De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Trump, trumpe, trumpe

Fomos dormir na terça certos que a coisa se arranjava e, na quarta feira de manhã, quando acordámos: Trás!!!!!! Afinal, era a sério, quem tinha razão era ele! Lá na ‘Terra dos Heróis’ a malta elegeu mesmo esse tipo insalubre. Trump, trampe, trampe: a irracionalidade ao poder. E, já agora, quem é que gostava mesmo da Mrs. Clinton? Era a tal história do mal menor, mas agora bem vemos ao que levou a nossa cobardia.

O jornal que leio diariamente abre a primeira página com um chavão: ‘Trump líder do mundo livre!’ Trata-se de um jornal que não é dominado pelos magnates da imprensa e, por isso, é de baixa circulação e só acessível online. A intenção da frase era irónica. Só que, para que o fosse, era preciso acreditar em duas coisas: (i) que há um ‘mundo livre’ e (ii) que os EUA o governam de uma forma indirecta qualquer. Ora nem uma, nem outra. Aliás, o Berlusconi, o Putin, o Erdogan e o Trump andam há muito tempo a alertar-nos para isso. Porque não os ouvimos nós? Estávamos excessivamente imersos numa jogatina demasiado divertida para podermos abdicar dela: direita/esquerda, esquerda/direita, direita/esquerda, meio, meio, meio… ‘É no meio que se ganham eleições’, continua a debitar esse desavergonhado do Blair, como se isso justificasse os seus crimes de guerra! Mas entre a direita e a esquerda já não há meio—porque a polarização há muito que é falsa. No meio só há desonestidade e desvergonha! Não é no meio que, a partir de agora, se ganharão eleições porque deixou de haver uma classe média para sonhar com esse meio.

A força da tradição, a timidez, o respeito pelos mestres que nos formaram nos anos 70—tudo isso contribuía para não querermos ver que o mundo mudou muito à nossa volta e que esta democracia-de-circo, esta comédia das sondagens erradas, estas noitadas televisivas com copos, estas grandes celebrações eleitorais de rua, a esperança de um tacho com o novo governo, ou de uma vingançazinha dos que obtiveram tachos do governo anterior … tudo isso contribuía para continuarmos a identificar democracia com este sistema eleitoral que temos. Como se eleger políticos profissionais, mediatizados, irresponsáveis e ignorantes fosse ‘estar livre’, ter democracia: um governo pelo povo e para o povo!

Aliás, há muito tempo já que nós sabemos que a instância relevante para a qualidade das nossas vidas não é a instância nacional; que o sistema eleitoral deu lugar a uma classe política cínica; que os jornais controlados por forças multinacionais manipulam o que os votantes decidem; e que esses magnates que controlam o que se lê pelas ruas (o Trump, o Murdock e outros assim) não se movem em nome de uma qualquer agenda propriamente política. Eles estão-se nas tintas para o bom governo da nação.

Senão vejamos um outro caso: quem foi mesmo que promoveu o Brexit? Certamente não foi o Cameron; esse achava arrogantemente que ia conseguir fazer o povo votar pela negativa! Os tablóides que mobilizaram os oprimidos do norte da Inglaterra para o voto no Brexit não foram movidos por interesses propriamente políticos. Os interesses que eles servem não visam políticas e nada têm a ver com democracia no sentido de governo do povo para o povo. Senão como é que uma populaça empobrecida, sub-empregada e mal paga votaria contra a existência de um serviço nacional de saúde gratuito ou apoiaria o gasto inútil em submarinos nucleares, ou na guerra da Síria?!

Outro dia, um grupo de cidadãos preocupados dirigiu-se ao Tribunal de Grande Instância inglês para pedir que confirmasse se, para alterar o estatuto político da nação, afastando-se da União Europeia, o governo não deveria consultar o Parlamento. Os juízes declararam que os cidadãos em causa tinham toda a razão. No dia em que se soube da decisão, passei em frente a uma bancada de venda de jornais em Canterbury: fiquei boquiaberto! Para mim a decisão tinha sido óbvia e inevitável: mas os jornais populares (até mesmo o Times), tinham montado uma campanha contra os juízes baseada em fotos ofensivas e chavões grosseiros, cuja finalidade era desautorizar o poder judiciário. Até o facto de um dos três juízes ser publicamente gay vinha à baila!!! Quem promoveu isto?

Na origem dessa vergonhosa campanha não se vislumbra a agência de políticos, como o Farage ou o Boris. Entrevê-se, outrossim, a mão de quem tem interesses que não são nem de direita nem de esquerda. Mas, sobretudo, não são valores patrióticos, porque não são interesses que se prendam com a boa governação da nação. O governo é nacional, os eleitores representam a nação, a política deveria ser dirigida por fins patrióticos. Mas os interesses desses jornais e dos políticos que lhes fazem o servicinho não são nem nacionais, nem duradouros—essa, aliás, é a questão principal. São interesses circunstanciais; porque são medidos pelo subir e descer de um qualquer índice. Eles querem vender jornais, querem sugar o estado, querem enganar as populações não pagando impostos mas recebendo subsídios, querem manipular políticos, querem afastar a atenção das pessoas das causas importantes. A finalidade do bem estar comum do povo inglês não lhes passa pela cabeça.

O problema com a polarização política esquerda/direita é que ela é fundada no pressuposto de que o mundo é essencialmente partilhado em termos da acção humana sobre os bens materiais. Acontece que hoje vivemos num mundo onde o controle directo dos bens materiais é largamente irrelevante; onde o controle da informação é a questão central e o acesso aos bens materiais é mediado por complicadíssimos mecanismos informáticos. O que move o nosso mundo não é o trabalho mas o consumo. O que antes eram direitos, são agora privilégios. Num mundo globalizado mas onde só alguns circulam, o trabalho e a cidadania passaram a ser um privilégio que só a alguns é concedido. Por isso passou a ser possível comprá-los, como assistimos em Portugal ultimamente.

Os privilégios não são medidos por valores universalistas. O nosso mundo é um mundo estranhamente igualitário, porque os privilegiados são os que conseguiram controlar de uma forma ou outra os meios de informação e, dessa forma, exercem pressão sobre os restantes. Não há nada que os distinga para além do poder económico que detêm. Os tais 1% que agora são mais e mais donos do nosso mundo não o são por serem desta ou daquela raça, desta ou daquela religião, desta ou daquela ciência. Eles controlam e por isso têm privilégio, ponto final! Nós, os restantes, somos estúpidos—como o Trump deixou bem explícito quando explicou que, se não pagou impostos durante mais de vinte anos, é porque é mais esperto do que nós.

É errado pensar que os que apoiavam Passos Coelho, os que votaram Trump ou Brexit, os que adoram Erdogan ou Putin, os socialistas espanhóis que viabilizaram mais um governo PP… é errado pensar que essas pessoas sejam estúpidas, incultas, ou imorais. Mais ainda, eles são movidos nas suas decisões políticas por sentimentos emocionais genuínos: os votantes do Brexit (tal como os apoiantes do Erdogan ou do Trump) têm toda a razão para gritar—só que se enganam no inimigo. Contrariamente ao que pensam, não foram os imigrantes polacos nem os eurocratas de Bruxelas que retiraram ao inglês médio os privilégios que tinha conseguido obter no período do pós-Guerra. De facto alguém lhos retirou, sobre isso não há dúvida: não há emprego para os jovens, as reformas dos mais velhos foram barbeadas radicalmente, o sistema nacional de saúde está em pantanas, a educação está cara demais para os pobres, o pouco trabalho que ainda há é pago a taxas inferiores ao nível mínimo requerido para a sobrevivência de uma família, já nenhum jovem consegue comprar casa, etc.

O mal é que nós não víamos que se tratava de um privilégio. Achávamos que ter trabalho era um direito. Mas, num mundo em que o controle da informação é o que conta e em que a produção não depende imediatamente do trabalho, não é o engajamento directo com o mundo que determina quem tem maior ou menor acesso a bens materiais. A ditadura chinesa tem até hoje conseguido escapar um pouco ao controle das instâncias internacionais porque controla a informação—a isso se deve o sucesso actual da China. Mas esse outro ‘mundo livre’ que o Presidente dos EUA supostamente governa é livre para quê e para quem? Ele é livre para que interesses? Como podemos nós pensar que um governo nacional como o nosso governo português, que é mais pequeno que o da municipalidade de São Paulo, pode controlar os interesses transnacionais? Será que ao menos os portugueses aprenderam a lição de 2008, quando a Europa os abandonou nas mão dos agiotas internacionais? Quando a própria União Europeia é dirigida em sucessão por um homem que trabalha para a Goldman Sachs e depois por outro que passou a sua vida a montar um gigantesco sistema de fuga ao fisco, que género de ‘liberdade’ é essa que nós temos cá no tal mundo livre?

Sugiro que, pelo menos como exercício, valeria a pena considerar a hipótese de que, em termos de intervenção política, o nosso mundo está dividido em três tipos de agentes: A, B e C.

‘A’ são os que votam pelo Trump, pelo Erdogan ou pelo Brexit e que acreditam no que os tablóides lhes dizem porque se sentem ameaçados, porque sabem que já não têm privilégios. Eles são muito consumidores e pouco produtores—porque, não tendo acesso a trabalho honestamente remunerado, não podem deixar de pagar a conta da electricidade e a renda ao fim do mês.

‘B’ são os que têm vindo a perder as eleições e que estão preocupados com a desigualdade rampante neste mundo, com a destruição ambiental, com o morticínio que se está a passar no Médio Oriente, com a destruição da assistência estatal, com a redução de direitos dos povos indígenas e dos pobres, com o crescente discurso racista, com a xenofobia apresentada como se fosse nacionalismo, com a desautorização da justiça onde ela ainda existe e com a sua manipulação corrupta onde ela nunca existiu (como no Brasil), etc. Estes são os que estudaram os dossiers, leram os livros, informaram-se sobre as implicações das políticas e têm uma opinião que, assentando sobre os interesses que eles acham que têm, é guiada também por valores universalistas, pela procura do ‘bem’. Esses são mais produtores que consumidores, porque retiveram a capacidade de acção através do recurso à educação.

‘C’ são os que se estão nas tintas para tudo isto. Eles controlam os sistemas de informação, tanto em termos de acesso a bens materiais como a poder político. São os Neros que vêm Roma a arder e continuam a tocar a sua harpa. Não lhes compete salvar o mundo, não foram contratados para isso mas para fazer dinheiro—o resto é treta. Note-se que estão muito para lá do consumo, nunca o que gastam consegue sequer comparar-se com o que ganham. As pessoas que movem mesmo as cordas, bem protegidos que estão por cima do véu mediático—pessoas como o Murdock ou o Sheldon Adelson—genuinamente, já nem sabem onde pôr a fortuna. Aliás, é isso que está a causar a recessão económica global a que estamos a assistir. Quando chamamos a atenção para isso, os ‘A’ dizem que somos profetas da depressão; por seu lado, os ‘C’ riem-se a bandeiras despregadas.

Trump, trumpe, trumpe
Trump, trumpe, trumpe

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Há, de facto, uma espécie de correspondência de classe entre ‘A’, ‘B’ e ‘C’. Mas não é de forma alguma absoluta: conheço ricaços que têm interesses humanitários genuínos e que sabem amar as suas pátrias; conheço intelectuais que se venderam aos interesses escuros do 1%; conheço gente abastada que reage politicamente como se fossem texanos. Mais ainda: a questão moral é ambígua, porque ela confunde-se com os aparelhos ideológicos montados por religiões. Subsidiados pelos ‘C’ da Arábia Saudita e dos EUA (pessoas como as famílias Bush ou Bin Laden), os ‘A’ convertidos ao wahabismo por esse mundo fora prestam-se a servir guerras santas que acabam sempre por se virar contra eles. Mas o Islão fundamentalista não é assim tão diferente da crença no Brexit ou do evangelismo pentescostal brasileiro. Matam menos, mas são ambas reacções igualmente desesperadas por parte de pessoas que não conseguem ou não têm coragem para entender a condição em que se encontram.

Em suma, no tal ‘mundo livre’ onde hoje há eleições—como em Angola, Moçambique, Filipinas, Rússia, Espanha ou Estados Unidos—elas têm vindo a ter resultados crescentemente grotescos, que não correspondem de todo aos interesses dos povos que votam. Chamar a isso política de direita é simplesmente vendar os olhos. Não há nada de direita em não concordar com o que se está a passar na União Europeia e no seu desgoverno e não há nada de esquerda em ter medo do aquecimento global. Que é que há de direita na ditadura que o Erdogan instituiu? O partido do Cameron e do Osborne chama-se Conservador, mas não há nada de ‘conservador’ na rapina das infraestruturas públicas a que se tem assistido na Inglaterra das últimas décadas.

Na minha opinião o que se está a passar é largamente culpa dos ‘B’. Movidos por conformismo e por falta de coragem, não conseguiram passar a mensagem: deixaram que o Assange ficasse preso na embaixada onde ainda está e que o Snowden continuasse semi-preso na Rússia. Protestaram contra a ‘austeridade’ mas logo se adaptaram a ela, cada um o melhor que pode. Movidos por falta de imaginação não perceberam que era preciso explicar mesmo a sério aos ‘A’ ingleses que sair da UE só lhes ia fazer mal (em 2017 a descida de nível de vida corresponderá ao valor de compra de mais de 2000 libras por pessoa); que era preciso explicar aos ‘A’ dos EUA que há maneiras de reduzir a circulação de armas sem que as pessoas corram riscos, ou que há formas de controlar a criminalidade que não passam por matar rotineiramente homens negros, ou ainda que é o Trump, e não os mexicanos, que lhes roubam os empregos.

Chegámos ao ponto de sermos obrigados a votar por pessoas como a Hillary Clinton—que não só pertence ao 1%, como ainda tem uma longa carreira de servir os interesses dos ‘C’ deste mundo. Pensávamos cobardemente que, assim, seria possível fugir ao descalabro. Não foi! Não digo que o mundo acabe amanhã por causa do Trump. Felizmente que não! Digo só que a coisa vai mal: estamos a destruir o mundo à nossa volta; a economia está em recessão e não será por pouco tempo; a corrupção está rampante por toda a parte; a chacina bélica, a violência política espúria, a violação, a tortura, o racismo, a xenofobia estão em crescimento. A coisa não vai nada bem e quem quer receber só boas notícias não merece nem o amor nem o respeito do resto da humanidade.

Os ‘B’ têm que se juntar e começar a esforçar-se no sentido de não deixar que os ‘A’ façam o trabalhinho dos ‘C’. Não creio que tal passe pelo abandono do regime eleitoral e particularmente continuo fiel ao valor da representação parlamentar. Apesar de tudo, se calhar, sempre é melhor que uma ditadura, por muito benévola que essa seja. Só que ditadura e eleições não são contraditórias. Já vimos há muito que a democracia não nos protege contra a ditadura e o desgoverno: o Hitler, o Erdogan, o Putin, o Trump, o Temer, são tudo exemplos disso. Aliás, se hoje houvesse eleições na China, a probabilidade maior é que o Xi Jin-ping ganhasse com maioria absoluta.

Eu sei que não existe um verdadómetro—essa tal máquina utópica que mediria o teor de verdade em cada afirmação. Mas também sei que há mentiras que não deveriam nunca passar. Veja-se como os comprovadamente corruptos conseguiram afastar do governo do Brasil, acusada de corrupção, uma mulher sobre a qual não há qualquer suspeita fundamentada de corrupção! Também ela fez o jogo do meio, também ela se convenceu como os restantes ‘B’ que vai tudo acabar por dar certo. Mas não deu, pois não? E não vai dar se não começarem os ‘B’ a encontrar forma de cancelar a manipulação que os ‘C’ fazem dos ‘A’.

Os ‘A’ não têm que ser sempre desinformados e ignóbeis—noutros momentos da história, as emoções dos ‘A’ foram movidas por ideais mais altos: liberdade, justiça, humanidade, igualdade. Quem se esqueceu já do 25 de Abril em Portugal? Há formas de lutar contra os Murdock; há formas de manietar os que os servem; há formas de explicar aos outros espanhóis que os catalães têm direito à sua nacionalidade; há maneiras de mostrar que o surto de emigração está ligado com a guerra entre os sunitas e shiitas que os Estados Unidos andam a promover devido aos seus interesses petrolíferos; há formas de explicar que a posse de armas de guerra em mãos de privados não é precisa para a segurança das famílias; há formas de envergonhar os racistas; há meios de mostrar que Deus não mandou oprimir as mulheres, matar os homosexuais, ou cortar as mãos aos que roubam para comer; há meios para valorizar perante as populações os valores históricos da nação; há formas de patriotismo que não são xenófobas; etc.

Temos todos um grande trabalho para fazer. Não me venham com histórias de esquerda/direita, de meios, ou daquilo que o Deus dos outros acha, mas o nosso não. Hoje, temos que viver todos juntos neste nosso mundo que é cada vez mais pequenino e ameaçado. Aqui todos os deuses têm o mesmo direito, por isso o melhor é começarmos a ater-nos ao verdadómetro e a convencer os ‘A’ de que há formas melhores de viver e que é possível ser bem governado por gente normal.

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

Partilhar
Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

Sem comentários

COMENTAR