De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Texto para este centenário que agora corre, do Vergílio Ferreira

O progressismo é a grande carreira. E é uma carreira fácil. Cita-se Marx. Assinam-se protestos. Escrevem-se artigos em louvor de escritores “porreiros”…

Uma carreira faz-se não com o que se é, mas com o que se exibe ser-se. Da superfície para baixo todos os lodos são permitidos. Ó país do tamanho de um papel higiénico! O teu lugar não é na História ou na Geografia. O teu lugar é no lugar do papel higiénico. Meu Deus. E eu que não quero lá estar. Mas estou. E essa diferença é que me trama. Porque toda a diferença é um estigma (in Conta-Corrente 1 ).

Um dos últimos livros que Helder Godinho, responsável pelo espólio de Vergílio Ferreira, publicou, tem por título ESCREVER.

Devia ser obra de referência nos cursos agora tão à moda, de Escrita Criativa.

Tive o gosto de conhecer pessoalmente este autor, nos antigos jantares do Pen Club, numa ou noutra tasquinha da baixa, ao Chiado, e regra geral éramos dos primeiros a chegar – vício da pontualidae, que ambos partilhávamos.

vergílio ferreira

Chegava um pouco depois Sophia de Mello Breyner, que escolhia uma cadeira à frente dele – isto é para me provocar, dizia-me ele, ela sabe que eu não lhe falo, desde aquela célebre viagem ao Brasil “em que sequei no lóbi do hotel, à sua espera, quase uma hora. Julgava-se mais importante..”. Vergílio no melhor, aqui, do seu azedume, que eu na realidade, muito mais nova, não conseguia levar a sério e nem por isso deixei de gostar deste escritor filosofante e austero, de língua afiada nos seus diários. Fomos ambos publicados, a dada altura, na mesma Portugália Editora por um comum amigo, felizmente ainda activo, o José da Cruz Santos! Aqui fica já um abraço de gratidão.

Quanto aos encontros do Pen, com aquela insistência nos atrasos da Sophia, mas sempre sentados perto um do outro eu achava que serviam de aperitivo para alguma conversa, já a caminho da usual intriga literária, sempre de alguma má língua, ou não fôssemos portugueses…(à roda de uma mesa, com outros, todos os portugueses são linguareiros, ainda que depois se despeçam com grandes abraços de até breves).

Eu ria. Escolhiam-se os pratos, as sobremesas… Aquela era uma antiga zanga, destas que existem, de estimação, e não mais do isso. Por exemplo a Sophia comentava do então já muito à moda mas ainda jovem estruturalista Eduardo Prado Coelho, que “ele lia mais do que entendia”. Gargalhada na mesa, David Mourão-Ferreria esboçava um sorriso, era colega do pai na Faculdade, o Prof. Jacinto Prado Coelho, mas quando ele chegava, com ou sem o pai, já o riso tinha terminado. O pai era um Mestre, na Faculdade de Letras e eu ainda lhe devo, com gratidão, que fosse publicado na Ática o meu romance As Palavras Que Pena (1972). E quanto ao Eduardo, ele era quem trazia de França as últimas novidade, leituras, filmes, de tudo um pouco, do muito que faltava em Portugal. E por ele gostar da Marguerite Duras, que eu idolatrava, nunca me juntei às críticas mais ferozes, embora soubesse que ele não era apreciador do que eu pudesse pensar ou escrever. Talvez porque eu vivia grande parte da minha vida em França, na Paris sonhada, em casa da minha tia Guenia Richez, irmã mais velha da minha mãe, mas que fora a primeira a editar Paroles, de Prévert, logo a seguir à guerra, andando com montinhos da edição, de livraria em livraria…

Em sua casa conheci escritores, pintores, realizadores – eu estava a par “ao vivo” do que se fazia, mas de facto era o Eduardo quem nos jantares, ou na Faculdade, discutia as “novidades”. Eu era, nessa altura, muito mais discreta do que me sinto hoje…chegado, quem sabe, o tempo da saudade?

Devo recordar, a propósito dos ditos de Vergílio, ou de Sophia, que se havia riso, no fundo não era maldade, era o olhar dos “Crescidos” sobre os jovens que despontavam e já “mandavam bocas”.

com José Régio e Saúl Dias
com Ramos Rosa e Almeida Faria
com Lauro António

Vergílio Ferreira era idolatrado por todos os que tinham sido seus alunos, no Liceu Camões. Um deles, Ben Almeida Faria, entregara aos olhos de Vergílio o seu primeiro romance, Rumor Branco, e que era na verdade de uma escrita fundadora, ao modo joyceano, e para o qual o amigo professor escreveu o prefácio que muito ajudaria à divulgação e reconhecimento desta primeira obra. Li Rumor Branco, como li de seguida A Paixão, que considerei ainda mais importante no contexto do que seria a inovação literária em Portugal. Eu também tinha conhecido Almeida Faria como aluno, e ainda hoje entendo que um professor é assim: reconhece e apoia o mérito de quem com ele conviveu, muito ou pouco tempo, a vida é mesmo assim -ora une, como aconteceu com Vergílio, ora separa – mas esse laço de admiração e estima ficará para sempre.

Encontramos na Conta-Corrente, a referência a esse momento do encontro de ambos e à reflexão perante o que considerou a marca tão segura da originalidade do novíssimo autor.

Como encontramos muitas referências a Helder Godinho, discípulo e admirador de sempre, e penso que ainda hoje o bom Anjo guardador do seu espólio.

Vergílio Ferreira viveu para escrever: uma vez por ano, nesses encontros do Pen, era a notícia que me dava, estava a escrever, ou mais um romance, ou sobretudo, o que fazia morrer de curiosidade os intelectuais do tempo, mais um volume do Diário, a tal conta-corrente, ao sabor dos dias, mas com muita regularidade, apesar de tudo. Todos corriam a comprar, a ver se eram citados e de que modo… Além das aulas, a escrita era a sua vida.

Vergílio teria compreendido muito bem a exclamação de Alberto Pimenta no seu mais recente livro de poemas: de novo falo, a meia voz..(2016) quando exclama:

O querer
foi a primeira coisa
a esmorecer em mim
(in Não Chega, p.79)

Foi este poema, sobretudo com esta estrofe e esta afirmação tão dolorosa, porque o poeta quer é escrever, é essa a razão mais funda do seu viver, e sente que está a perder o desejo, o impulso, a força, o “querer”, que me fez retornar à obra de Vergílio Ferreira, ou melhor, a esta sua escrita diarística, ora de alegria, realizada, ao acabar um romance, ora de desalento, quando a ideia para outro não chegava mais rápido, obedecendo ao impulso tão forte do desejo.

Não é querer a toda a força, de forma arbitrária, é obedecer ao impulso profundo que leva o escritor a querer, a pegar na caneta, no lápis ou no papel, a meio da noite, se acorda, ou a qualquer outra hora, para escrever o seu dizer, a voz que mais alto ou a meia voz, se manifesta urgente.

A espaços, ou melhor, a tempos: é no tempo que a escrita se inscreve, bem sabia Heidegger que o Ser não se diz, mas que no Tempo tudo se manifesta, na existência se vai tomando forma…

Escrever é pois um imperativo, da vida, da alma, que presa às circunstâncias se debate, interpela, exprime o que lhe vai por dentro.

Alguém disse que um grande artista (aplica-se a um grande escritor) precisa de ter um ego incomensurável, e a consciência dele.

Ou a Obra não acontece, não será duradoura, (por contínua) pensamentos e sentimentos se dispersarão com coisas várias dos outros, do quotidiano de que o artista, com letra grande, não soube ou não conseguiu afastar-se, reservando para si todos os momentos vividos.

A sua entrega à existência terá de ser total, terá de ser absoluta, para que a sua grandeza se afirme e se confirme. Num Grande nunca o egoísmo será alguma vez censurado.

Ocorre-me o caso de Wagner, mais do que grande, Enorme, – como foi tido no seu tempo, e ainda hoje: ler os Diários da devotadíssima Cosima, mesmo sem se ser feminista, faz doer o coração.

Que entrega tão completa, que abdicação de si mesma perante o outro que, sendo genial, (como Wagner egoistamente se considera) de todos à sua volta absorve tudo o que pode, entende que tudo lhe é naturalmente devido, (incluindo vénias e fortunas, se tal fôr necessário).

A Luís da Baviera, sem nunca se entregar, deixou que o jovem o idolatrasse como a um deus.

Mas será um compositor diferente de um escritor, na entrega à sua obra?

Valem a sua vida e a sua obra, mais do que vidas e obras alheias?

com o filho
com a mulher e o filho
vergilio ferreira
com Mário Soares e Teresa P. Gouveira
vergilio ferreira
Vergílio Ferreira 1988

Vergílio Ferreira foi sem dúvida o grande escritor do seu tempo: foi o que ultrapassou um neo-realismo meio serôdio, para pensar e escrever uma outra forma de entender a existência, assumindo, sem o reconhecer claramente o nome com que Jean-Paul Sartre já baptizara o novo movimento: Existencialismo.

Mas havia de facto diferenças entre ele, o seu entendimento do mundo, e o superlativo Ego de Sartre, alimentado pela companheira de uma vida, Simone de Beauvoir.

Há na sua escrita uma definição primeira, que exprime logo a essência e o sentido do desdobramento que exige:

“Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve”.

Leu bem, e certamente ensinou outros, a ler Fernando Pessoa, cuja consciência do eu e do outro formatou toda uma geração de escritores.

Não se trata apenas de ter “a companhia do outro de nós”, o alter-ego que se apossa da mente e da mão que escreve.

Trata-se, seguindo Pessoa, e não o velho Sartre, de ter a consciência disso, num outro patamar que é já de super-ego, e não apenas de um ego que se diz ser enorme.
No seu tempo, e no meio que frequentava, Vergílio Ferreira foi certamente uma voz original. Desabrida, por vezes, o que é bom, fazia-se ouvir melhor mesmo quando se fechava num mais longo e retirado silêncio. Mas apercebemo-nos de que ele, fechado nesse silêncio, não se sentia feliz. Morria aos poucos por “não conseguir sentir”. Tinha a ideia, ou tinha mesmo os projecto meio desenvolvido, mas a escrita não progredia, não chegava ao fim com a rapidez ou a intensidade desejada na descrição das acções, dos sentimentos, das personagens.

Eis como definiu a originalidade:

” Todo o escritor que é original é diferente. Mas nem todo o que é diferente é original. A originalidade vem de dentro para fora. A diferença é ao contrário. A diferença vê-se, a originalidade sente-se. Assim, uma é fácil, a outra é difícil”.

Também ele afirmava que ” ser inteligente é ser desgraçado”, como se retomasse o poema da Ceifeira, de Pessoa: ela era feliz porque era simples, para não dizer mesmo simplória, na sua ignorância de não saber, não pensar, algo que só os inteligentes fazem, e com isso sofrem pela vida fora…

Nesta Conta-Corrente 1, de 1969 a 1976, vemos que Vergílio Ferreira em cada novo aniversário, e em cada Novo Ano, sofria com a questão do envelhecer, e do que a velhice, além da morte, podia trazer consigo. Assim o vemos nos seus cinquenta anos (como seria diferente hoje, a sua reacção) e assim o encontro agora, por exemplo, aos sessenta):

” O romance está em crise. A arte está em crise. A cultura está em crise.Por força dos meus sessenta anos, estou em crise. O meu país está em crise. Como posso pensar ainda em escrever romance?” (p.354)

Mas escrever era sua vida verdadeira, entre as aulas, os exames, e a dada altura as convulsões de um Revolução que tantos tinham desejado, e ele também. A sua casa é centro de rodopio, de um Eduardo Lourenço a um Fernando Namora, a um João Palma-Ferreira, etc.

Na escrita de Vergílio Ferreira também se encontra a questão do sagrado – algo que Sartre e Simone abominariam – mas que torna a obra do nosso autor mais profunda, mais interpelante, pois crescemos todos, num país católico, com os ensinamentos da Bíblia sagrada.

Mas Vergílio, o escritor-pensador, pressente que é na palavra que reside o mistério. É no dizer:

” O mais profundo duma palavra é o que há nela de sagrado. Deus tê-la-á dessacralizado quando com ela criou o mundo. Mas nós sacralizamo-la de novo quando o recriamos com ela.”

E de que modo?

Escrevendo…

“Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê”.

Entenda-se este “calmamente” como sendo a lentidão, a revisão, toda a demora que se se torne necessária para a depuração do que seja excessivo no texto. O excesso não é alimento, é desperdício de alma…

A pressa sempre foi má conselheira, e o mesmo se aplica à escrita.

Encontramos na Conta-Corrente ( que leio agora desde o ano de 1969 e seguintes ) um pouco de tudo o que acontece no país cultural e literário, e sob a sua capa a manifestação dos que se opunham, mais ou menos visivelmente ao regime salazarista. Havia casas, havia cafés, havia círculos para tais encontros, em que se discutia a mudança desejada, naquele tempo muito vivido ainda no sentido do comunismo soviético.

Os anos que vão de 1973 a 1976 são excepcionalmente interessantes para um leitor que queira de facto, pela leitura, assistir aos desenvolvimentos que marcaram, para sempre (?) este Portugal em que agora vivemos.

com a mae
com a mãe
com a mulher
com a mulher
alunos
com os alunos

Os amigos de que Vergílio fala, muitos eram também nossos amigos, e a agitação dos dias, ou das noites, que lhe levavam a casa eram os mesmos que nos traziam aqui, a nossa casa, pois nós já vivíamos nesta casa de hoje nesse tempo, perto da primeira versão da UNL, na Av. da República, e da própria casa de um desses bons amigos, o João Palma Ferreira. Este é dos mais citados, na Conta-Corrente, em matéria de catástrofes que os tempos escondiam: revolução, povo na rua com os comunistas a tomarem conta de tudo, uns ainda soviéticos, outros já maoístas – todos com a tropa à frente, e Portugal, a pátria sem destino, esperando por um desígnio que Mário Soares, pacatão, ainda não definia opondo-se com maior clareza.

Acabou no entanto por fazê-lo….Explicava a Vergílio, o impaciente: “a Democracia dá trabalho…para sossego existe a Ditadura”.

Por muito que me seduzisse a ideia de contar tudo aquilo que também vi, aquilo em que participei, aquilo que recusei e formou a decisão que até hoje mantive de ficar longe da política de corredores baixinhos ainda que de muitas portas que se abrissem, prefiro caminhar agora com o nosso centenário autor para o mês de Dezembro e mais uma actividade de que ele, apesar de desejar o contrário, não prescindia: por amizade, ou dever de presença, de que depois fazia troça:

” 10-Dezembro (sexta). Ontem lá fui ao lançamento do livro da Natália. Muita gente. E implícito nisso, o aplauso à coragem da Natália no combate ao totalitarismo. Mulher de armas, versão actualizada e intelectual da padeira de Aljubarrota contra o invasor estrangeiro. Li hoje o livro lançado. Rasgo, ardor, firmeza, tudo subtilizado em bela invenção poética. Estive pouco tempo na reunião, porque tinha um jantar marcado (…)Mas no breve encontro vi muita gente. É ocasião de a gente se ver nesta dispersão citadina: os cocktails e os enterros” (p.383).

Antes tinha dito de si que não era “um homem público ou seja, aquele que se completa no outro e no outro de si. Completo-me de de mim, tanto quanto isso é possível. Ainda hoje me incomoda ver o meu nome nos jornais. A perda da posse de mim. Como os antigos não gostavam de tirar retratos porque receavam perder a alma. Para outros, a posse de si está em reunirem-se à parte pública de si. Sem essa parte pública é que se sentem divididos. Como no mito platónico do amor” (p.382).

Tantos, de que ele fala, são esses da necessidade da existência pública, julgando que estarão mais vivos assim, sempre disponíveis, interferindo, do que escolhendo dedicar-se à sua obra.

Mesmo assim Vergílio não se furta a um ou outro convite, jornal, televisão, nem sequer à publicação de este Diário em conta-corrente, de meditação sobre a sua escrita e a dos outros, alguns apanhando forte, como ele se queixa de ter apanhado sempre de “cliques” como as do Papa Gaspar Simões e alguns cujo nome evitarei citar aqui, porque a adjectivação vergiliana é talvez excessiva. Poupo alguma memórias…

Com Fernando Namora (que foi amigo do meu pai, ainda em Coimbra) Vergílio Ferreira discorria sobre o sentido da vida, e da arte, e do balanço da geração que era a deles: sem renegar heranças, renovadores, ainda assim, fecundos, nos temas, nas forma de narrativa…

Cito, do ano de 1972:

” Esteve aí o Namora, há dias. Como de costume, e insensivelmente, caímos ambos no balanço da nossa geração como quem dá por encerrada a vida. E é isso no fundo o que nos domina: a enviesada certeza de que isto já não é connosco. Estamos fora do jogo, gastámo-nos. E cálido, um apelo à desistência, um gosto de acabar. Não ler, não escrever, gastar o resto de ideias e estupidificarmo-nos. A parte negativa. Mas a morte há-de ser a negação maior. Se a gozássemos em vida? Ser sem arte, abandonarmo-nos ao abandono, à pura passividade? Namora, em todo o caso, parece tranquilo quanto ao destino da nossa geração. Que a nossa geração foi “fecunda”. Que os jovens, só surriada. O que até talvez seja verdade…” (p. 128).

E termino, porque me parece de grande actualidade, neste momento em que vários Partidos se uniram para mandar, fingindo que não sendo Governo não têm contas a dar a um povo que saiu de uma Ditadura para quase entrar noutra, quase sem saber, de uma Europa sem valores e que muito convém àqueles que agora retomam a palavra perdida em nome já ninguém sabe de quê!

Vergílio, regressa, a tua voz faz falta!

“Vencer o imediatismo da pressão política. Voltar ao romance. Ser eu” (p.201).

E quanto a nós, ainda herdeiros e vivos: regressemos também ao que desejámos ser, erguendo uma voz mais clara: por outras palavras que são as de Vergílio Ferreira, lucidíssimo:

” Cortar com o berreiro público. Voltar à marginalidade das minhas (nossas…) coisas”(p.192).

Agora, em data de centenário a celebrar, o que diria o escritor que nos liceus não é lido, ou se é, é a partir de páginas extraídas ao acaso, sem antes nem depois, que nem alunos nem professores poderão entender? Seria duro, como nos comentários que fez ao nosso medíocre meio literário, quando em França saiu a tradução de Alegria Breve, pela mão de René Bamdé, cujo pseudónimo literário, Robert Quemserat, já brincava com a questão do quem será ? E foi escândalo! Quem será este, que se atreve – ainda que por desfastio ( esteve preso no Porto e fez várias traduções de alguns que considerou interessantes e marcantes pela novidade dos temas e da prosa) que vem agora com esta Alegria Breve?

Eis o que nos conta Vergílio Ferreira, e que alguns (ainda vivos, como eu ou o Ben Almeida Faria recordaremos com um sorriso, pois é pura verdade o que Vergílio conta, e aconteceu connosco, tão mais jovens – mas agora a idade perdoa tudo! ):

“…A tradução é entre nós uma grande credencial. Eis porque todos afanosamente a procuram. Junto da Gallimard, ao que me dizem, há um comité português de leitura (…) que só deixa passar os elementos credenciados. Daí o frenesim por eu ter escapado às malhas. Bons deuses, lá escapei, aliás por um golpe de sorte. Bamdé, preso, entreteve-se a traduzir-me na cadeia. Deste modo saltei a barreira portuguesa e passei logo à francesa. E aí o livro teve o visto” (p.29).

Eu tivera também a sorte de saltar a barreira, pela mão de Bamdé, com Pas Seulement la Haine, em 1968. Mas já os meus sketches de teatro, que depois da revolução de Abril publiquei com o título de Teatro Aberto, na Ática, não tiveram igual sorte.

Madame Benmussa, que dirigia a colecção de teatro juvenil, comunicou-me, certa vez quando eu estava ainda em Paris, (os originais do teatro estavam em português) que esse tal comité os tinha chumbado. Para eles (quem seriam? ainda hoje não sei) já bastava que tivesse saído um romance sem eles darem por isso…

Não me engano se disser que agora, em 2016, passado cem anos sobre o nascimento de um grande escritor – se vive em Portugal uma igual, mais pequena (porque em Portugal tudo é sempre mais pequeno, mas não menos nocivo) instituição, ou tentativa de instituição de pequenos comités filtrantes, de tiranetes da ignorância, algo que advém de uma péssima formação literária, filosófica, cultural, que Vergílio Ferreira, se fosse ainda vivo, muito combateria numa sua próxima Conta-Corrente.

Se ele, na verdade, ao sentir-se envelhecer, apenas com os seus sessenta anos (o que é isso para nós, os de setenta ou mesmo oitenta ou mais anos) sofria quase em cada página por uma secura de alma que o impedia de chegar à ideia ou ao projecto, ainda que incipiente, de um novo romance que o absorvesse por completo – porque o mundo à sua volta mudara, perdera valores, se tinha fragmentado e um mal constante o atormentava, o que diria ele de ainda mais severo do que por exemplo este desabafo, sobre aquilo em que a sua Escola se tornara?

” No liceu, a balbúrdia. Trelaxamento total nos costumes. Fornica-se e defeca-se ao ar livre. Miúdas contratam a fornicação a X a bandeirada. No meu liceu as ‘capitoas’ andam desorientadas. Mas toda a gente ‘progressista’ o anda (excepto talvez os comunas): a vida não vem nos livros de propaganda” (p.223).

Vergílio admirava-se que alguém como um Eduardo Lourenço pudesse afirmar, lá por casa, que o imperialismo soviético podia ser uma solução, como o Império de Roma tinha sido outrora, com a ordem no mundo… e Vergílio perplexo interrogava-se: o comunismo trouxe a fome à Rússia, aos países que dominou, a China fez o mesmo, de que servirá a fome e como se alimentarão estes nossos comunistas da utopia de agora?

Nunca escondeu, nem dos piores nem dos melhores amigos que não era e não seria nunca comunista. Desafiado por vezes para algum cargo, pelo PS, também teve a coragem de recusar, pois escolhera um caminho que não permitia distracção, nem cedências a pequenas ou a grandes vaidades, o da Escrita:

” Por favor. Já disse. Não me chateiem mais com isso. No tempo do fascismo os escritores escreviam, porque tinham sossego e podiam dizer mal. Hoje vivem em alarme com medo do outro totalitarismo e não podem dizer mal nem bem. Tudo isto acabará, se a democracia enfim começar” (p.380).

Felizmente, com a imensidão de um povo resiliente atrás de Mário Soares, a Democracia começou.

Veremos agora, com a Europa dos grandes e dos pequenos se o sonho não se desfaz!

2016

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Escrito por

Nasceu em Lisboa, é casada, tem quatro filhos. Cresceu numa casa onde havia livros. Leu sempre, leu muito, de todas as maneiras. Doutorou-se em Literatura Alemã, mas interessou-se sempre por História das Ideias, História de Arte e Literatura Comparada. É Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde criou os primeiros cursos de Tradução Literária. Tem obra de ficção, poesia, teatro e ensaio publicada em várias línguas. Quanto à música, as preferências andam pelo jazz, Mozart e Wagner… Foi recentemente distinguida com a Medalha de Honra do Autor Cooperante pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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