De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

É aceite por todos que o Dinheiro é um meio de pagamento (notas, moedas, e os números nas nossa contas à ordem no banco). É com dinheiro que pagamos a miudezas que compramos no dia a dia. Mas para as grandes compras, uma casa, um carro, uma fábrica, endividamo-nos. A dívida, que é uma promessa de pagar dinheiro no futuro, domina as trocas importantes. E quando essa mesma dívida é pagável ao portador, torna-se negociável ela própria e transforma-se em quase-dinheiro.
Mesmo na origem das humildes notas de banco, estava uma promessa de pagamento em ouro.
A acumulação colectiva de Dívida na sociedade, tem ao longo dos anos um efeito destrutivo. Isto foi descoberto há milénios pelos judeus, que tinham o ano do Jubileu. Todos os cinquenta anos as dívidas eram perdoadas. No início do período sem dívidas a coisa económica corria normalmente, com toda a gente a endividar-se alegremente. Mas com o aproximar do ano do Jubileu, todo o possível credor se retraía na concessão de crédito, embarcando somente em negócios seguros e a curto prazo. Isto levava a um saneamento periódico da vida financeira colectiva, permitindo um recomeço limpo logo a seguir ao ano do Jubileu.

Hoje em dia o endividamento dos Governos, Empresas e Cidadãos é astronómico. A dívida dos Governos é irrelevante se for em moeda nacional (ver artigo*). Mas a dívida das empresas, que elas usam para comprar acções de si mesmas (buy-back), levou ao desaparecimento do auto-financiamento e a encargos financeiros gigantescos que necessitam nova dívida para serem pagos.
Quanto aos cidadãos, com os encargos do que devem (casa, carro e estudos dos filhos na universidade) a subtrair do rendimento disponível que poderiam gastar na economia, diminuem os padrões de consumo. E como sem despesas não há receitas e como o Consumo é 65% do PBI, a economia encolhe.
A estafada solução é pôr à disposição das firmas e empresas crédito barato. Isto será apresentado como ajuda às entidades envolvidas. Como na Grécia, estes fundos serão usados para pagar as dívidas mais antigas ajudando de facto os respectivos credores privados. Os devedores ficarão com dívidas ainda maiores. E quando na cadeia de bail-outs o último credor for o BCE, não restará qualquer saída aos devedores, que não seja vender o património. Lá se vai o país quando o património são bens públicos, e lá se vai a casa que o cidadão venderá a macrofirmas financeiras, e a quem posteriormente alugará de volta. O número de pessoas proprietárias de habitação própria diminuirá e o número de pessoas que alugam casa para viver, aumentará. Isto já está a acontecer nos EUA.

Neste cenário, dentro de uma década, com a Europa tornada um país federado, teremos milhões alugando tudo o que usam (casa, carro, electrodomésticos) com a finança dona de tudo e a emprestar os lucros aos governos central e regionais (antigos países) para os gastos correntes.  No fim o Banco Central com o Quantitative Easing, retirará da circulação esses Títulos do Tesouro excedentários, que repousarão para sempre na folha de balanços do BCE. E esses triliões serão apenas um documento registando os gastos governamentais dos últimos anos.
E os dinheiros lá irão circulando.
Noutro cenário, se tudo isto for um prelúdio para um Jubileu universal que poderá estar por detrás desta sincronia das políticas governamentais, a economia renascerá, liberta do peso atrofiante da dívida. E voltaremos à girândola do consumo, a recuperar o tempo perdido. Será isto o que a alta finança quer?  Novos devedores na estaca zero precisarão de capitais frescos. Com o Jubileu, a destruição de capital será compensada com novo capital criado a partir do nada pelos bancos comerciais, como sempre tem sido. E teremos uma explosão económica suicidária, com aumento do aquecimento global e de todos os malefícios a que já nos habituámos.
Será um Jubileu a solução?
Talvez não, quem sabe.

Há algo de intrigante na reacção dos governos ao Covid. As medidas de quarentena parecem exageradas quando comparadas às catastróficas consequências económicas, que seguramente matarão mais gente, a nível mundial, que o Covid.
É divertido especular o que terão os governos na manga.

De maneira que é assim.
Vou lavar as mãos, não vá o Covid…

José Luís Vaz Carneiro
Maio, 2020


Foto de Manuel Rosário

*Ver outro artigo

Sem ter havido uma epidemia ou um cataclismo, e com todos os factores de produção intactos, com os trabalhadores vivos e saudáveis, e com as fábricas e infra-estruturas em pleno funcionamento, em Outubro de 1929 a grande depressão surgiu. Desaceleração de toda a actividade económica, deflação, desemprego generalizado e

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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