De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

A segunda vaga

Sábado de manhã. Centro Comercial das Amoreiras. Estamos na fila. Ninguém sabe para quê. Deve ser para a morte. Embora alguns estejam só para comprar papel higiénico.

 

Fiquei com saudades de percorrer o meu velho bairro em tempo de pandemia. De visitar os sem abrigo, de atender aos seus pedidos. Do velho por quem passava todos os dias e me pedia, volta e meia , um sabonete, uma pasta dos dentes…e dizia « eu durmo na rua, mas sou limpinho». Saudades.

Meto-me no metro rumo à Baixa. Saio nos Restauradores. Na minha frente, a Rua 1º de Dezembro deserta, completamente vazia. São onze da manhã , hora em que aquela rua fervilhava de gente antes da pandemia. Até os drogados com cães, que costumavam estar à porta do Celeiro, desapareceram. A Praça do Rossio é atravessada por oito pessoas. Um panorama muito parecido com o mês de Março. Com a agravante de, agora, se verem muitas casas comerciais fechadas. Penso ir tomar um café ao Nicola, mas dou de caras com a porta fechada a cadeado. O Bocage está confinado!

Desço a Rua do Ouro, vou revendo as lojas de comércio tradicional por onde passei durante quarenta e dois anos. Vejo muita porta fechada. E os que estão abertos, estão à porta com ar convidativo, sorrindo, dizendo muito simpaticamente «bom dia, entre para ver… ». Alguns têm mesmo um ar envergonhado. Hesitam entre mostrar que estão perdidos ou mostrar que as coisas vão indo, que é uma questão de tempo. Tento não perguntar nada, não mexer na ferida. Deixá-los disfarçar. Gostam de me ver. Cumprimento-os, fazendo de conta que nada se passou.
Deixo-lhes espaço para a sua dignidade.

As lojas dos paquistaneses continuam a abundar. Uma ou outra fechou, mesmo assim ainda ocupam a maioria do comércio na Rua dos Fanqueiros, Rua da Prata, Rua do Ouro e adjacentes. No meio de chapéus mexicanos em cortiça, ímanes para o frigorífico com a torre de Belém, cachecóis, camisolas e bolas de futebol com o número do Ronaldo, galos de Barcelos de todos os tamanhos, no meio de tudo isto, filas inteiras de Nossas Senhoras de Fátima, tristíssimas, olham em direcção ao chão. Parecem-me também envergonhadas.

No Terreiro do Paço, D. José contempla o rio tranquilamente. Já se habituou a ver a praça deserta e as cadeiras das esplanadas empilhadas. A árvore de Natal ergue-se tímida a lembrar que há vida para além do covid.

Na Rua Augusta, encontrei uma vendedora ambulante minha conhecida de há muitos anos. Mora em Alfama. Diz-me « já me viu esta desgraça? Não vendia nada, arrumei o carro e fui para casa. …não passa ninguém! Sabe que vou ter que deixar a minha casa em Maio ? Agora é mesmo para sair». E leva um lenço aos olhos molhados. «Mais vale nem falar…». E cala-se. Depois retoma, indignada e ainda com algum fôlego «mas diga-me lá, para quê construir tantas ruínas romanas, o balneário, o teatro romano da Rua da Saudade, as termas romanas da Rua da Conceição…para que servem agora? Mais valia terem feito umas casinhas para a malta que fica sem casa!» Ajeita o xaile nas costas e diz-me « saudínha filha, que Deus a ajude». Eu não consegui dizer-lhe nada.

Na Rua dos Douradores, a bicha de gente para as senhas do almoço, distribuído pela Igreja de S. Nicolau, começa às voltas, duas ruas atrás. Não vi o velho que era “limpinho”. Estranhei…
Não tive coragem para ir até à Sé, ver o meu antigo bairro. Viro para estação do metro fugindo àquela desolação.

A sensação de partilha que vivemos em Março, desapareceu.
A ideia romântica da comunidade com imagens virais de serenatas de vizinhos, não existe mais.
A ilusão de que estávamos todos no mesmo barco, dissipou-se e deu lugar ao desespero. E os “venturas” trepam, e aparecem as cabecinhas atrás do muro.
Acabou o realismo. Entramos numa fase surrealista.
Uma oposição de esquerda vendida e calculista. Uma oposição de direita desorientada e oportunista. Posições reunidas num desígnio maior: O de vigiar de perto a impotência do Governo e espreitar os seus erros para aproveitar eleitoralmente . Nunca se viu tanta sarna à espera que o Governo falhe e que a população sofra uma tragédia. Esfregam as mãos a dizer «quanto pior, melhor».

Ligo a televisão para saber o número de infetados e mortos de hoje. O primeiro Ministro fala.
Mas eu não entendo. Com toda a consideração pelo seu trabalho, não entendo. As regras sanitárias são tão complexas e vastas, que ultrapassam qualquer entender.
Entender é sempre limitado, mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. O bom é ser inteligente e não entender. É como ter loucura sem ser doida. De vez em quando, inquieto-me e quero saber um pouco mais. Não demais, mas pelo menos entender que não entendo.

Manuela Carona
Janeiro, 2021

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Os senhores do Atrium das Glicínias, Investimentos Imobiliários Lda., puseram os telemóveis em cima da mesa, tais cowboys nos filmes de western spagetti, e assinaram comigo um acordo. Entrego as chaves da casa até dia até 31 de Agosto e recebo cento e cinquenta mil euros. Ao tirarem os casacos,

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Escrito por

Actriz, nasceu em 1947, natural do Porto, vive em Alfama

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