De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

O estado do Nevada tem, como é óbvio, o seu orçamento e contas, como qualquer entidade económica integrada na macroeconomia da nação. Quando a multinacional AJAX resolve fechar as fábricas localizadas no estado, a crise instala-se. Desemprego geral, quebra regional da procura agregada. Dezenas de pequenos negócios dependentes desse poder de compra abrem falência.

Mas ao contrário da Grécia, o estado está integrado numa união monetária e numa união fiscal. A união fiscal faz toda a diferença. Os subsídios de desemprego, as pensões de reforma, as despesas com a saúde, sendo pagas pelo governo central, suavizam as consequências imediatas da crise. E as leis que regem falências e bancarrotas, que nos EUA são mais complacentes que na Europa, permitem às empresas livrarem-se de dívidas insuperáveis. E lentamente, novas empresas são criadas, aproveitando a descida de salários que a oferta aumentada de trabalhadores provoca. O que resta da massa laboral desempregada emigra para outros estados e em média seis anos mais tarde, o rendimento per capita no Nevada voltará à média nacional.
A Grécia não está integrada numa união fiscal.
Suponhamos que a economia global está a funcionar normalmente (o que está longe de acontecer). Uma solução seria uma moratória ad eternum, com pagamento de juros fixos, suaves, esperando que o tempo e a inflação reduzam o peso do pagamento da quantia principal. O governo inglês ainda anda a pagar dívidas contraídas na primeira guerra mundial. Uma forma de Repressão Financeira (Financial Repression).
O repúdio da dívida sem sair da União Europeia é simplesmente impensável. Só a aceitação concertada de todos os membros o tornaria possível.
Sair da União, repudiar a dívida e voltar ao Dracma resolveria aparentemente alguns problemas. Mas uma crise tipo Lehman Brothers multiplicada por dez, nesta altura da jogada, está para além do que consigo elucubrar. Desde o eclodir da crise em 2007, em vez do esperado dasalavancar das dívidas, aumentou globalmente em cada país a relação Divida/GDP (Irlanda 172%, Grécia 103%, Portugal 100%, China 83%, etc). No sistema financeiro mundial, a reacção em cadeia ao repúdio da dívida grega seria catastrófica.
Aceitar as exigências da Alemanha, com o cumprimento escalonado do pagamento, levará provavelmente à austeridade permanente, com mais dívidas contraídas para pagar encargos, ao que Hyman Minsky chama Ponzi Finance. Com o tempo terão que vender as pratas da casa (o Partenon deve valer bom dinheiro) e como na China do século XIX, haverá territórios autónomos Alemão, Chinês, Americano, vendidos para pagar as obrigações financeiras. Ou talvez a Apple, Microsoft, Exxon comprem partes do território grego para férias dos seus empregados. Sabe-se lá.
A noção de que os países em carestia precisam de capital, vindo de fora, está ligada à noção de Capital ser uma quantidade finita, que tem que ser aplicada onde faz falta. Está ligada à teoria da Quantidade do Dinheiro. Parece ser o catecismo usado hoje em dia nas relações de poder entre esferas económicas. Uma digressão:
Entre guerras, ouve uma transferência maciça de ouro da Europa para os EUA. No início das hostilidades os EUA encontravam-se por isso numa situação favorável para responder às necessidades financeiras da guerra, mas com fundos insuficientes para cobri-las na totalidade. Além do recurso a uma enorme divida interna, um terço das despesas foi obtido com a venda de obrigações aos bancos americanos, que criaram dinheiro a partir do nada, para comprar a divida do governo. Quando a guerra terminou, os EUA tinham uma divida interna que era 125% do GDP. Era necessário capital para a reestruturação de toda a capacidade industrial, agora ao serviço da produção de bens de consumo (automóveis, frigoríficos, rádios, etc), formação profissional de milhares de jovens desmobilizados(a GI Bill), plano Marshall para a Europa, etc. Nem um cêntimo de capital vindo do exterior era possível pedir emprestado. Sem falar da Alemanha e Japão arrasados. Mas como capital vindo de fora não estava disponível, os EUA criaram o capital necessário. E sobrou suficiente para investir na Alemanha e Japão, de modo que 15 anos depois eram os três países, os mais ricos do mundo. E sem a “ajuda” de capitais exteriores.
Mas tudo isto e muito mais, sabem os sobas do BCE. O que lhes vai na cabeça só o tempo dirá.

Fontes – Krugman, FT 5/2/2015, Bernstein

grecia 1
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Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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