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À conversa no consultório

Se nós, médicos, gastarmos o tempo suficiente a conversar com os nossos doentes, apercebemo-nos que os seus sintomas estão muitas vezes relacionados com o seu estilo de vida e ambiente social.
Quando saí da Faculdade de Medicina, a vida hospitalar era o meu sonho.
Fiz a pós graduação em Nova Iorque, o que me deu uma excelente e variada experiência da vida hospitalar. Ali, ajudamos pessoas muito doentes e uma das nossas preocupações é a de dar alta ao doente o mais rápido possível e nem sempre por razões altruístas, já que a pressão financeira é bastante óbvia.
Todos sabemos que esses mesmos hospitais são potencialmente perigosos para as pessoas que queremos tratar, que a alimentação é quase sempre de má qualidade e que os recursos humanos estão, a maior parte do tempo, com excesso de trabalho.
Mas foram os anos que passei em clínica privada que me levaram a entender que o consultório é onde podemos, de facto, ter um impacto nos hábitos de saúde das pessoas que nos consultam.
Vejo a ciência e a tecnologia como “janelas” para a leitura do mundo em que vivemos, que não substituem tantas outras disponíveis para seres humanos encontrarem um equilíbrio na vida que, geralmente, se manifesta como “saúde”. Sejam estas janelas religião, espiritualidade, medicina tradicional, diferentes formas de exercício, alimentação, arte e por aí adiante.
A medicina, como uma forma de cura, não deve olhar apenas através da poderosa lente tecnológica que a ciência criou. Na altura, ao ler The Great Disruption de Francis Fukuyama (um professor de política social em George Mason University, USA), reparei que alguns dos temas discutidos também se aplicavam ao campo da medicina. Um destes temas era a ” desritualização ” da vida moderna e um dos exemplos dados era a diferença entre o envelhecimento das pessoas na Europa e EUA no início do século 21 e o de há trezentos anos atrás. É fácil de imaginar onde é que o autor quer chegar: um no hospital ou casa de repouso, o outro em ambiente familiar.
A modernidade, com a sua articulação tecnológica da vida, mudou a ordem social criada pela vivência diária das pessoas. A velocidade de alterações no último século tem sido tão rápida que é fácil de imaginar que estamos todos a tentar, com toda a rapidez que nos é possível, adaptarmo-nos à perda de antigos rituais que serviam de âncora às tensões da vida.
Nessa necessidade e procura de novos rituais vemos sintomas de tensão acumular-se no corpo e na mente, causando sofrimento.
Hoje, através da poderosa lente da medicina moderna até nos é possível descodificar os riscos genéticos da lotaria da vida à nascença. No entanto, é conhecido por todos o que o stress crónico representa de risco para doenças de todo o tipo, desde cardiovasculares a cancros.
É no consultório, se realmente escolhermos passar algum tempo a conversar com os nossos pacientes, que melhor poderemos entender o contexto físico, mental e social dos desequilíbrios vividos no dia-a-dia.
Só assim poderemos, com alguma eficiência, trabalhar com os pacientes, soluções mais profundas para a raiz da doença.
Poderemos, assim, contribuir para uma melhor integração e flexibilidade de todos os factores que contribuem para o que podemos chamar de “bem estar”.

Minnie Freudenthal
Junho, 2014

à conversa no consultório

Fotografias de Minnie Freudenthal e Manuel Rosário

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Escrito por

Alice Minnie Freudenthal, médica Internista pelo American Board of Internal Medicine e Ordem dos Médicos Portuguesa. Áreas de interesse; neurociência, nutrição, hábitos e treino da mente. Curso de Hipnose clínica pela London School of Clinical Hypnosis. Curso de Mindfulness Based Stress Reduction. Palestras e Workshops de diferentes temas na área da neurociência para instituições académicas, empresas e grupos.

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