De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Pagaremos quando pudermos

O que está por detrás da dívida, só as sumidades político-financeiras saberão. A nós cá em baixo, só nos resta elucubrar. Escrever sobre um assunto, é sempre no fundo uma pergunta, e não uma demonstração do que já sabemos. As conclusões a que os factos levam, são de tal maneira diferentes do discurso oficial, que devem ser tomadas com reserva. Quem somos nós.
De qualquer maneira é difícil resistir ao prazer lúdico de as expor.
Cem anos após a Grande Guerra de 1914, as últimas dívidas contraídas na altura, pela Inglaterra, foram finalmente pagas. Isto é encorajante no que diz respeito à dívida portuguesa. Dentro de noventa anos estaremos livres dela.
Como é possível convencer um país em tempo de paz, a contrair uma dívida impagável a curto/médio prazo? Cui bono

AS ELITES
A aquiescência das elites políticas e financeiras está garantida e implícita na situação social dessas mesmas elites. Por esse lado não há problema. Elas serão os principais beneficiários e apoiantes das políticas vigentes.

Em 2013 o défice orçamental em Portugal foi de 5% do PIB. Os investimentos financeiros privados dos portugueses, no mesmo ano, foram de 7% do PIB. Estas verbas são poupanças, dinheiro não gasto em bens e serviços, retirado das consequentes receitas e dos circuitos de consumo normais. Se tivessem sido aplicadas na compra de Títulos do Tesouro portugueses (ver parágrafo seguinte), não teríamos que nos endividar ao estrangeiro. Ignoro se os limites de Maastericht de 3% do PIB se aplicam, quando os capitais são nacionais e a dívida é interna.

A ALEMANHA
Em Espanha, o economista Richard Koo perguntou aos empresários locais onde investiam eles esses fundos. Em vez de Títulos do Tesouro espanhóis, a maioria comprou dívida alemã! Capitais dos países pobres do sul são transferidos para o mais rico país na CEE.
E em Portugal, com a venda a retalho do território nacional o problema do Lebensraum alemão está resolvido.
A Comunidade Europeia é o Santo Império Germânico da Angela Magna.

O PROCESSO EM CURSO

Com a injecção dos capitais emprestados a economia é dinamizada a curto prazo, mas o problema do pagamento não é resolvido. Apenas os juros serão regularmente pagos. A amortização do capital base será finalizada décadas no futuro, se algum dia o for. Mas estando os credores contentes com o devedor, não haverá problema com a reformulação da dívida ad eternum. Daí os cem anos.
Mas se a economia virar para pior (por exemplo uma quebra no turismo), os credores decidirão que nós somos incapazes de cumprir as obrigações, e os juros aumentarão. Como os juros são pagos com os impostos, e os impostos são subtraídos do rendimento disponível para consumo, as receitas agregadas diminuirão consequentemente. E como cada Euro gasto em Portugal é um Euro de receita para outro português, a economia encolhe. O ciclo vicioso instala-se.
Haja esperança que investidores estrangeiros acorram pressurosos, tirando vantagem dos baixos salários nacionais. Se não, teremos que vender as pratas da casa, para evitar uma austeridade de miséria.
E com o excesso brutal de capitais estrangeiros disponíveis, uma parte criada ad nihilo pelos bancos comerciais europeus, não faltam verbas para comprar Portugal. E lá se irão a região demarcada do Vinho do Porto, os Caminhos de Ferro, os CTT, etc.
Depois de perdermos os rendimentos do que foi vendido, o governo português terá dificuldade em colectar os impostos sobre os lucros em Portugal destes compradores estrangeiros (ver Grécia). Além do mais, o governo terá que arrendar e/ou alugar os serviços dessas companhias e firmas aos novos proprietários. É um negócio ruinoso.
E quando na privatização o comprador é o governo de outro país europeu, como no caso do aeroporto de Atenas, a mistificação de todo o processo chega ao seu auge.

Enquanto se gastam os fundos emprestados, tudo parece bem. É fartar vilanagem. O civismo e as tendências nepóticas inatas do português, garantem uma distribuição harmoniosa do bolo. Como se aprende no livro do Álvaro Santos Pereira, há centenas de entidades e organismos públicos empregando milhares de portugueses. Ele há Fundações, Institutos, Direcções Gerais e Regionais, Gabinetes às dezenas, Orgãos Consultivos, Secretarias, Comissões de Coordenação, Observatórios, etc, etc. E como o emprego de cada um depende de conexões pessoais pacientemente cultivadas ao longo dos anos, a vida social portuguesa resulta numa civilidade conciliadora e atenta, evitando o conflito e respeitando hierarquias sociais de tipo patrão-cliente, e que aqui entre nós, é mais uma qualidade que um defeito.
Em termos de macroeconomia, estes empregos não produtivos garantem um mínimo de procura agregada, aguentam o GDP, e evitam a desigualdade extrema, grotesco resultado dum capitalismo controlado a favor dos 1%, como nas terras anglo-saxónicas. São a base social dos partidos políticos.
E em Portugal, o inevitável lazer de tão repousantes ocupações, leva à proliferação de auto-proclamados escritores, poetas, autores, e artistas plásticos, que se apoiam mutuamente e alimentam vernissages, lançamentos, happenings e outras actividades “culturais”. O CCB é o templo dos iniciados.
E os reformados viram cronistas, como o autor destas linhas.

A contrapartida revela-se contudo a nível internacional, na nossa incapacidade de produzir um filme que se veja, de escrever um romance que se leia. E no Fado, excelentes intérpretes a cantar um deja entendu um pouco chato. Lá de fora, só absorvemos superficialidades e modas.
Tenhamos paciência.
Culturalmente, Portugal é uma ameijoa, filtrando a informação que recebe do exterior, e abrindo-se lentamente ao mundo.
Esperemos pelo esguicho.
Entretanto o mundo financeiro vai comendo Portugal à Bulhão Pato.

Mas o país está lindíssimo. Se não fosse o dinheiro da CEE…
É verdade, mas esquecemos as mudanças muito mais espantosas no extremo oriente, onde há 80 anos Singapura era uma vilória piscatória, os Quataris criavam camelos, e Pequim parecia a chinatown em Nova York.
A mudança nas últimas décadas foi mundial.

E quanto ao dinheiro emprestado…
Entre 1960 e 1975 o desenvolvimento das colónias portuguesas em África foi feito sem dinheiro emprestado em moeda estrangeira.
Tal como nos EUA onde a Segunda Guerra Mundial foi financiada com dinheiro americano criado por bancos americanos, o desenvolvimento colonial foi financiado com dinheiro português, criado em Portugal.
E em comparação com as mudanças começadas em África há 58 anos e que duraram até 1975, as mudanças em curso em Portugal parecem cosméticas.

EPÍLOGO
E quando Cascais se chamar Neues Bayern, e os franceses forem donos da região demarcada do Douro, talvez não seja drama nenhum. Aos portugueses, que por definição serão pobretanas, tanto fará trabalhar para um patrão francês como para um português…..

Se esquecermos a definição depreciativa do português em França:
Les Portugais sont des Arabes Catoliques

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Outubro 2018

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

Últimos comentários
  • Parece-me muito bem escrito e claro(otherwyse eu não teria compreendido…) Apenas não compreendo o uso da sigla GDP em vez de PIB…(talvez a tua prolongada permanencia nos EU,e maior familiariedade com a dita…)
    um abraço ,xú

  • Obrigado Xu
    Diagnóstico preciso
    Tratamento completado
    Ze Luis

  • Muito bom. Infelizmente é assim.

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