De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Tempos modernos

Nunca como agora se viram tantas iniciativas culturais ligadas ao conceito e à reflexão do que pode ser um “Próximo Futuro”, aqui como no mundo.
Aliás um dos aspectos mais interessantes é precisamente o de um “aqui” que não se pode separar do “ali” que é o resto do mundo: de todo o mundo.
O bater de asas da borboleta do tsunami no Japão afecta pensamento e iniciativas que na Europa se prenderiam com mais ou com menos nuclear; acelera a ideia, também ela discutida, (discutível?) das energias renováveis, e por aí adiante.
A fome em África faz reviver o problema, que nunca chegou a ser bem aprofundado, dos biocombustíveis como forma de energia: gasta-se o milho que se deveria comer, as terras ficam ao abandono, gretadas e feridas quem sabe para sempre, como essas populações que só de vez em quando são trazidas aos écrans da televisão. Então explora-se o grande plano da criança morrendo ao colo da mãe.
A Amazónia resiste, mas os seus guardas vão sendo abatidos: ficam as memórias filmadas de algumas declarações em documentários do National Geographic.
Tudo isto me ocorre ao ver, mais uma vez, a obra de arte que é o filme de Chaplin
Tempos Modernos: datado de 1936, recentemente restaurado e remasterizado, aí está de novo disponível, com a sua eterna lição.
O argumento é aparentemente simples: a vida de um operário numa fábrica em que a velocidade de produção é a regra imposta, a cobiça do lucro aliada à ideia de uma inovação tecnológica que poupará mão de obra ( e que acaba por falhar), uma grande crise – como a de 1929, mas que podemos adaptar ao que se passa agora nos EUA e na Europa – o enorme desemprego causado pela crise, que leva ao encerramento das fábricas, à miséria, à fome, ao desespero social com os consequentes roubos, prisões, convulsões variadas.
Um tema bem actual, um tema de “Próximo Futuro” já presente, e também entre nós.
O sentido de humor e o riso não apagam a gravidade dos temas; e como em todos os seus filmes, um fiozinho romântico, ligando a bela Paulette Godard a Chaplin-Charlot, permitirá que na celebração da fraternidade e do amor se recupere o sonho da felicidade desejada.
A utopia de um falso progresso em que se vive, também hoje, corre o risco de ser mais do que um sonho adiado um verdadeiro pesadelo. Recomendo que se revisite o filme, há verdades eternas.

Yvette Centeno
Junho 2011

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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