De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A gata e eu

Vá para férias mas não abandone o seu animal doméstico, pede a televisão. Não tenho esse problema, não tenho férias e o único animal doméstico que há cá em casa sou eu, afeita que estou ao meu lado da cama, ao meu lugar na sala, ao meu prato na mesa. Mais um olho felino e garra afiada, se for o caso.
Talvez por associação de ideias, o meu amigo lembrou-se de mim. Mandou-me a gata por portador: pêlo preto eriçado e olhos amarelo redondo de medo.
Fiquei alvoroçada como quem recebe um bebé para tomar conta. Tentei inteirar-me dos pormenores, dos gostos, dos hábitos. Mas o portador não sabia de nada. Entregou como quem entrega um pacote e foi à vida dele, missão cumprida.
A gata esgueirou-se para debaixo de um móvel e nada a demoveu. Gestos tenros e falas mansas receberam em troca dentuça à mostra e unhas de fora.
“Não te conheço, criatura. Não sei o teu cheiro nem a tua casa nem a tua voz. Não me venhas falar de boas intenções, que eu não andei na escola, nem a prendi nos livros e as minhas técnicas de comunicação começam e acabam nos meus instintos, nas minhas pequenas garras, na ponta dos meus bigodes, sou gata, não sou pessoa. A tua mão estendida, a tua conversa mole, podem ser coisa boa mas podem ser coisa má. Herdei dos meus antepassados, provavelmente mais antigos que os teus, a noção de que atrás das doces falas dos homens se escondem armadilhas terríveis a que nem eles próprios são imunes. Larga–me da mão, humana. Deixa-me reconhecer o espaço novo que me impões e dá-me tempo. Mais tarde verei.”
Se calhar tem fome. Tigelinha de plástico com comida, arroz, peixinho, água fresca, leite. Para provar a minha boa-vontade. E agora se quiseres come, se não quiseres não comas, tens o teu feitio, eu tenho o meu.
“O meu dono é um bocado boémio. Nunca me deu estas comidas finas, o melhor é desconfiar. Sou uma gata livre. Costumo trepar às árvores e apanhar o meu pardal, correr os recantos sombrios do jardim à caça do meu rato. Aqui nem uma árvore, nem uma goteira verde de musgo, nem um gato vadio, nem ratinho gordo, nem um voo de pássaro. Não gosto disto. A varanda tem grades, os cães ladram lá fora e não vejo nem canteiro onde possa, civilizadamente, satisfazer precisões naturais.”
A casa de jantar um pandemónio. A gata fez porcaria nos vasos grandes da janela francesa. Revolveu a terra, que sujou o tapete. Adubou a palmeirinha de estimação. Depressa, depressa, um caixote de serradura, e espero que percebas, vê lá se percebes, que é ali que se faz tudo, não te atrevas a deixar-me cheiro a gato pelas alcatifas. Ali, bom! Depenicaste o peixe, fizeste careta ao arroz. Bebeste o leite. Enfim, já não morres de fome. Amanhã trago comida de gato. Umas latas de comida para gatos urbanos. Veremos se gostas.
“Já percebi que aqui não se faz nos canteiros. Vá lá uma gata querer ser asseada. Ontem pôs-me um caixote com serradura, aliás confortável, com o qual terei de me conformar. A comida é excelente. Pedaços de fígado de que primeiro desconfiei, encheram-me a barriga. Aquilo é bom. Pena é que tenham desaparecido todos desta casa. Agora tenho fome outra vez e a minha tigela está limpa. Não percebo esta gente. Ontem atafulharam-me de comida. Hoje nem sequer aparecem. Onde estará a lata?”
Entro em casa pela meia noite. O trabalho prolongou-se muito para além do previsto e estou preocupada porque a gata não tem comida. Deve estar a miar ou adormeceu escondida por debaixo dos móveis. Não a oiço.
Acendo a luz. Bem diante da porta a gata olha-me como só os gatos sabem olhar. Está tranquilamente sentada no chão. A seu lado a lata vazia, repescada habilmente do caixote do lixo. Como técnica de comunicação não pode ser mais eficiente. Estabelecido o contacto.
“Felizmente não é estúpida como eu pensava. Percebeu o meu recado. Vou deixar que me acaricie. Vou encorajá-la roçando-me, ronronando, pelas pernas dela, felina e sensual como só uma gata sabe fazer.”
A gata está gordíssima. Agora é meiga e pachorrenta e enorme, sobretudo na barriga. Meu Deus! Como é que eu não percebi antes? Vai ter gatinhos. Aqui, no meu andar? Aqui mesmo. Qualquer dia acordo com uma ninhada de gatos debaixo da cama!
“Gosto desta humana. Arranjou-me um cesto grande. Ela sabe que vou precisar dele. Talvez já tenha tido gatos, ou pessoas, ou lá o que elas têm. A mão dela é cheirosa e macia. Não esconde armadilha nenhuma. Vou ficar orgulhosa de poder apresentar-lhe os meus filhotes.”
Gosto desta gata. É independente. Nunca está onde eu penso. Nunca come o que eu quero. Mas o pêlo dela é brilhante e macio. Adoptou o cesto. Saberá como lhe quero bem! Olho-a nos olhos redondos, cheios de âmbar, fixos em mim como dois segredos e digo-lhe baixinho: “Não tenhas medo, eu estou aqui. Ser fêmea tem destas coisas, destas horas difíceis, e agora é que a gente vê, não é gata? Que somos bem mais iguais do que pensávamos!”
Adormecemos felizes, a sua barriga gorda pesando no meu pé. A gata e eu.

Rosa Lobato de Faria

Este conto faz parte de um conjunto de textos dispersos e inéditos, publicados pela Parténon edições, em 2015, com o título Pedra Rara

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