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Solidão

São 18h de uma sexta-feira do mês de Novembro, na Baixa Pombalina. Na rua, o frio começa a cortar. Há muito movimento, toda a gente foge. Fogem em direcção a casa, ao quentinho, ao aconchego. (Até já me começa a cheirar à quadra natalícia…)
Correm para os transportes públicos como se estes fossem todos acabar hoje, desejando-se bom fim-de-semana, atropelam-se nas esquinas.
Encavalitam-se nos eléctricos.
Arfando de contentamento, entalam-se nas portas do metropolitano.
Indiferentes à beleza do Cais das Colunas, atravessam correndo o Terreiro do Paço, amontoando-se nos barcos, que, carregados, ondulam o rio.
Nada os detém, são 18h de uma sexta- feira.
As ruas da Baixa começam a ficar desertas, a de S. Julião, a da Conceição, a de S. Nicolau e por aí fora.
Há quase uma hora que as cadeiras nos cafés repousam de pernas para o ar em cima das mesas, e rios de água empurrados à esfregona, desembocam nos passeios.
Na porta dos estabelecimentos, vão aumentando as tabuletas dizendo “Encerrado”.
São dezoito horas de uma sexta-feira e na Baixa Pombalina já só restam os pombos.
Eu atravesso devagar aquele bairro, no sentido contrário do resto do mundo…, moro para os lados da Sé, no fim dos fins da Baixa!
Eu vou para casa, eles vão para o lar…
Eu vou fechar-me no meu espaço vazio, eles vão para junto das suas famílias!
Entro em casa e vem logo o vício de ir buscar o pivot da televisão para companhia, uma voz que corte o silêncio. E a ilusão de que, com o gesto mágico de carregar no botão do aparelho, o mundo me enche a sala.
O homem no ecrã fala de engarrafamentos de trânsito, o tabuleiro da ponte para cá, a segunda circular para lá… (fico sempre curiosa de saber qual será a primeira circular. Tem que haver uma primeira para se engarrafarem todos na segunda).
Enfim, só se fala da pressa deles a fugirem para o seu cantinho, dos que fogem da Baixa, dos que fogem de mim. E eu fujo da sala!
Vou para o quarto, sento-me ao computador, procuro os emails. (A angustia pergunta: quem comunicou?) Há imensos impessoais, daqueles que se encaminham mecanicamente para todos os contactos. Extraídos de frases dos livros de Paulo Coelho e outros sucedâneos, todos de temática “auto ajuda”. Há uma excepção, a de um convite para fazer um workshop de souflés, no hotel não sei quê…, não reparei bem, mas tinha nome de sabonete, três dias, preço 300 euros, por acaso reparei.
Não, não quero ler nada!
Abro uma página em branco, começo por escrever SOLIDÃO….
E deixei de me sentir só.

Texto escrito há mais de dez anos, quando a Baixa ainda não era um mar de turistas…

Manuela Carona
Junho, 2021

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Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

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