De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...

Uma Caixa de Aforro não é um Banco Comercial. É apenas um intermediário financeiro. O dinheiro que empresta é dinheiro depositado pelo público na Caixa e residente na conta da Caixa no Banco Comercial. Quando alguém aborda uma Caixa de Aforro a pedir um empréstimo e a Caixa acede concedendo o mesmo, esse dinheiro é apenas transferido da conta da Caixa para a conta do novo devedor no Banco Comercial. A conta do devedor aumenta e a do credor diminui. Não há criação ou destruição de dinheiro. Do ponto de vista do Banco Comercial houve apenas uma transferência de dinheiro entre duas contas à ordem.
Uma fonte de confusão é a designação de Banco aplicada tanto a Bancos Comerciais (parte do sistema do Banco Central) como às Caixas de Aforro. A diferença é fulcral. Só os bancos comerciais criam dinheiro. A caixa de aforro, os fundos de investimento, os bancos na sombra (shadow banks), etc não criam dinheiro. Só emprestam dinheiro preexistente. Como quando o cidadão comum empresta dinheiro a outro cidadão.
Quando alguém vai pedir um empréstimo a um Banco Comercial e o banco acede, o dinheiro é criado a partir do nada. Nem é debitado de qualquer conta pré-existente, nem existia antes de ser emprestado.
Vai então circular na economia até ser pago de volta ao Banco e destruído. Quando uma dívida é paga, o dinheiro desaparece. E tudo volta ao princípio.
Mas com uma diferença: os juros entretanto gerados, serão eternos.
Nos EUA os bancos comerciais também criam dinheiro quando compram ao Governo Títulos do Tesouro ou Obrigações Municipais. Na coluna de Activos fica um Título do Tesouro ou uma Obrigação. Na coluna de Passivos fica uma conta à ordem para o Governo ou o Município gastar como lhe apetecer. Chama-se a isto Monetização da Dívida (o Banco Central Europeu proíbe isto, mas em circunstâncias excepcionais abre excepções, através do Securities Market Program, o que vem a dar quase ao mesmo).
E quando um banco comercial precisa duma sucursal, bingo! Cria e gasta dinheiro que gerou a partir do nada.

Por outro lado, o dinheiro é destruído quando uma dívida ao banco é paga, quando um banco comercial vende obrigações do Tesouro a uma entidade não bancária, quando entidades não bancárias pagam com dinheiro bancário (duma conta à ordem por exemplo) serviços prestados por um banco comercial. E também, quando o Governo vende títulos do Tesouro ao sector privado não bancário.
E o dinheiro é temporariamente removido da circulação quando é transferido duma conta à ordem para uma conta a prazo.
A taxa de criação de dinheiro ultrapassa de longe a da destruição. A acumulação gigantesca de liquidez, sem uma inflação a contrabalançar, leva a uma situação completamente diferente da que existia nos tempos do padrão ouro. Nesses tempos o metal funcionava como uma âncora, impedindo a amplificação astronómica de dinheiro bancário.
A ligeireza do processo é demonstrada com o episódio que se segue: Quando as regras de Basel forçaram os bancos a reservas de capital adequadas, o Credit Suisse não teve qualquer problema. Criou uns biliões a partir do nada e emprestou o dinheiro ao Qatar. Por sua vez o Qatar comprou acções do Credit Suisse, e bingo! As regras de Basel foram cumpridas.
A única saída que este oceano de dinheiro tem, é comprar Títulos do Tesouro e Obrigações e Acções de companhias listadas na bolsa. E no agregado não é saída nenhuma. O dinheiro continua circulando e o oceano transbordando com cada ciclo de despesas/receitas e juros acumulados.
A criação de dinheiro é a chave para a compreensão do sistema financeiro.
A criação de dinheiro e de quase-dinheiros passa por um processo de alavancamento de formas prévias de dinheiro, à medida que as formas de quase-dinheiros resultantes vão sendo criadas. Passa por circuitos separados de circulação, em que as formas de dinheiro criadas de novo, são nominalmente aumentadas e ancoradas ao dinheiro prévio alavancado, cujo valor agregado se mantêm nominalmente o mesmo. Para quem tiver a pachorra de pôr isto no papel, a recompensa é excitante.

O Banco Central é o banco dos Bancos Comerciais, onde estes têm contas sob a forma de Reservas. As Reservas são dinheiro interbancário que não é nunca emprestado ao público (indivíduos, firmas, empresas). Este circuito primário é Interbancário. O circuito secundário público é entre as contas à ordem existentes no sistema comercial bancário. O valor agregado das contas à ordem é muito superior ao das reservas existentes no Banco Central, que se mantêm inalteradas (em condições normais, noutra ocasião falaremos nisto).
No City Bank em Nova Iorque, há contas à ordem pertencentes a bancos Estrangeiros, tal como num banco comercial há contas à ordem pertencentes ao Público, e no Banco Central há contas à ordem pertencentes aos bancos Comerciais. E estas contas no City Bank são denominadas em dólares que nunca saem do sistema bancário americano, tal como as reservas no parágrafo anterior nunca saem do Banco Central Nacional e respectivos Bancos Comerciais agregados. E quando estas contas no City Bank são o dinheiro subjacente que irá ser alavancado, não sofrem qualquer aumento ou diminuição quantitativos. São apenas a base de promessas de pagamento implícitas na criação do novo dinheiro, dos Eurodólares. E lá longe no estrangeiro, os bancos locais emitem os Eurodólares, alavancando o dinheiro que possuem nas respectivas contas no City Bank. E de novo os quantitativos são muito superiores ao valor agregado das contas bancárias estrangeiras no City Bank.
E o departamento que lida com Eurodólares está no mesmo edifício da sede do City Bank em Nova Iorque!
Uma pirâmide invertida!
O Circuito Primário é Interbancário sob a forma de reservas no Banco Central.
O Circuito Secundário existe sob a forma de numerário nas contas à ordem existentes nos bancos comerciais americanos.
O Circuito Terciário existe fora dos EUA, sob a forma de Eurodólares criados por bancos estrangeiros com contas no City Bank.

E assim por diante…

José Luís Vaz Carneiro
Tucson, Junho 2017

ad nihilo

Fotos de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Médico Hospitalar (EUA)

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