De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Uma troca de correspondência com a Maria Antónia Quina sobre a poesia de Paul Valéry, que ambos admiramos, suscitou por parte dela o “desenterrar” de escritos esquecidos e reacendeu um forte desejo de criação, segundo as suas próprias palavras.
Acabou assim por surgir o livro ”VIAGENS”*, publicado em finais de 2017 em parceria com a pintora Tereza Black que belissimamente o ilustrou. Foi uma surpresa, creio que também para a autora, este súbito despertar de criatividade a resultar numa obra aliciante, de grande qualidade.
Das várias notas que abrem o livro, quis Maria Antónia que constasse um pequeno escrito meu de comentário à leitura dos poemas, que me havia dado a ler antes da sua publicação. Aí dizia-lhe da minha surpresa ao lê-los — e relê-los. E expressava o que neles mais me havia tocado: — uma íntima ligação anímica ao universo, ao real, em todas as suas dimensões, contradições, que é pertença nossa e pede a ser acolhido; — uma paz na entrega ao doloroso, (ao absurdo?) da vida, nunca deixando perder o sorriso perante a maravilha que é ser-se humano, perante todo o belo que nos é dado fruir, perante o apelo ao amor que tudo sobreleva; — o perscrutar da alma, dos sentimentos –“o caminho para dentro”– nunca desligado do olhar deslumbrado sobre o mundo exterior; — a presença, através de toda a obra, da natureza, da paisagem, da sua força e beleza, um pouco à maneira dos orientais – lá estão aliás os Haikus.
E quanto me comoveu o poema “PINTOR”, que para sempre ficará ligado ao meu pinheiro seminal, aquele ser resistente, batendo-se pela vida, — uma vez descoberto próximo do Cabo Espichel e repetidamente retomado como objeto de pintura.

O pinheiro manso contorcia-se como um ser vivo,
A copa tocava a areia e
A seiva secara há tempos,
O caminho tornara-se um carreiro apenas.
Encontrou-o num passeio pelas escarpas.
Fascínio urgente, o seu, por essa obra estranha da natureza.
Fundiu nele o olhar e a alma
Até ele se tornar seu, e ele dele, e os dois nossos, assim tocados.
Pois é múltiplo e inédito o Amor!

Desenhos e fotos de João de Almeida

Viagens de Maria Antónia Quina e Teresa Black, ed. Oro 2017

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Escrito por

Com uma longa carreira de arquitecto, tem-se vindo a dedicar à pintura nos últimos anos. Projectos seus mereceram um prémio Valmor e três menções honrosas. Devem-se-lhe grandes exposições nacionais, como a do “Triunfo do Barroco” no CCB a de “Josefa de Óbidos” no Palácio Nacional da Ajuda e a das “Feitorias da Flandres” no Museu Nacional de Arte Antiga. É administrador e consultor museográfico da Fundação Medeiros e Almeida. Além de exposições regularmente realizadas em Lisboa, expõe em Londres, Pequim e Zurique.

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