De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Te gusta? Sacala a bailar!

Não podia declinar um pedido de dois amigos muito queridos, o Dr. Mané (como o trato) e a Minnie, essa esposa, companheira inseparável, cúmplice e solidária.

Ambos, mais que figuras, tratam-se de personagens que admiro, com uma filosofia de vida que compartilho, aprecio e acabo por disfrutar, tanto como eles, o que gozam da vida e na vida.

Vivo há quase 28 anos na República Dominicana onde vim parar, por casualidade, ao serviço da Empresa para a qual trabalhei até muito recentemente.

O Mané e a Minnie, privilegiam-me com visitas regulares a este “mini Moçambique” onde reencontrei muitas afinidades com a vida, cultura, flora e geografia da minha Terra Natal.

HAY UN PAÍS EN EL MUNDO

Hay un país en el mundo
colocado
en el mismo trayecto del sol.
Oriundo de la noche.
Colocado
en un inverosímil archipiélago
de azúcar y de alcohol

Excerto dum poema de Pedro Mir, declarado pelo Congresso Nacional, “Poeta Nacional de la Cultura Dominicana”.

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Pois, aqui estou, estarei e continuarei a estar, queimado por este sol tão intenso como o do meu Moçambique. Sol que torra o açúcar pegajoso com que as suas gentes adoçam e cativam os que chegam, o mesmo sol que aquece, sol que destila o álcool que nos embriaga, nos “emborracha”, nos sequestra, nos apaixona.

Falar sobre o que representa o “baile” na cultura da República Dominicana? Que difícil, especialmente para um leigo, embora na minha infância, talvez até aos 14-15 anos, tenha tocado acordeão…

Menciono o acordeão, justamente porque com a guira/guitarra e o tambor, são instrumentos ligados à história musical do país e às origens do seu estilo de música e de baile, o tão exótico, erótico e alegre merengue, fusão de várias influências culturais : europeia (acordeão), africana (tambor) e a taína ou aborígene (guira/guitarra).

Quando aqui cheguei, surpreendeu-me a importância que o baile e a música tem nesta sociedade tão jovem cuja média de idades, é de 25 anos.

A população vive bailando. Em casa, no trabalho, na rua, nas praias, nos colmados (pequenas mercearias de bairro), por toda a parte, desde o amanhecer, até ao reamanhecer, 365 dias por ano e porque não, 24 horas diárias.

O menor acorde musical, vindo donde vier, até cantado pelo cantor mais desafinado, é pretexto para uns passos de dança, uma viravolta ao caminhar ou um golpe de cintura como só os dominicanos sabem fazer.

Os ritmos afro-“antillanos”, são verdadeiramente contagiantes…

Quando aqui cheguei, não foram poucas as vezes em que me apresentei em diversas instituições, tanto privadas como públicas, para tratar de diversos assuntos e acabei por sair irritado, sem conseguir compreender porque me faziam esperar tanto.

Pouco a pouco fui entendendo que enquanto esperava, tinha inevitavelmente de me render à música proveniente dum pequeno rádio já rouco de tanto tocar uma música esganiçada, com as pilhas super espremidas, pedindo socorro e resgate de dançarinos tão insaciáveis.

Pois o Mané, a Minnie e a Vanda, chegaram sexta-feira à noite, 6 de Fevereiro, cheios de frio. Levei-os a comer comida “criolla”, gostaram do caranguejo, dos “fritos verdes”, do mofongo e saíram quentinhos.

Traçámos o plano da sua estadia na cidade de Santo Domingo antes de seguirem para Samaná.

Combinámos que no domingo à tarde, iríamos ver o Grupo Bonyé, um conjunto musical local, uma pequena orquestra duns 12/15 elementos que todas as semanas dá um concerto gratuito ao ar livre, das 5 da tarde às 10 da noite, junto às seculares ruínas do Mosteiro de San Francisco (século XVI) na “Zona Colonial”, o centro histórico de Santo Domingo.

Perante a presença dumas 600 pessoas, quando chegámos, já se dançava ao ritmo estonteante de merengue, son, salsa e bachata, magistralmente executados, homenageando e amenizando a convulsiva história do nosso Monumento Bandeira, primeiro mosteiro do Novo Mundo, dilacerado cruelmente ao longo da sua existência, em que até Francis Drake teve papel de protagonista com o seu saqueio.

Muita gente, muita cor, muita luz, muita alegria, muito baile, bastante cerveja, bastante rum.

Todos em uníssono, cantando, comungando propósitos, prazeres, vibrando ao som de música de superior qualidade, contagiados pelo bem bailar, recreando-se numa harmoniosa e cadenciada contorção corporal, própria de grandes executantes, da melhor coreografia que lhes sai da alma.

Ai daquele que não saiba bailar. Não saber bailar neste canteiro à beira mar plantado, é sentença certa de exclusão, de “morte”…

Terrunho colocado no mesmo trajecto do sol, oriundo da noite, colocado num inverosímil arquipélago de açúcar e álcool, de quentes donzelas, esculturalmente torneadas, eroticamente sacudindo cinturas num sobe e desce em espiral, a palavra de ordem é: MERENGUE, MERENGUE, só MERENGUE!

Não tínhamos acabado de chegar e já o Mané e a Minnie estavam na pista de baile, um rudimentar estrado em madeira, confundidos entre tantos e tantos, obcecados pela música, absortos pelos seus rendilhados movimentos que nos fazem vibrar e todos queremos imitar, embora não possamos ir mais além do que a intenção.

“Que rica Hembra. Está chula. Que Mamasota! Te gusta? Sacala a bailar”.

Pois aí é onde a porca torce o rabo. “Sacarla a bailar” não será tão difícil, já que esse convite é sempre atrativo. O difícil é acompanhá-la na sua arte congénita própria de todo o dominicano, verdadeiro artista do baile.

Não obstante, o atrevido Mane “sacó a bailar la rica hembra, chula, una Mamasota”, Minnie de seu nome, bailaram toda a noite, tiraram intermináveis fotografias, “y la cosa le fue tan bien” que se retiraram juntos, entraram no mesmo hotel e dormiram toda a noite na mesma cama…

Que façanha. Grande Mané. O que aconteceu? Não me perguntem, mas imagino…pois pelo que vi enquanto dançavam, a Minnie aprendeu rapidamente a dar uns tremendos golpes de cintura “y por ahí, se levantó a Mané”.

P.S. Espero ter correspondido ao que os meus amigos queridos, Minnie e Mané me pediram… A todos aqueles que se atreveram a ler até ao fim o que escrevi, apareçam pela República Dominicana que iremos todos levantar tanto “Mamasotas” como “Papasotes” ao som dos Grupo Bonyé, y beber “un par de frías” y de “tragos”.

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 PAISAJE CON UN MERENGUE AL FONDO

………bailemos un merengue
un furioso merengue que nunca más se acabe.

-¿Qué somos indolentes? ¿que no apreciamos nada?
¿Qué únicamente amamos la botella de ron,
la hamaca en que holgazando quemamos el andullola
del ocio en los cachimbos de barro mal cocidos
que nos dio la miseria para nuestro solaz?

Puede ser; no lo niego; pero ahora, entre tanto,
bailemos un merengue que nunca más se acabe,
bailemos un merengue hasta la madrugada;
…….

Puede ser; no lo niego; pero ahora, entre tanto,
bailemos un merengue que nunca más se acabe,
bailemos un merengue hasta la madrugada:
……..

Puede ser; no lo niego; pero ahora, entre tanto,
bailemos un merengue que nunca más se acabe,
bailemos un merengue hasta la madrugada:
………

Puede ser; no lo niego; pero ahora, entre tanto,
bailemos un merengue
Bailemos un merengue hasta la madrugada:
el furioso merengue que ha sido nuestra historia.

Excertos de Franklin Mieses Burgos, poeta dominicano (1907 – 1976)

Nuno Tristão da Silva
Abril, 2015

Domingo à noite com os BONYÉ

Grupo Bonyé

Bonyé nasce da iniciativa de um grupo de 5 amigos, nenhum deles músico de profissão, Félix Amado Báez, engenheiro civil, Franklin Soto, cineasta e actor, Néstor Sánchez, sociólogo, Roberto Bobadilla, engenheiro civil y Chino Méndez, especialista em marketing.

Amantes da música e cada um deles dedilhando um instrumento, tocavam episodicamente por hobby em confraternizações privadas, tertúlias e aniversários de amigos comuns.

A qualidade da sua música, catapulta o Grupo Bonyé, atrai atenções, mobiliza intenções e o seu protagonismo adquire outra dimensão com a integração de músicos consagrados, Memo, Chichí Ruiz, Ite Jerez, Whollfan Mejía, Andrés Merejo, Luis Miguel, Carlos Gómez, El Conejo, Junior Guío, Julián Jácquez, Juancitón e os maestros Nelson Eddy, Darío Estrella y Carlos.

Constituído por excelentes executantes, o Grupo Bonyé traduz-se nuna multiplicidade instrumental notável, com vários músicos de percussão, instrumentos de sopro, cordas, etc.

As suas actuações mobilizam e aglutinam os verdadeiros amantes da boa música afro-antilhana que se deleitam ao som da sua extraordinária música, juntando-se com muita frequência quem queira também tocar, cantar, ao estilo de actuação duma “big band” em “jam sessions”.

Qual o significado de Bonyé ?

Dois dos melhores dançarinos regionais de son, ritmo cubano, eram conhecidos pelas suas alcunhas, Sr. Bonyé falecido no dia 14 de Outubro de 2007 e a sua companheira de dança D. Chencha, ainda viva.

Em homenagem a esses dois símbolos do excelente bailar, D. José María Guerrero e D. Inocencia Paredes, o grupo adopta o nome de Bonyé.

Ambos dominicanos, bailaram juntos durante mais de 50 anos, convertendo-se em personagens emblemáticos da “cultura sonera” local.

Chencha e Bonyé, conquistaram vários troféus nacionais e internacionais em concursos de baile, nomeadamente em Cuba, país de origem do son.

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Fotos e video de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Nasceu em Inhambane em 1953. Trabalha na industria farmacêutica desde há longa data. Vive em Santo Domingo na Republica Dominicana desde 1987.

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