De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Viagem a Moçambique

(quase em directo)

Dia 1

Começa hoje a minha aventura.
Estou a cantar aquela cantiga: três corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol…
Então é assim: Cortinas prontas para 5 janelas enormes
3 tapetes que já vieram da Índia
Argolas suportes e terminais para os varões
a parabólica para o pescoço do cão que tem uma orelha infectada
4 tapetes de banho
8 capas de almofadas e respectivos recheios de penas claro.
8 pacotes de gelatina já fora das caixas
100 fechinhos de metal para as grades mosquiteiras de todas as casas, não vá o macaco entrar.
Presentes e mais presentes
livros.
Sapatos, meias, remédios, cremes para a cara, guardanapos de linho, instrumentos de cozinha, linhas para a máquina de costura, lata de tinta, quinoa, cuscuz, doce de abóbora para o genro, vacinas para o macaco, entretela, a caneca do Benfica, presunto e chourição, roupa e mais roupa…
A lista é assim mesmo. Deriva do puzzle de encaixar tudo nas malas e não exceder 23kg por cada uma. Não me apetece nada andar a abrir malas no aeroporto como já me aconteceu…
Além disso ainda levo os varões para pendurar as cortinas!
E a minha mala (pequenina, tem de ser…)
Filha querida. Aqui vou eu de cigana outra vez.

Dia 2

Hahahaha
Já começou a trapalhada: vou tentar ser breve:
Em Lisboa no balcão do checkin:
Quer as malas despachadas directamente para Nampula?
Sim. Que bom!
No balcão de checkin voo Maputo/Nampula.
Onde estão as suas malas?
Afinal têm de desalfandegar as malas. Faltam 45 minutos para o voo sair…
Toca a correr tudo para trás. Corre corre corre. Onde estão as malas? Já estavam a entrar nos perdidos os meus 90kg de bagagem!
Corro corro corro
Checkin outra vez. Conhecem a calma dos Moçambicanos?
Stress… O avião vai sair sem nós…
Felizmente que os aviões também têm a calma moçambicana. Era para sair às 8h30 e afinal ainda não saiu…O embarque é na porta 1…ou 2…É nas duas, tanto faz.
E a TAP que se esqueceu de dar os pequenos almoços. Acreditam? Eu acho que é para cortar despesas. Lol
Estou esfomeada!
O Eusébio foi-nos buscar a Nampula. Cinco horas e meia para chegar a casa. Já fora da cidade, o carro para de repente sem encostar. Em sentido contrário um grupo de cerca de 50 pessoas caminhava cantando, outro carro parado também do lado de lá. O que é Eusébio? Falecimento Sinhora. Por entre o grupo e os cantares, o corpo era transportado embrulhado em capulanas, preso a um andor feito de canas. Aguardámos no silêncio dos mortos. Só depois de terem passado é que o Eusébio arrancou outra vez.

Dia 3

Nesta época, os produtores vendem a sua colheita. Por todo o lado se instalam centros de compra à volta dos quais os homens se sentam, ou deitam, à espera de vez para vender o trabalho do ano.
Há muito muito dinheiro envolvido, pois as transacções são feitas em cash.
Ontem à noite assaltaram um destes centros de compra.
Versão da equipe de segurança: “Vieram os ladrões sinhor, atacaram e amarraram os guarda, roubaram espingarda. Como dinheiro tava guardado no cofre, soltaram guarda outra vez, largaram arma e foi-se imbora. Só levaram mesmo algum dinheiro que ficou fora…”
Versão provável: foram os próprios guardas que simularam o assalto na esperança de conseguirem abrir o cofre.
Passou-se hoje assim, e correu bem. Mas muitas vezes corre mal. Os próprios guardas assaltam e matam quem estiver pela frente para conseguir algum deste dinheiro que deveriam guardar. Nos locais de compra, nos carros de transporte, os agricultores acabados de sair da venda. Uma triste realidade…

Monte Mpacura

No ano passado comecei um texto destes assim: Hoje matei o meu velhote. Volto a dizer a mesma coisa hoje. Matei o meu velhote outra vez.
Monte acima pelo meio do mato cerrado cerrado, agarrados aos bambus, ao capim, às pedras e a qualquer outra planta que aparecesse pela frente, subimos o monte a pique. Não há caminhos. Não há trilhos. Não há escadas… Só mato tão tão íngreme, os pés do da frente ao nível dos olhos do debaixo. Tudo isto para chegarmos a uma capela colonial abandonada, assistir ao pôr-do-sol, olhar para uma planície imensa como só em África se consegue ver. Ai Carlos! Foi tão difícil a subida, tão difícil a descida. Imensidão de África! Tudo vale a pena para a conseguir abraçar.

Picnic

O programa era subir à barragem e lá fazer um picnic. Mas o guarda cumpriu bem o seu trabalho. Deixa-nos passar, pedimos. Nada, responde ele. E nada foi. Não nos deixou subir e acabámos sentados nas pedras à beira rio. Vamos voltar para a semana com papel assinado. Mas sair da zona da cidade e da estrada principal mostrou um lado ainda mais selvagem desta África. Casas muito mais pobres, pessoas muito mais pobres ainda, e o “nada” que antes nos tinha impedido de subir o monte, neste caso é “nada” mesmo. Casas feitas de paus e lama, portas e janelas não há. Mesas, cadeiras, camas também não. Tudo é castanho por dentro, por fora e à volta. Até a pouca roupa que vestem, de tão usada e não lavada, castanha parece, alguns farrapos de cor aparecendo por baixo.
E de repente lembrei-me do que fui ouvindo na conferência a que assisti na semana passada sobre o conceito de felicidade. Como a podemos medir nós habituados que estamos a relacioná-la aos bens materiais? Será que este povo consegue ser feliz?

Os sons, as cores e os cheiros deste canto em África, Niassa, Cuamba

Desenganem-se os que imaginam cheiros maravilhosamente intensos e selvagens, cores fortes e sons de pássaros e outros animais diferentes dos que estamos habituados. Aqui tudo é castanho e verde. Não há flores. Castanho alaranjado o chão, e mesmo o verde das plantas está também coberto de uma camada de pó que um dia a chuva há-de levar. E tudo cheira a queimado por aqui. Resultado dos muitos fogos para limpeza de mato que se fazem nesta época do ano e das também inúmeras pequenas fogueiras sobre as quais são cozinhadas as refeições, à porta ou dentro das cabanas. E o som! Por todo o lado se ouve música. Grandes colunas tocam ritmos africanos durante todo o dia, muitas vezes noite fora até quase ao amanhecer do dia seguinte. Há sempre um mini aparelho de placas solares que fornece energia ao empreendedor da aldeia. E pode ser cinema também, uma televisão, cadeiras de plástico. Durante o dia, durante a noite, a música toca. Nas aldeias, nas lojas, nos mercados. Alto, altíssimo, ensurdecedor. Ontem, adormecemos ao som do Casablanca. E hoje? Por enquanto, ao som do que ouvimos, podíamos dançar.

Morreu o Xiquinho…

Há dois dias que estava desaparecido. Foi uma águia. Foi um mocho, ele dormia em cima do telhado junto ao quentinho dos depósitos da água… Foram os guardas, ele roubava-lhes a comida… Encontrou uma macaca… Tudo eram suposições para o desaparecimento do Xiquinho. Há dois anos e meio companhia diária da Margarida, chegou com apenas cerca de três semanas. Andou à cintura tal qual os bébés africanos, foi alimentado a biberon, cresceu e fez-se macaco adulto, sempre sempre dependente do mimo e carinho que recebia e do mesmo quase humano que dava. Centro das atenções, fonte de risos, gargalhadas e boa disposição devido às brincadeiras e tropelias diárias.
Foi o cão da casa do lado que o matou. Xiquinho gostava de o desafiar. Encontrámos o corpo e enterrámo-lo. Hoje é um dia triste.

Que pássaro gigante!

A pista de aviação estava fechada desde a guerra e por isso há muitos muitos anos que não aterrava nem levantava avião. Muitos nunca tinham visto um sequer.
Um dia chegou a notícia. Já se pode usar. Aterrar foi fácil. Ninguém estava à espera. Mas descolar? Uma multidão surpreendida e curiosa acorreu ao local, rodeou o avião e preencheu a pista. Descolar? Impossível. Dois carros tentaram circular de um lado para o outro ao longo do percurso, tentando afastar a curiosidade, mas logo o cerco fechava outra vez. Tiveram de vir os guardas fazer um cordão. De mãos dadas, braços esticados, barrando a alegria. Nem assim. Temos de descolar. Já é tarde e temos de chegar ao destino antes de o sol se pôr. Decisão tomada, foi preciso acelerar e esperar que a alegria fosse fugindo à frente do monstro que se ía aproximando. Muitos gritos, muitos adeuses. Que pássaro gigante! E que divertido correr à frente dele. Tanto sorriso rasgado! Que gritaria!

Sinhora, quase roubaram o meu bébé…

Adélia tem 5 filhos, os mais novos com 5 anos, outro com 8 meses. Como trabalha para a empresa, deixa estes filhos mais novos ao cuidado de uma outra criança que sobrava na casa onde nasceu. Tem 10 anos.
E na rua, bébé às costas, o outro pela mão, veio o homem e levou-a. Correu correu a criança mais nova atrás, exausta acabou na lixeira onde passou a noite sozinha. Encontraram-na no dia seguinte, aos outros dois também.

Botões

De mota e capacetes chineses, lá fomos pela densa nuvem de pó estrada fora até à cidade. Raimundo, o que precisas? Alface Sinhora, couve também e totalmente tomate Sinhora. E botão para a camisa do Director…
Perguntei onde se vendiam botões e acabei na livraria/retrosaria. Em toda a loja, que até era grande, dez prateleiras com meia dúzia de livros, a sua maioria com a fotografia do Papa na capa. Três mesas com cadeira para cliente se sentar.
Tem botão? Tem sim. Por favor passa… Nas traseiras da loja trouxeram-me duas caixas cheias, os fundos rasgados a perdê-los pelo caminho. Pode tirar daí. Imaginem como acabaram as minhas mãos depois de tanto procurar um botão branco. Encontrei, mas não estava branco, claro. De molho em detergente pode ser que fique.

Hoje há peixe!

Aqui no meio do nada, carne só frango, peixe é seco e salgado. Por isso quando o Sr. Paulo Lula Camarão telefona, é uma festa.
Sai daqui de Cuamba no comboio para Nampula, compra peixe, lulas e marisco, regressa outras 12 horas com a mercadoria. Não sei como vem acondicionado, se congelado, descongelado na viagem e congelado outra vez. Quando o Paulo Lula Camarão telefona e diz que chegou, vai-se comprar o peixe e ponto.
Hoje foi um destes dias. Nas traseiras de sua casa, numa sala escura, suja e cheia de mobiliário que mostra a sua riqueza, a arca estava cheia. De peixe e imaginem só. De lagostas!
Como em todo o mundo. Uns comem nsima (leia-se xima, papas de farinha de milho), outros as lagostas.

Todos os dias saio pelo portão

do complexo armazém/escritórios/habitações por um portão guardado pelos seguranças. Bom dia à saída, cumprimento à chegada. E todos os dias olhava para a cadeira na qual um dos homens está sentado. Ontem resolvi saltar da mota e pedir para tirar uma fotografia.
Bom dia guarda, posso tirar uma fotografia à sua cadeira? Xi Dona.. Esta cadeira está cochada… Está quê? Coxada Sinhora. Tem perna coxa. Vai ver para o ano quando Sinhora volta vai ter cadeira nova sim.
É assim. Nós deitaríamos a cadeira fora. Aqui ainda serve de muito. A alternativa eram ficar de pé o dia todo. Ou sentado no chão.

Benedita Vasconcellos
Maio, 2015

Fotos de Benedita Vasconcellos

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Escrito por

Nasci em Lisboa, estudei na Escola Alemã. Tenho três filhos espalhados pelo mundo que adoro visitar, para além dos outros lugares no mundo a que tento chegar. Dona e gerente de um Hostel em Lisboa.

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