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Chirigotas

Chirigotas são agrupamentos musicais que apresentam temas humorísticos pelas ruas durante o Carnaval. Em Cádiz, fazem-se competições todos os anos, onde o disfarce cómico dos músicos e a mordacidade do tema contam mais até do que a própria música – geralmente simples e inspirada nos estilos populares andaluzes mais conhecidos (pasodoble, rumba, sevillana, etc.).

Este ano cantam como quem se queixa que, afinal, a tal Miss Argentina – conquista tão inesperada – quando vista de mais perto (ou até perto demais) revelou-se uma … Mister Argentina: a desilusão da coisa! E que tal a Miss Ógena, cujo temperamento ingrato é tão famoso? E tantas mais voltas loucas das mentes desenfreadas deste grupinho que, desde os tempos de escola, se reúne uma vez por semana para compor chirigotas – o que só se pode fazer, coisa consabida, com gasto considerável de cerveja e moscatel barato!
O tempo passou, as misses não vieram, as mulheres foram chegando mas eles, já com os filhos quase adolescentes aos pés, continuam alegremente a sorrelfa. No dia de Carnaval, em frente ao portão de um prédio de Cádiz, lá estão eles vestidos nos seus ternos brancos, chapéu à gigolo e gravata vermelha a condizer. Todos de igual, como manda a tradição. Tocam instrumentos engalanados com as roupas interiores das misses – as tais que acabaram por não chegar – e cantam as letras patetas das suas composições etílicas. Tudo isto no meio da multidão que passa e pára, risonha, encantada com o ritmo e a burrice das mentes em rodopio: um turbilhão de gente engalanada, enfeitada, disfarçada, resplandescentemente alternativa.
Entre o público que se ri circula o miúdo – o tal que já quase tem idade para fazer parte da banda – vendendo os panfletos que o pai mandou imprimir na gráfica do avô e onde, a seguir à literatura escaldante das letras, se anuncia que a banda pode ser contratada, em grupo ou individualmente, para casamentos, baptizados, óbitos … orgias … enfim, assim vai a coisa por aí a baixo.
Na audiência, há um grupinho de disfarçadas que bate palmas com mais força: lá serão as tais esposas, mães, namoradas… Quer dizer, as tais que, não sendo misses, são afinal … Enfim, cada um deles, estou certo, se recusará a confessar a si próprio o que cada uma delas representa no espelho das misses. Confissões em dia de Carnaval – coisa que se faça lá!

João de Pina Cabral
Março, 2014

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Video e fotos de João de Pina Cabral, Manuel Rosário, Mónica Chan e Minnie Freudenthal

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Escrito por

Antropólogo social, Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais entre 2003 e 2005. Entre muitas outras obras é autor de Between China and Europe: Person, Culture and Emotion in Macao. Continuum/Berg, Nova Iorque, 2002 e co-editor com Frances Pine de On the Margins of Religion, Berghahn, Oxford, 2007.

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