De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

BREXIT (a propósito do excelente artigo do Mark Hudson)

Portugal tem sido um protectorado de Inglaterra, pelo menos desde o tratado Anglo-Português de 1373, sendo o Tratado de Windsor de 1386 ainda vigente, o mais antigo entre dois países independentes, na história da Europa. O tratado militar e económico de Methuen de 1703 é outro exemplo. Sem esta cooperação, há muito que, provavelmente, teríamos sido absorvidos pela Espanha.
Já em 1147 tivemos a ajuda inglesa na conquista de Lisboa.
A colaboração económica, política e cultural tem sido determinante ao longo dos séculos. D. Filipa de Lencastre e a Ínclita Geração, o casamento dinástico de Catarina de Bragança e Carlos II e Bombaim como dote, os mercados ingleses escoando os nossos vinhos, cortiça, sal, e azeite, as famílias inglesas vivendo no Porto, as invasões francesas, a fuga do rei para o Brasil numa esquadra inglesa, e assim por diante. O Ultimatum de 1890 azedou a centenária amizade, mas na Grande Guerra em 1914 lá estivemos do lado inglês.
A posição inglesa, como protector e grande potência, permitia-lhe usar as possessões portuguesas como se fossem suas, nas manigâncias internacionais britânicas. Em 1898 e 1937 foi avançada a possibilidades de “dar” as colónias portuguesas em Africa aos alemães, como parte das negociações inglesas da altura. Este “dar”, quer dizer que a Inglaterra não interviria se os alemães invadissem. Mas os alemães recusaram.
A história de Portugal está de tal maneira entrelaçada com a inglesa, que não haverá na história do mundo um exemplo semelhante.

E agora voltando ao Brexit. Os detalhes técnicos, económicos e jurídicos, relativos às firmas e expatriados envolvidos no processo, escapam-me. Não tenho os dados nem a capacidade intelectual para os avaliar. Mas o efeito sobre a economia inglesa global, terá necessáriamente que ser neutro, após um período de ajustamento. A ingenuidade, inventividade e energia dos factores produtivos ingleses não mudou. E com a liberdade no lidar com o resto do mundo, que uma situação autónoma permite, não vejo porque mesmo a Europa não continue a ser o mercado que tem sido, após alguns ajustamentos legais.

Mas o que levou os votantes pró-exit a votar, foi também a perda do Estado social do pós guerra. A Hidra Financeira Internacional impõe as suas regras em todo o mundo, e os nossos votantes pró-exit estão equivocados, quando pensam livrar-se do monstro saindo da Europa. Continuarão a ser tratados como massa proletária disponível e dispensável ao serviço da nova religião de São Lucro, Santa Ganância, São Juro…
Mas terão sucesso ao verem-se livres da caterva de imigrantes oriundos de populações fanáticas, malcriadas e analfabetas, que puxam os salários para baixo competindo com os locais, e levam à instabilidade social pelo choque de culturas. E os lucros das corporações terão que encolher, mas não se preocupem. Nos anos cinquenta das sociais democracias elas sobreviveram perfeitamente. Só que os pobres dos administradores apenas ganhavam 30 vezes o salário médio do trabalhador lá em baixo, na linha de montagem. Hoje em dia ganham trezentas ou seiscentas vezes, não admira que não gostem do Brexit…

Em nome da nossa centenária amizade, promovamos o Portuguexit. Portugal é mais britânico que europeu. Larguemos a Europa, voltemos ao Escudo, e reiteremos o Tratado de Windsor. Parece ter funcionado muito bem nos últimos seis séculos, mas talvez seja muito cedo para avaliar. Esperemos mais dois séculos. Nessa altura já teremos uma ideia, se vale a pena ou não.

Poderemos sempre sair…

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Janeiro 2020
solipso52@aol.com

Fotos de Manuel Rosário

Ver também

Brexit is about to happen. But Britain will remain inalienably part of Europe. The national myths, memories and mindsets of Britons, Portuguese, Greeks and Poles - and all those in between - are largely composed of the same sentiments. There are differences, chiefly historic and geographic, but these are massively

Visto de Portugal, quem pensa que foram os ingleses que nos protegeram do Napoleão, dos Habsburgos e do Hitler, fica com aquela espécie de sentimento estranho de que havíamos de prestar mais atenção ao que se está a passar na Grã Bretanha nestes dias. É que já vão mais

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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