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World WC

Tenho 3 temas favoritos para fotografia, comida, cães e casas de banho públicas.
Comida é um universo sem fim e cães um prazer inesgotável, mas casas de banho públicas…

Admito que a 1ª motivação foi exactamente o facto de se tratar de um espaço impróprio para fotografar, associado a uma actividade fisiológica com evocações sensoriais desagradáveis, normalmente a ser praticada ao abrigo do olhar dos outros. É um espaço público no entanto fechado e isolado, onde por regra geral reina o pudor. Acontece que o inibido e o proibido chamam inevitavelmente o ilícito. Por conseguinte é também um lugar de contacto clandestino e de manifesto anónimo: as paredes vão-se cobrindo de graffiti e todo o género de declarações. Fotografar num sítio deste tem algo de insolente e underground, muitas vezes literalmente. Só me resta dizer que não está em causa, da minha parte, um qualquer voyeurismo, as pessoas que lá vão não fazem parte do meu interesse.
É um espaço geralmente muito apertado e mal iluminado, portanto difícil de fotografar. É um espaço ao qual não se concedem normalmente prioridades, ao qual é muitas vezes é atribuído uma localização pouco nobre, na cave ou num cantinho sem janela, portanto à partida muito limitado em termo estético, apesar das boas vontades esporádicas. Também o equipamento é sempre mais ou menos o mesmo, porém, há um dispositivo obrigatório que ajuda a quebrar estas limitações e dinamizar o espaço: o espelho. O espelho não só multiplica a dimensão, ângulos e luz, mas também permite ao fotógrafo entrar ele próprio na cena. As limitações arquitectónicas, os esforços decorativos nessas condições desfavoráveis e o efeito de sabotagem proporcionado pelo espelho tornam o jogo estimulante.
Há um outro componente que aumenta ainda mais o interesse do tema, as diferenças culturais. Embora a actividade própria a esse espaço seja comum à humanidade inteira, existem variações a nível arquitectónico, a nível de equipamento e, sobretudo, em relação aos parâmetros de pudor. Sempre achei incongruente um pais como a China, tão austero e delicado noutros aspectos, ter um comportamento em casas de banho tão surpreendentemente liberal: não se importa com a presença dos outros. Estou a falar de presença visual e não meramente vocal, porque muitas vezes nem separadores há, e as pessoas estão de tal modo à vontade que podem perfeitamente ter uma conversa vulgar no decorrer dos actos. O nível de higiene também varia muito entre os povos, mas não necessariamente conforme o nível de riqueza. Nessa matéria países como o Brasil e a Tailândia estão muito à frente de outros países considerados mais desenvolvidos.
Em suma, é fascinante. Só lamento que não tenha acesso às casas de banho dos homens.

Fotos de Monica Chan

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Escrito por

Nasceu e cresceu em Macau. Licenciou-se em Sociologia em França e tirou um curso de pós-graduação na Bélgica. Casou-se e instalou-se em Portugal em 1991, onde trabalha actualmente como tradutora de língua chinesa. Nunca perde uma oportunidade para viajar e comer coisas boas.

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