De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Austrália em 2 rodas

Colisão

…é o que acontece quando se navega na net!
Com receptores disponíveis, ideias vêm embater nos nossos sonhos trazendo-os ao plano da realidade.
Foi assim, que o meu marido Manuel deu com um fantástico site sobre viagens de mota na Austrália. Por vezes, tudo começa assim: um dia cinzento de stress é esbatido no flash dum sonho, e a imaginação põe-se logo a funcionar. E se…
À mesa do jantar lança a questão:
Que tal atravessar a Austrália de mota?
Ehhh…respondo eu, de olhos arregalados entre a surpresa e a aventura!
Pela costa…de Sydney a Perth…

austrália 2 rodas

Decisão

Na balança de todas as decisões pesam pratos suspensos por um eixo delicado que liga as nossas emoções à análise duma situação.
A emoção, viajante por vias rápidas, automáticas, dispara desejos, medos, paixões muito antes do nosso lobo frontal ter tempo para analisar os detalhes.
Ah, sim! Atravessar a Austrália…mas será que as costas resistem…
O sonho jovem de atravessar um continente de mota e a vontade de acompanhar o Manuel sobrepõe-se ao receio da condição física da idade maior.

Partida

Foi assim que partimos da sede da Bykescape em Sydney.
Selena, a proprietária do negocio, é uma mulher opulenta com uma voz a condizer, de cinquenta já maduros, que desistira de trabalhar em informática para evitar que o stress da profissão agravasse o alto risco familiar que herdara de ter um cancro do cólon.
Para lá do aluguer de motas, criara com a sua sócia um “girls fashion” de roupa motard numa nota muito sexy.

Attunement ou em sintonia:

Aos poucos vou confiando em mim e na mota que não conhecia. Ao fim de uns dias a tensão inicial dissipa-se, os músculos relaxam, adapto-me ao capacete, à força e agilidade da mota. A Austrália oferece condições fantásticas para uma viagem destas: boas estradas, boa sinalização e, ao contrário de Portugal, muita segurança na estrada.

O fato, a bagagem, tornam-se rotina. O corpo expande na proximidade da natureza: numa mota sentimos o calor, o frio, a estrada, os cheiros e os ruídos muito mais próximos. Ao atravessar o mítico Nullabor do sul da Austrália sentimos a temperatura descer dos 35º para 25º numa só curva. Nas magníficas florestas de eucaliptos o cheiro enche os pulmões de vontade de respirar enquanto o cantar dos pássaros delicia os ouvidos. Manhã cedo, no dourado da luz, temos que conduzir com a atenção dum vídeo game, a um limite máximo de 50 km/h, pois os cangurus atravessam a estrada saltitando sem olhar. E, ainda no deserto do Nullabor, ziguezaguiando entre tempestades, mergulhamos numa parede de chuva quente para logo mais secar num sol radioso.

australia 2 rodas
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Nas cidades

Já conhecíamos Sydney e Melbourne de viagens anteriores. São cidades arejadas, sofisticadas em termos culturais e com uma oferta extraordinária de bons restaurantes. Desde a altura que vivemos em NY nos anos 80 que nos interessamos por graffitis, essa arte efémera, hoje feita, fotografada e amanhã quem sabe pintada por cima por um outro “writer”. A procura dos graffitis leva-nos sempre a locais menos turísticos, mais inesperados e o contacto com uma população mais jovem. Os becos sem saída do centro das cidades e as estações de comboio fim de linha são, em geral, locais ricos em graffitis.

Fora das cidades

Somos amantes de praia! A costa Australiana oferece um espectáculo de praias para todos os gostos: com e sem ondas, escorridas ou em alcova, com plataformas de rocha onde na maré baixa se vê, nas poças de água, como o mar ainda está vivo de riqueza marinha e sempre com gente nenhuma! O mar é dum azul esmeralda e duma limpidez já desaparecida da costa Europeia ou Americana.
Não longe da costa, loops de poucas centenas de km despejam-nos em parques naturais maravilhosos. Formações geológicas inesperadas, florestas imensas e sempre uma enorme escolha de trails. Os parques são muito bem preservados e com imensa escolha de locais para pernoitar.

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Encontros idade maior

Adelaide surpreendeu-nos na sua largueza de espaço urbano, o coeficiente certo entre arquitectura e densidade populacional. Jantámos no Wine Underground, um amplo espaço onde apenas 3 mesas vizinhas tinham clientes.
À nossa direita sentou-se um bonito homem, o sotaque e a bota falavam da sua identidade Americana. Foi recebido como cliente habitual, já que cada vez que vem trabalhar a Adelaide este restaurante é o seu preferido. Lia um dos romances da Trilogia de Stieg-Larsson (“The Girl With The Dragon Tattoo”, “The Girl Who Played With Fire” and “The Girl Who Kicked the Hornets’ Nest”).
Adoro saber a história de personagens que cruzam os nossos dias e como já lera o mesmo livro foi fácil de pôr a conversa a correr. Kelly vinha de Oaklahoma, tinha começado por varrer o chão da famosa Halliburton, voltara à escola e agora geria 700 escritórios da companhia pelo mundo inteiro, mais de 7000 empregados. Um “trouble shooter”! Dizia que quando voltava a casa ninguém acreditava nas histórias que, por exemplo, contava da Nigéria.
Já em West Australia, na etapa entre Walpole no Sul e Margaret River, passámos em Nannup por recomendação da nossa amiga Tátá, que vive em Eagle Bay e onde descansámos como reis durante uns dias já quase no final da viagem.
Nannup é uma pequena vila pitoresca, no meio da floresta. Um dia de sol brilhante tornou este passeio num dos dias mais agradáveis de condução de mota. Aí parámos para pequeno almoço num café “organic”, gémeo com uma loja por onde entrámos ao acaso. Lá dentro reconhecemos na capa dum livro o simpático dono da loja. Já nos seus 70 anos radiava humor e prazer pela vida. Tinha sido piloto da RAAF (Royal Australian Air Force), piloto comercial em Hong Kong, agricultor e um dia, já com os filhos na Universidade, vendeu as terras e comprou um barco à vela. O livro, que devorei alegremente, é sobre a circum-navegação de 5 anos que Murray Raynes, nos seus sessenta anos, conta sempre com muito humor. O próximo projecto é na direcção da Escócia e está ligado aos seus antepassados.

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Gastronomia

Este prazer idade maior por excelência é altamente compensado na Austrália.
Tanto nas cidades como em locais isolados encontram-se restaurantes de nível internacional e de preço muito mais acessível do que na Europa ou EUA. Entre outros lembro:
Em Sydney, Pier sobre a água oferece sobretudo pratos de peixe e vista de qualidade e Marque, no interessante bairro de Surry Hills, uma cozinha cheia de imaginação e requinte.
No agradável bairro de Fitzroy em Melbourne, o muito bem decorado Kutler and Cº combina um serviço informal e bem disposto, um ambiente trendy e óptima cozinha.
No Wine Underground de Adelaide deliciámo-nos com uns gnocchi de cogumelos e uma selecção de vinhos fantástica.
Puramente ao acaso, Wild Duck em Albany surpreendeu pela sua originalidade e qualidade numa decoração improvisada.
Must, em Margaret River, com decoração e serviços impecáveis, serviram excelente comida e um jeito de bem vender.

Minnie Freudenthal
Julho 2012

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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