De A a Z, tudo se pode fazer DE OUTRA MANEIRA...
 

Até ao pescoço

Eram os primeiros dias de recolhimento, 19 de Março, e escrevi a uma amiga:

“Há muito que ando para lhe escrever, saber de si, manter vivo o elo invisível da amizade que nos liga.
Este é o momento. E quando escrevo, este é o momento, ocorre-me que este é também um possível momento de se dar uma viragem no caminho da Humanidade. Perante o que se está a passar no mundo, acordo diariamente com uma questão, uma grande curiosidade, e uma grande esperança. Perante esta temível ameaça que vem arrasar tantas estruturas, iremos finalmente despertar? Entenderemos todos que ela traz consigo uma proposta, uma espécie de aviso que se não forem levados em conta, outras se poderão seguir com igual ou pior impacto?”

Inquietude, dispersão, ansiedade, preocupação, esperança, desorientação interior, resistência, luta, rendição, paz. Por estes estados de espírito vou atravessando os dias, resguardando-me do excesso de notícias, televisão apenas para o telejornal das 20h, e de seguida um filme ou série, os únicos momentos em que fico totalmente absorvida e dou algum repouso à mente inquieta.

Nem os livros, na primeira semana, me arrebatavam, nem a escrita, essa então, e até hoje, completamente inacessível. Dificuldade de concentração na actividade intelectual. Recorro à meditação, a angústia esfuma-se, fico grata.

Exercício físico também, caminhada matinal de 20 minutos à volta do jardim, subir e descer escadas, e já dentro de casa, os exercícios que a fisioterapeuta me deixou. Ela vai ter um bebé em Maio. Não escondo a enorme curiosidade sobre como será o mundo quando ele tiver os 35 anos da mãe.

Arrumações, limpezas, ligar para saber dos amigos, ouvir-lhes a voz, aumentar a frequência das chamadas aos mais frágeis, mais velhos, com menos saúde e mais solidão. Fiz uma lista para não esquecer nenhum deles, já a copiei sete vezes na agenda, quatro para cada semana que passou e mais três, tarefa adiantada porque ainda não se vislumbra o fim. A música bastante presente, jazz a maior parte do tempo.

Enquanto aspiro a casa que me parece uma pista de aviação de horizonte perdido, os braços e as costas a darem sinal, penso na Margarida e na Jessica, as duas “mágicas” a quem todas as semanas agradecia por me deixarem a casa num brinco. Trabalho duro e pouco valorizado, e bem duros são alguns outros vergonhosamente remunerados.

Como esquecer a enfermeira que há dias no telejornal da SIC revelou, dentro do hospital onde arrisca diariamente a vida, que levava todos os meses para casa, 630 euros? Dias antes os jornais voltavam a referir os valores médios anuais auferidos pelos administradores das maiores empresas portuguesas: 1.000.000 euros, sim, um milhão de euros.

Quero acreditar que a nossa reclusão forçada nos ajudará a reflectir, proporciona-nos uma oportunidade única de saber o valor de parar para sentir, para nos auscultarmos e percebermos quanto nos temos afastado de nós, da nossa essência mais profunda e sensível, quanto nos temos distanciado uns dos outros, iludidos com a comunicação fácil e tantas vezes vazia das redes sociais, quanto nos temos esquecido do essencial para valorizar o supérfluo, quanto nos temos maltratado, traído, quanto temos desprezado a Terra que tudo nos tem dado e que finalmente agora respira um ar mais puro, nestes dias em que o ar está a faltar a tanta gente e a tirar-lhe a vida.

Penso no descontentamento em que vivia apesar de me sentir sempre grata por tudo o que a vida me tem dado, desde a saúde, aos amigos, ao conforto, ao à vontade económico. Penso na sorte que tenho de poder atravessar este período terrível, no conforto da minha casa, um espaço seguro onde todos me querem bem, gatos e cão incluídos.

Apesar de tantos privilégios, quantas vezes, no passado, me escutei a dizer baixinho: quando é que isto vai parar, até quando aguentaremos este ritmo, este turbilhão que nos suga e donde não sei fugir, até quando teremos de suportar a bestialidade, ignorância, ausência de ética e de valores do espírito que imperam, sentia-me tão impotente. Desde o início do ano que vinha desabafando com amigos sobre o sentimento de estarmos a chegar ao limite de alguma coisa, a exceder os nossos próprios limites e a ultrapassar, em inúmeras áreas, os limites da decência.

Um dia comprei um livro. “Parar”. Tinha tentado diferentes estratégias mas voltava sempre às minhas actividades dispersas e ao que mais me castiga: excesso de responsabilidade e preocupação. Não são reais motivos de preocupação as minhas múltiplas tarefas, eu é que as valorizo exageradamente dentro de mim. Presa no meu filme, a única reacção que me parece possível é fazer tudo no mais curto espaço de tempo porque vem aí mais. As coisas para fazer são estímulos para o meu corpo de dor.

Parar foi a palavra de ordem e o mundo parou. E mesmo assim ainda andei preocupada muitos dias por me sentir incapaz de fazer o que quer que fosse. Agora que podia ficar em casa, onde adoro estar, sem compromissos, solicitações de toda a espécie, pressões com prazos, agora que o tempo era todo meu, via-me desorientada como se tivesse de continuar no mesmo ritmo, cumprindo, cumprindo sempre alguma coisa. Até que me rendi. E quem me dera que sem ameaças de vírus ou outras, o ritmo desenfreado do mundo abrandasse. Tenho dias, muitos, quase todos, em que chego a desejar que esta paragem durasse muito mais tempo.

Vem-me à memória a canção “Pare, escute e olhe, preste atenção ao sinal”, que se ouvia nos anos 70 pela voz Zé Mário Branco. Deixar cair a arrogância, aceitar o alerta com humildade e prestar atenção ao sinal que ele nos dá. “Até ao pescoço”, era o título do álbum, e eu, como milhões, já estávamos e ainda estamos, até ao pescoço.

Se o sinal é de mudança de paradigma, é também de trazer para o que construirmos de novo, a grandeza de milhares de pessoas, profissionais de saúde, jovens empresários e técnicos, cientistas, e tanta gente anónima que generosamente se entregam todos os dias, incansavelmente a uma causa comum: a vida e o bem-estar do outro. Como, perante estes exemplos, posso não ter esperança? Como, perante tanta dedicação e entrega, se poderá continuar a subestimar este exército de boas almas, negando-lhes a vida digna que merecem?

Sinto hoje com maior insistência, que é chegado o momento de repensar o meu pequeno mundo que fui edificando, e ao repensar e transformar o pessoal, ajudo a transformar o colectivo. É tempo de deixar para trás os destroços e tentar edificar um mundo novo. O que já ruiu, o que ainda está para ruir dentro e fora de nós, não é desejável que seja reconstruído à imagem do que era, mas que se crie algo de novo. Quero acreditar que de mim sairá finalmente a pessoa que eu não estava a conseguir ser por medos, e inseguranças diversas que o mundo, organizado como estava, ajudava a ampliar. Quero acreditar que se todos, ou grande parte de nós, conseguirmos ler o que vem escrito nas entrelinhas desta paragem obrigatória, desta crise tão profunda, conseguiremos construir um mundo mais humanizado e fraterno.

Hoje mais do que nunca, desejo que o mundo inteiro saiba olhar, apreciar e desejar que o ar limpo que agora se respira, o regresso das aves, a saúde devolvida dia a dia ao Planeta, não sejam apenas fruto momentâneo desta paragem obrigatória, mas uma inspiração para todos. Uma premência, uma urgência em todas as estratégias a que tivermos de recorrer para recomeçar o dia a dia de trabalho.

Ana Zanatti
Abril, 2020

Fotos de Manuel Rosário

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Escrito por

Estudou no Liceu Pedro Nunes, Faculdade de Letras, Conservatório Nacional (curso de teatro). Desde 1968 trabalha em teatro, televisão, cinema, rádio. Em 2003 começou a publicar romances e contos infantis. Continua a escrever.

Últimos comentários
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    Temo à precipitada retoma da ‘economia’, a continuação dos interesses instalados que anseiam por se reinstalar. Não ouvi de ninguém uma única palavra de intenção de olhar de frente a fome e a pobreza como algo que não deve existir no mundo e aqui no nosso pequeno espaço. Sinto o texto profundamente. Gostaria de o ter escrito, de tal modo me identifico com ele. Mas fico feliz por ser da Ana. Reconheço-a. Amiga.

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    Obrigada pela leitura atenta e pelo comentário, Isabel. Amiga. E temo, igualmente, que este recomeço a passos curtos, esconda uma insana precipitação para se reconstruir pedra por pedra o edifício anterior. Mudar a arquitectura não é questão que até agora se tenha colocado.

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