continuaram o seu comércio com o mundo. O Ditador, esse, era muçulmano. Claro.
O restaurante era lindo, internacional. A arquitectura, a decoração, a iluminação e a cozinha. À mesa catolicos, indus, muçulmanos e budistas. Cinco nacionalidades, novos e velhos. E a certa altura, surpreendentemente e com grande emoção, como musica de fundo, ouvimos cantar o fado. Mariza. Que maravilha!

O trânsito

Estamos na estrada nacional, ladeada por lojas, muitas muitas lojas ao longo do percurso e portanto, muita muita gente a andar por passeios que não existem. Onde só deveriam estar dois carros, circulam lado a lado: um carro, a nossa carrinha, um tuctuc, uma mota e um outro tuctuc em sentido contrário. Numa competição feroz. Ultrapassam e são ultrapassados pela esquerda, pela direita, em contramão. E ultrapassam os que estão a ultrapassar, não importa o que lá vem. Camião, autocarro, carrinha, ou mota. A ultrapassarem-se também. Businam e levam businadelas, travam a fundo, quase quase batem, mas sobrevivem. O transito é intenso. A cada cem metros fechamos os olhos e sustemos a respiração. Passa? Não passa? As velhas atravessam a estrada calmamente e nós, depois da longa noitada de ontem, até conseguimos dormir!

Passeio

No jardim do templo budista, o monge passeava o galo. Correndo para a frente e para trás ao longo das arcadas do jardim, sorriso estampado na cara, o galo corria atras. Aproximei-me, sorri para ele, ele devolveu-mo. E ali ficámos os dois numa conversa muda cheia de paz.

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O dente canino de Lord Buddha

Resgatado das cinzas de Lord Buddha, o dente canino cedo se transformou num símbolo de poder. Disputado por reis e gerador de inúmeros conflitos, disputas e tentativas de destruição, acabou enviado da India para o Sri Lanka. Também aí saltou de cidade em cidade, sempre protegido pelos monges, fugindo dos invasores estrangeiros: Portugueses, Holandeses e Ingleses. Em Kandy está guardado num relicário de ouro, fechado a sete chaves no “templo do dente”. Esmagadas horas na multidão de fiéis vestidos de branco em dia de peregrinação, conseguimos vislumbrá-lo de relance.
À saída, na rua lateral, passava a procissão. Era dia de Santo Antônio e este era levado em andor, acompanhado de cânticos cantados pelos católicos e por altifalantes aos berros. Tarde mística.

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Elefantes

Mais uma novela vivida. Os elefantes resgatados dos trabalhos forçados e a viver sem correntes, sem passeios montados, sem pancada, sem gritos, com os quais íamos passar dois dias, foram roubados. Peter, o holandês estava tristíssimo. E agora? Que fazer? Ir ao orfanato, grande atração turistica do Sri Lanka não é opção diz ele. Mas fomos. Um pesadelo! Cada toque, cada fotografia, cada festa me pesa na consciência. Como fui capaz de ceder à tentação? Desculpem elefantes. Fui mais uma em milhares de pessoas que contribuem com dinheiro para o vosso martírio…

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Adam’s Peak

Adam’s Peak, Sri Pada ou Jabal Adam. Uma montanha, três nomes.
O topo, sagrado para cristãos, muçulmanos, budistas e hindus é local de peregrinação constante. O baixo relevo da rocha tem a forma de pé. De Adão quando aterrou expulso do Paraíso, de Buddha ao sair do Sri Lanka, de Shiva também. Sobem os peregrinos 5000 degraus durante a madrugada para olhar o nascer do Sol e rezar. Nós não.

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A família

No Sri Lanka não se vê uma telenovela. Vive-se uma telenovela. Constante. Nesta história verdadeira: Roubos, assaltos, assédios, suicídios, gurus manipuladores, bruxedos, tudo à volta de uma mesma família, a que tão bem nos recebeu. A mãe má, o padrasto sem pernas, o ex marido doente mas em casa também. A irmã suicidou-se, o negócio faliu.
Novela que começou aquando o início da construção da enorme casa há três anos. Com uma fonte e uma escada de madeira que descia do centro da sala para a casa de jantar. O Guru mandou destruir a escada. Está encostada na varanda, desce-se agora pela escada de serviço. O especialista em Feng Chui diz que, enquanto não destruirem a fonte, o mau olhado não vai parar. Mas a fonte ainda lá está.

Não consegui captar a alma do Sri Lanka

Não a encontrei. Ou a perdeu na guerra, ou está muito escondida atrás de um país vendido ao turismo. Aspiram a cultura e as regalias ocidentais, sente-se a sua influência secular. Têm ensino e saúde gratuitos. Densamente populado e motorizado. Limpos, tranquilos. Bonito o país, linda a natureza, mas pouco mais a dizer. A viagem, a companhia, adorei!
Até à próxima!

Junho, 2015

Fotos de Benedita Vasconcellos

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

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